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sexta-feira, setembro 08, 2006

Promover uma cultura de exigência nas nossas escolas

A sociedade é cada vez mais competitiva, cada vez mais exigente. No trabalho, no desporto, no lazer, na formação e na investigação cada vez se exige mais e se estabelecem metas cada vez mais ambiciosas. Esta postura de exigência nem sempre é possível de ser aplicada na escola.
O processo de socialização do aluno, os problemas do sistema de ensino e a contradição e os seus grandes objectivos e as reais condições com que se deparam as escolas, bem como a orientação política de muitos governos, mais preocupados com estatísticas de sucesso/insucesso para Europa ver, têm levado à aprovação de sistemas de avaliação e progressão pouco concordantes com o grau de exigência que se pressente na sociedade em geral.
Da constatação destes factos resulta que não podemos continuar a passar a mensagem de que é mais cómodo promover o sucesso, mesmo sem o aluno saber, do que fazê-lo repetir novamente o ano, para que os objectivos e competências definidas sejam efectivamente atingidas.
É pois missão da escola, não só, ter em atenção todas as componentes sociais, económicas, afectivas e psicológicas dos alunos, mas também pugnar por um ensino de qualidade.
A aprendizagem da vida em sociedade passa pela aprendizagem de que o estudo, o empenho, o esforço, a dedicação devem efectivamente ser premiados. É assim que se passa na sociedade. Só os mais capazes, os mais exigentes consigo próprios é que são normalmente premiados, reconhecidos.
A escola no seu todo não pode ficar indiferente. Sem promover a competição, deve contudo, preocurar-se em formar com rigor, com empenho, em suma, com exigência.

segunda-feira, setembro 04, 2006

O ensino em Portugal visto pelos imigrantes do Leste

"Alla desistiu de ter o filho, de 12 anos, a estudar em Portugal. Ao fim de seis anos de escolaridade, fartou-se de o ouvir dizer que "ia descansar para a escola", que aqui se aprendia brincando e da "grande indisciplina" que marcava o dia-a-dia do ano lectivo nacional. O miúdo até ia bem - era um dos melhores da turma - mas voltou para a Ucrânia. Lá garante a mãe, é "tudo muito diferente. A professora não é uma amiga, é quem ensina. Os alunos estão lá para trabalhar e aprender. Não há brincadeira".
O embate foi duro para quase todos os imigrantes do Leste com filhos a estudar em Portugal. E começou logo nos primeiros dias da 1ª classe. Os meninos e meninas chegaram à primária a saber ler e escrever, a dominar as operações básicas de matemática e ainda com formação musical e física. Os seus colegas - todos portugueses - estavam ainda em branco.
Desde os 3 anos, na Ucrânia, que as crianças vão para a escola ter aulas de língua materna, matemática, música e educação física. "Como são pequenas, só têm 20 minutos de cada disciplina", explica Alla, garantindo que estão "sentados a trabalhar e isso é normal". Aos quatro, russos e ucranianos, aprendem a ler e a escrever. Se não o souberem, ficam para trás, ou "chumbam", uma vergonha nacional a que - pasmam-se os imigrantes - "ninguém liga nenhuma aqui!".
Explicar que só no final do 4º ano é exigido que os alunos portugueses saibam ler, escrever e contar, torna-se difícil de traduzir. Porque o fosso que divide a educação nacional e a das memórias dos imigrantes do Leste é, de tamanho "extra large". "Prefiro nem falar disso", diz Julia Gundarina, uma professora russa que apesar de estar cá há cinco anos e de "gostar tanto" que nem pensa em voltar para casa, assume que "a educação é o pior de tudo". Estranham, sobretudo, a maneira como se ensina, a falta de ordem, a "balda" generalizada. "Na Rússia os professores são mais exigentes", diz num português ainda mal arranhado, mas suficiente para perceber que importa não ferir as susceptibilidades.
Preferiram mudar de estratégia e criar alternativas. "A educação e a indisciplina nas escolas é um dos principais problemas da integração", diz Sérgio Treffaut, realizador brasileiro que produziu e dirigiu o documentário "Os Lisboetas". "Os imigrantes do Leste queixam-se muito destes aspectos. Acham que a escola, aqui, é demasiado banal", diz. Há quatro anos, abriu no Restelo uma escola russa que Julia dirige. Há cinco, Alla Lirkovest abriu uma escola ucraniana no Estoril. Mais de 120 estudantes estão no Restelo, desde ontem de manhã, em aulas que só fecham em finais de Junho. As turmas de ALLa não ultrapassam as 20 crianças e regressam hoje ao trabalho.
Começaram com o objectivo de ensinar a língua e cultura russa e ucraniana, mas alargaram a sua área de actividade. Ensinam os que acabaram de chegar a falar português e a aprofundar conhecimentos aos que frequentam a escola normal. Aos sábados, vindos de Setúbal, de Torres Vedras e de todos os arredores de Lisboa, as crianças passam nove horas seguidas na escola. Compensam num dia as falhas de uma semana de trabalho. "Ficam cansadas", garante Julia. Na segunda-feira voltam à escola portuguesa. Para descansar mais um pouco..."

Rosa Pedroso Lima no "Expresso"


Estes imigrantes do Leste não precisam de muito tempo para conhecerem a realidade portuguesa. Na educação, conseguem fazer o diagnóstico correcto - até mesmo as crianças, pasme-se! - algo que nós portugueses nunca conseguimos. Disciplina, exigência e trabalho. É muito simples. Só nós é que teimamos em não ver, que a chave do problema para a melhoria do ensino neste país, passa pela implementação destes factores. Em vez disso, escudamo-nos em teorias pedagógicas de valor mais que duvidoso que há muito minam e fragilizam o sistema de ensino em Portugal
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sexta-feira, agosto 18, 2006

Sobre o que não fala a ministra nem ninguém

"A época de exames e as suas peripécias puseram a nu a fragilidade da política educativa do Governo. E, mais gravemente, mostraram - coisa ainda pouco posta em evidência - como o actual Governo, nos mais diversos domínios, despreza ou ignora o princípio do Estado de direito. Modificar as regras de acesso à universidade em pleno processo de avaliação, fazê-lo sem alterar as respectivas leis, aprovar à pressa e a posteriori um lei inconstitucional (por violação da protecção da confiança) e mandá-la publicar escassas horas depois, terminando com a produção de um despacho que já havia sido emanado e divulgado sem qualquer base legal, é a negação pura e simples do núcleo essencial do Estado de direito. Nada que admire ou espante num país de costumes brandos, em que as regras estabelecidas não valem nada e os improvisos e "jeitinhos" valem tudo.
A gravidade do caso não reside só no que ele representa para a nossa vida cívica e para o exemplo que o Estado dá aos jovens portugueses. Reside também na circunstância, de ao fim e ao cabo, ele pôr na sombra e no olvido as centenas de milhares de jovens e de alunos que não são candidatos às universidades. Centenas de milhares que, sem qualquer formação adequada, pululam por aí.

É muitas vezes notado que o Estado Novo seccionou o sistema de ensino em dois segmentos. O segmento académico alicerçado nos "liceus" e conduncente às universidades, e o segmento profissionalizante, alojado nas "escolas técnicas" e, qundo muito, tendente aos "institutos superiores". Percebe-se que um regime corporativo - assente na representação orgânica das profissões - tivesse lugar para a preparação dos ofícios e mesteres. E percebe-se ainda que um regime "elitista" quisesse separar o destino dos "meninos bem" e dos meninos "sobredotados" do fado dos filhos de uma classe média e emergente (as escolas técnicas). Isto para lá de, por força de uma mundividência "ruralista", a grande massa dos jovens viver então à margem de qualquer formação escolar secundária e se ver constrangida a ingressar aos 10 ou 12 anos no mercado de trabalho (ou melhor, no "mercado dos aprendizes").
naquele universo educativo, o ensino técnico garantia entretanto dois objectivos altamente meritórios. Primeiro, fornecia uma aprendizagem efectiva - servida outrossim por uma formação geral satisfatória -, que permitia que os alunos chegassem ao mercado de emprego com "ferramentas" de trabalho. Segundo, e um tanto paradoxalmente, constituía um autêntico patamar de elevação social. Com efeito, apesar do rótulo social, muitas pessoas que, de outro modo, nunca passariam de ocupações indiferenciadas logravam converter-se em quadros empresariais médios e intermédios. Muitas delas - para quem, à partida, a universidade representava uma quimera - acabavam mesmo por completar graus académicos.

O 25 de Abril, movido pela euforia igualitária, aboliu o ensino técnico. E fê-lo, em grande parte, de boa-fé. Alegava-se que este se fundava num prejuízo de classe, adjudicando o estudo académico aos privilegiados e o ensino prático aos excluídos. A abolição, no entanto, não era mais do que um pueril sintoma da sobrevivência do "preconceito" do regime anterior. Também para a democracia, o exercício de profissões de alçado universitário. E se era assim, deveria decretar-se o fim das profissões braçais, ordenar-se o termo dos trabalhos técnicos e erigir-se um promissor "país de doutores".
Apesar de, nos anos seguintes, se ter criado o ensino técnico-profissional e os cursos tecnológicos, apesar do investimento europeu na área da formação profissional, a verdade é que não se conseguiu refundar o ensino técnico como alternativa normal e paralela no sistema geral de ensino. As iniciativas pontuais de sucesso deram-se no ensino particular e contaram sempre com a resistência das autoridades governamentais. É justamente neste estado - sem uma via profissionalizante efectiva e credível - que chegamos aos 9 anos de escolaridade obrigatória e à veleidade de os converter em 12.

A piroridade na educação não é, como frequentemente se diz, o ensino universitário ou o secundário ou o básico. A verdadeira prioridade localiza-se no fornecimento de alternativas de habilitação técnica e profissional especializada. E isto tanto no plano do secundário - enquanto fonte directa e primária de habilitação - como, com a devida ponderação e acompanhamento em estados anteriores. Num contexto em que tanto se pretende conbater a taxa de abandono escolar, como é possível deixar de fora o ensino profissionalizante? Mesmo nos casos de abandono prematuro - anterior ao actual 9ºano, em que não se atigiu ainda a idade mínima legal para trabalhar -, não terá o ensino técnico e profissional uma palavra a dizer? Não será melhor ter jovens com 14 anos em curso de ordem profissional, porventura em estágios profissionais, do que tê-los na rua e na marginalidade?
A maior parte dos alunos que hoje conclui o 12ºano sem entrar na universidade encontra-se numa situação de grave impreparação. A formação teórica que recebeu - lacunosa e inadequada como é - não tem préstimo; a aprendizagem profissional é nula.
O que falta ao país, decididamente, não são historiadores e biólogos. Mas todos sentem a falta de electricistas, de picheleiros, de carpinteiros, de informáticos, de operadores de maquinaria de toda a sorte e ordem. Todos sentem, nos serviços e na indústria, a falta de especialistas que sejam profissionais e competentes e com know how. Não intercede aqui qualquer preconceito "classista". Afinal, o que favorece mais a coesão social, o reforço das classes médias e a tendência social para a igualdade? A ilusão de um "país de doutores", ou a consolidação de saídas profissionais que potenciam a verdadeira e sustentada progressão cultural e social?"

Paulo Rangel
Jurista e deputado do PSD

sábado, julho 22, 2006

A Educação e a Política

"As políticas de educação postas em prática ao longo das últimas décadas tiveram efeitos que só podem qualificar-se de desastrosos.
A eliminação, durante anos, dos exames nacionais no final de cada grau de ensino não democratizou a educação, mas eliminou a noção de mérito e de esforço e acabou por pôr o ensino básico, obrigatório, em concorrência com formas de entretenimento, numa luta desigual que só podia ditar a derrota da escola. Essa forma de ver o ensino depressa o transformou, para os estudantes, numa espécie de pena a cumprir de que nada se espera a não ser a libertação; para as famílias, numa forma de «arrumar» as crianças enquanto trabalham; para os professores, numa luta contra o desinteresse e a falta de estímulo quase generalizadas. É claro que nada é menos democrático do que este estado de coisas, que reserva a qualidade da educação a uma minoria mais consciente, ou que tem a sorte de deparar com uma escola que conseguiu escapar ao marasmo.
O sistema de ensino tem, de facto, que ser meritocrático, o que não equivale a antidemocrático. Pelo contrário, exige-se-lhe ser capaz de procurar e estimular o mérito onde ele existe, uma responsabilidade tanto maior quanto a educação é mesmo o único meio de o conseguir. Como lembrava Peter Drucker num texto memorável que escreveu para o Economist, «a sociedade do conhecimento é a primeira sociedade humana em que a ascensão social é potencialmente ilimitada. O conhecimento difere dos outros meios de produção pelo facto de não poder ser herdado nem doado. Tem de ser adquirido de novo por cada indivíduo e todos partem da mesma total ignorância». Contudo, para que esse potencial de ascensão se concretize, é necessário adquirir o conhecimento: não basta cumprir n anos de ensino obrigatório.
O sistema de ensino tem, além disso, que ser selectivo, o que não quer dizer exclusivo. Compete-lhe perceber as vocações e os talentos e encaminhar cada um para o ramo de actividade em que elas melhor possam desenvolver-se. O desenvolvimento das aptidões específicas compete ao ensino secundário e superior, mas a sua identificação tem de começar no básico. Ser selectivo não implica, porém, «chumbar» alunos (ou «retê-los», para usar a expressão politicamente correcta). Países há em que as retenções são simplesmente proibidas, mas que não deixam por isso de ter sistemas eficientes, meritocráticos e selectivos. Tal sucede porque, à ausência de retenção, equivale um trabalho diferenciado e rigoroso com os alunos em dificuldades que, à saída de cada grau de ensino e definindo a sua evolução futura, defrontam os mesmos exames nacionais exigentes e porque estes são parte da avaliação da própria escola e dos agentes de ensino.
É claro que, neste contexto, compete ao ensino básico uma outra tarefa essencial: como a própria designação o diz, ele é responsável por transmitir as bases de conhecimento essenciais para que os vários talentos possam desenvolver-se e para formar uma sociedade capaz de compreender o mundo em que vive, a um nível que vá para além das telenovelas e do futebol. Essas bases consistem nas três áreas fundamentais sobre que incidem a maior parte dos exames, das análises e do coro de lamentações que os acompanham: as capacidades linguísticas, a matemática e as ciências.
Os resultados que vemos alcançar, tanto no ensino básico como no secundário, mostram que o sistema de ensino em Portugal se perdeu durante demasiado tempo por meandros e que urge fazê-lo regressar ao rumo certo. A desculpa para os maus resultados que consiste em atribuí-los aos meios desfavorecidos de onde os alunos são oriundos é o pior sinal de uma escola que não reconhece que uma das suas responsabilidades fundamentais consiste precisamente em atenuar essas diferenças. Para isso é necessário que, além de exames nacionais exigentes, exista uma muito maior autonomia de gestão e diversidade de meios nas escolas, o que pressupõe, por seu turno, a avaliação dessa gestão.
Tudo isto exige um trabalho difícil e o esforço de todos. Do que seguramente não precisa é de recriminações e de passa-culpas. Os políticos, as famílias, os professores e os técnicos de educação são todos solidariamente responsáveis por remediar a situação. A perda de qualidade das bases do ensino que ocorreu ao longo das últimas décadas torna essa tarefa muito mais difícil. Por um lado, ela também afectou a formação de muitos professores: não são raros, por exemplo, os jovens que optam pelas escolas superiores de educação por não terem conseguido aproveitamento em matemática. Por outro lado, talvez ainda mais fundamental, ela agravou um vezo de séculos da sociedade portuguesa, que se traduz em consignar o espírito científico a uma minoria fechada, enquanto os outros se contentam com observações impressionistas e com a aceitação acrítica de «factos» que de factual só têm o ser assim apresentados por alguém a quem os fazedores de opinião atribuem «autoridade».
Quando uma sociedade se confronta com a transformação a que Portugal está a ser obrigado, fazem-lhe muita falta as capacidades linguísticas e matemáticas para poder adquirir novas competências que as tecnologias modernas não dispensam. Mas mais falta ainda lhe faz a capacidade de discernir entre factos, opiniões e desejos, o que supõe saber usar a informação e não se limitar à preguiça mental de aceitar qualquer dado porque ele confirma as suas impressões ou porque provém de uma «autoridade». Os princípios mais básicos do método científico previnem contra essa atitude, mas estão completamente ausentes do debate nacional. Em vez de lamentar a ausência de diferenciação ideológica no centro do espectro político, devíamos sim lamentar a falta de rigor do debate das questões em que todos estão de acordo quanto aos fins – crescimento económico, um bom sistema educativo, segurança do sistema de pensões – mas onde a análise dos meios exige um cada vez maior discernimento a que muitos continuam a preferir a cegueira ou o oportunismo político."

Teodora Cardoso
Jornal de Negócios

terça-feira, julho 11, 2006

Da escola ao desemprego

"Há 30 ou 40 anos, a questão que se levantava a quem tinha acabado o liceu era "como é que eu vou conseguir entrar na universidade?". A pergunta que hoje se põe a quem termina o secundário é "o que é que eu vou fazer quando sair da universidade?".
Que a alteração é substantiva já todos se deram conta. Talvez valha a pena pensar é nas causas da mudança. E o que mudou? Tudo! Há 30 ou 40 anos, a oferta era pouca e, como tal, a selecção dos candidatos, muito rigorosa. Apenas uma minoria conseguia os seus objectivos - entrada na universidade - e o mais grave é que os critérios de selecção nem sempre eram os de mérito, do empenho e da competência; também se ponderavam critérios como o estrato social, a confissão política ou religiosa e sempre o critério financeiro. Hoje a oferta é muito superior à procura, logo a selecção deu lugar à angariação. Apregoam-se cursos como quem vende castanhas, publicitam-se universidades, politécnicos e institutos superiores ao melhor estilo de uma qualquer imobiliária. O critério de admissão que hoje se pratica em muitas instituições (sobretudo no ensino superior privado e cooperativo), é único: "critério financeiro". Por hoje, mais fácil do que entrar numa qualquer universidade, só me lembro de como se entrava para a tropa no tempo da Guerra Colonial: serviam todos!
Daqui decorre que se acusa o regime, de há 30 ou 40 anos, de ser elitista e injusto. Estou de acordo! Mas...e agora? Será que deixou de ser elitista, burguês, injusto e até antidemocrático? Penso que não! Mas que tem perdido qualidade e com isso credibilidade, disso não tenho dúvidas. lembram-se daqueles quatro anos em que os professores nos obrigaram a saber a tabuada, a não dar erros de ortográficos, a saber na ponta da língua todas as dinastias (incluindo os cognomes dos soberanos) e a conseguir redigir sobre um tema proposto? Não se fazia então (com crianças de 9 /10 anos)um exame da 4ª classe, um exame de admissão ao liceu e outro exame de admissão à escola técnica? Tudo no espaço de um mês? E alguém morreu por causa desses excessos hediondos? Penso que não.
Mas afinal o que é que se obtinha com todo esse esforço? Muita coisa, respondo eu. Sentido de responsabilidade e noção do dever; disciplina e perseverança; cultura geral e capacidade de raciocínio. Salvo raras e não muito honrosas excepções, passavam os bons, continuavam os estudos os melhores e mais aplicados, entravam na universidade os mais aptos. Em conclusão, hoje o que temos? Os adolescentes, sem bases académicas minimamente aceitáveis, fogem da Matemática, evitam o Português, recusam a Geografia e renegam a História. Não pensam desde logo num curso como uma ferramenta de futuro, mas sim como um reurso cómodo para prolongarem uma adolescência errante. Em muitos casos, a universidade e o ensino superior funcionam tão só como um paliativo que retarda a chegada ao desemprego, tantas e tantas vezes antecâmera do submundo.
Culpa desta geração que já muitos apelidaram de "rasca"? Sim, mas não só! Creio eu que mais do que uma geração "rasca" esta é uma geração "à rasca" e aí parte da responsabilidade é nossa. As sucessivas políticas de fuga para a frente e de facilitismo que os Governos nos têm impingido em nome de uma qualquer pseudo democratização do ensino degeneraram no descalabro que hoje claramente todos reconhecemos e poucos admitem.
E se é verdade que há 30 ou 40 anos o simples facto de ter um "canudo" era só por si um factor de diferenciação, que regra geral conduzia a uma vida estável, tal facto tem uma explicação: o mercado reconhecia nesses indivíduos aptidões e competências seguras, pelo que os absorvia sem grande dificuldade. Hoje, fruto dos interesses estatísticos que uma construção europeia alicerçada em enormes discrepâncias e assimetrias (culturais, sociais e económicas) ditam, assistimos a uma massificação não qualificada do ensino superior. e ao mercado não se mente já que ele se apercebe destes factos. E é aqui que esbarramoscom o problema que parece paradoxal: Portugal tem das maisbaixas taxas de licenciados da Europa (já nem falamos de graus académicos superiores) e ainda assim cresce assustadoramente o desemprego nas camadas dos jovens licenciados.
O que poderá então justificar este facto? Erros e mais erros, cometidos de forma aviltante por quem nunca teve a coragem de assumir que os problemas do ensino são de natureza conjuntural e estrutural profundas e que não se compadecem com reformas sectoriais, concebidas para apresentar resultados dentro de um qualquer ciclo político. O ensino, é antes de mais, um processo contínuo, alicerçado numa aprendizagem constante que nos deve acompanhar ao longo de uma vida. Alterar as regras a meio do jogo não ajuda, só confunde e prejudica.
Assuma-se com pragmatismo que será necessária uma geração para garantir uma mudança de qualidade, integrada e sustentada de todo o sistema de ensino em Portugal. Discuta-se o tema, chegue-se a uma conclusão (consensual ou simplesmente maioritária) e depois implementem-se as reformas necessárias. Criem-se as condições de base e depois sim, depois discuta-se a implementação de um qualquer tratado de Bolonha. mas só quando estivermos aptos. Não vale a pena continuarmos a enganar por mais tempo e a hipotecar ingloriamente o futuro de mais gerações."


Carlos Roda

Professor Universitário

segunda-feira, julho 03, 2006

A controversa ministra e o estado do ensino em Portugal

"Desde que Maria de Lurdes Reis Rodrigues assumiu o cargo de Ministra da Educação, o ensino, no nosso país, não tem dado mostras de ter saído do estado comatoso em que se encontra.. É evidente que a senhora ministra com as desfocadas políticas educativas introduzidas, não teve como escopo os alunos, mas, tão-só, preocupou-se mais com os professores considerados como o “bode expiatório” de políticas erráticas e desajustadas do Ministério. Estamos no final do 3º período e já se poderá verificar que a infeliz e peregrina ideia de tentar “prender” os professores na escola para além da componente lectiva, revelou falta de bom senso e falta de imaginação no atacar dos problemas que, verdadeiramente, afligem o ensino no nosso país. Para além da medida ressumbrar laivos de autoritarismo, ainda hoje a srª ministra insiste, de forma infeliz, em atribuir, exclusivamente, o insucesso escolar aos professores quando as causas desse insucesso são bem mais complexas. Na verdade, não é sobrecarregando os docentes para além do aceitável, que o ensino melhorará com medidas avulsas e bem intencionadas, mas de eficácia reduzida ou nula. Os alunos já dispõem do seu horário com as diversas disciplinas. A razão de os professores “existirem” está directamente relacionada com as disciplinas que, equilibradamente, leccionam. Por sua vez, os nossos alunos têm uma carga horária exagerada, como já reconhecia o ex-ministro da Educação, David Justino. De lembrar que o doutor David Justino era favorável a uma redução da componente lectiva nos horários dos alunos (fusão de algumas disciplinas, desaparecimento de outras, etc), mas ninguém teve a coragem política para implementar e/ou reformular os currículos, afim de se reduzir essa carga lectiva que, hoje, contribui ainda mais, para o insucesso escolar. Para além de, não nos esqueçamos, uma escola massificada proporcionar e gerar sempre bastante insucesso escolar. Que se poderá atenuar ligeiramente, aqui e ali, mas estará omnipresente. A excelência não se dá bem em escolas massificadas e superlotadas. Poder-se-á mesmo acrescentar que ”o facto de os alunos no nosso país apresentarem um desempenho pouco satisfatório em termos de comparações internacionais, para além das ineficiências intrínsecas do processo educativo nacional, parece estar fortemente correlacionado com o baixo nível médio de qualificação dos pais e também com a menor riqueza do país. Ou seja, factores que não poderão ser facilmente alterados no curto prazo “---- vide ,” Razões para o fraco desempenho dos alunos portugueses” de António Afonso e Miguel St. Aubyn, professores de Economia no ISEG / Universidade Técnica de Lisboa. Mesmo citando o estudo destes docentes, convirá não esquecer que a escola (irracional) pública apresenta horários que vão das 8.30 h às 17.30, perfazendo mais de 36 horas de aulas. Depois ainda se desejam aulas de apoio destinadas a alunos que não ligam nada e o que querem é brincadeira? Salas de estudo? Centros de explicação? Com que tipo de alunos e a que horas?Mas, serão todas as medidas que a srª ministra quer levar por diante, descabidas e desajustadas da realidade? Naturalmente que não. O reforço das aulas de Matemática e a introdução do Inglês nos primeiros anos de escolaridade serão, a priori, medidas ajustadas desde que salvaguardados determinados requisitos. Já as aulas de substituição nos actuais moldes não se justificam e têm sido um fiasco. Outra boa medida será a revisão da formação académica dos professores (é de lembrar que há formação para todos os gostos e feitios, em instituições e organismos diversificados quer a nível de exigência e rigor, quer a nível de formação pedagógica), a monitorização dos métodos utilizados na sala de aula e a aprovação do alargamento dos cursos tecnológicos e profissionais. Estas medidas se forem levadas a sério--- veja-se o flop e o logro que, de uma forma geral, têm constituído os designados cursos do PIEF (Programa Integrado de Educação e Formação) frequentados por alunos problemáticos e insubordinados e o PEETI (Plano para a Eliminação da Exploração Infantil) de ineficaz e reduzido proveito para os alunos---, serão bem vistas pelos professores e terão a aprovação dos mesmos. Como será de enaltecer a introdução de medidas urgentes que visem obstar a passagem de alunos, mormente aqueles que provêm das escolas primárias e ingressam no ciclo sem, praticamente, saberem ler e escrever e sem conseguirem efectuar operações de multiplicação e divisão! E depois transitam para o 3º ciclo com enormes dificuldades de aprendizagem. A gravidade acentua-se, qual efeito dominó, no ensino secundário onde, nos alunos, são visíveis e detectáveis enormes défices no conhecimento/formação ou nas competências/raciocínio lógico. Dificuldades que continuam a projectar-se no ensino superior e no ensino universitário. Ou seja, a formação dos nossos jovens é deficitária e não corresponde ao pretenso sucesso educativo que o Ministério apregoa e tenta fazer passar. E, depois, o paradoxal acontece. A mão-de-obra na construção civil, nos trabalhos mais pesados e sujos que ninguém quer e todos evitam é assegurada pelos ucranianos, por cidadãos vindos de Leste (muitos deles com formação universitária!), enquanto muitos portugueses sem formação específica ou com parcas habilitações literárias recebem subsídio de desemprego (para não trabalharem), dilatando a despesa do Estado. A juntar a esta realidade deparamos com a pretensa obrigatoriedade dos jovens frequentarem a escola até ao 18 anos, o que se afigura um erro, visto que muitos jovens andam iludidos, sem verdadeiro apego ao estudo, permeáveis à mandranice e ao vício, quando bem cedo deveriam ser orientados para a frequência dos cursos tecnológicos e profissionais, sabendo-se de antemão, que, neste aspecto, o Ministério da Educação também não tem capacidade de resposta para a formação de milhares de jovens que, desta forma, se vêem obrigados a depender economicamente dos pais, enquanto procuram um emprego ( que não existe ) ou, então, decidem emigrar para a Espanha, França, Holanda, Suiça, Inglaterra, Canadá... Enquanto isso os trabalhadores de Leste e das nossas ex-colónias ocupam os lugares que, em princípio, lhes estariam destinados. Não admira, pois, que Francisco Sarsfield Cabral, no “Diário de Notícias” do passado dia 16 de Novembro do pretérito ano, afirmasse que “ os portugueses rejeitam muitos postos de trabalho que lhes são oferecidos em Portugal. Estes têm, assim, de ser ocupados por imigrantes. Mas aceitam trabalhos desses no estrangeiro, onde são mais bem pagos “.Esta é um pouco a realidade laboral e social do país. E, como esta realidade não fosse preocupante, tem-se assistido, continuamente, a uma ofensiva da srª ministra da educação contra os professores (onde está a solidariedade da ministra para com os docentes quando estes são agredidos pelos alunos e pelos pais desses mesmos alunos?). Nas medidas que a srª ministra tem executado, “ esqueceu-se” de uma realidade: a indisciplina e a violência que grassa nas escolas -- numas mais, noutras menos---, e a desconcertante falta de autoridade dos professores. Neste aspecto, convirá lembrar à srª ministra que o governo inglês defende que os professores precisam de ter mais direitos para lidar com os estudantes indisciplinados para poder castigá-los adequadamente. E em Portugal, srª Ministra, o que está a ser feito? Nada, não é? Para a socióloga Maria de Lurdes Rodrigues o que é imprescindível e necessário é “ reter”, “aprisionar” os professores nas escolas para mostrar aos pais dos alunos--- esquece-se que os docentes também são pais---, que os professores até trabalham, essa privilegiada(?) e rica classe(?) que nada faz a não ser dar aulas ...E, não satisfeita, a srª Ministra vai sacrificando os professores que, por razões óbvias e naturais, foram, ao longo dos anos, obtendo redução no seu horário de trabalho, presenteando-os, agora, com- um- inimaginável- horário- igual- àquele -que -tinham -em –início- de -carreira! Que paciência, que motivação, que capacidade física e psíquica terão estes professores para suportarem a insolência, a má educação, a indisciplina e a violência da escola democrática massificada, escola onde o professor é sistematicamente desrespeitado, desautorizado, insultado e, por vezes, agredido! Para além das viaturas dos docentes, em muitos casos, serem vandalizadas nesta sanha juvenil ,com riscos, fortes amolgadelas, pneus furados, vidros partidos... Os pedagogos oficiais do ministério da educação e a equipe ministerial não se convencem de que a escola não pode colmatar todas as falhas da sociedade que o poder político não pode ou não sabe resolver. E insistem nas medidas desconexas e irrealistas.Por isso, enquanto se persistir na desconfiguração da profissão dos docentes, tentando reduzi-los à condição de tarefeiros, “palhaços” para entreter meninos e meninas, burocratas, auxiliares de educação ou tapa-furos; enquanto o Ministério ignorar que a violência, a indisciplina e o mau comportamento perturba sobremaneira o desenrolar das aulas; enquanto se persistir na falta de autoridade do professor e este estiver espartilhado e maniatado na sua acção ; enquanto este Ministério persistir, sob a tutela da socióloga Mª de Lurdes Reis Rodrigues, na ofensiva contra os docentes, amontoando-os nas escolas durante várias horas à espera de Godot, travestido no almejado (in)sucesso educativo, o mal-estar e a crispação nas escolas continuarão. Pretender sucesso educativo, lato sensu, no ensino democrático massificado será o mesmo que pretender que o novo Airbus A 380 tente atingir a Lua...à outrance.Compreensívelmente não é congelando as progressões nas carreiras, nem é aumentando a idade de reforma para os inaceitáveis 65 anos ou mais !?? (com os alunos delinquentes, insubordinados e insolentes que temos!?), nem é alterando, para pior, o Estatuto da Carreira Docente que se encontrarão, nas nossas escolas, professores motivados, satisfeitos e empenhados. A abulia, o desencanto e a revolta têm alastrado e os professores não deixam ( nem deixarão) de se sentir humilhados e ofendidos na sua dignidade profissional.Acresce que os nossos alunos, de uma maneira geral, continuam a não interiorizar hábitos de estudo, de trabalho sério, sacrifício, exigência, empenho e dedicação. E, como não interiorizam, a culpa gruda-se nas costas largas dos professores que não sabem lidar com os meninos, muitos deles provindos de famílias problemáticas e desestruturadas... Enquanto isso, os docentes desesperam e sentem-se desconsiderados porque a escola portuguesa tem sido um enorme armazém lúdico-recreativo onde os pais depositam os filhos (que podem fazer o que muito bem lhes aprouver) para mortificarem os professores. Entrementes, o aluno continua(rá) no “trono”, o professor no “inferno”, o ministério, em particular, continuará demencialmente a aplaudir, enquanto vai prosseguindo a sanha persecutória em relação aos professores, e os políticos, na generalidade, continuarão, bojudamente, a divertir-se com a “tourada” educativa. Tourada educativa que eles criaram e continuam a patrocionar."


*António Cândido Miguéis
Professor
Vila Real