terça-feira, março 11, 2008

Encalhados

"Vinte e seis ministros em três décadas e meio para um ministério onde os funcionários são mais de duzentos mil. Na sua maioria são as mulheres, têm uma formação superior à da população portuguesa e são conhecidas como stôras.
Não houve alteração política em Portugal que não sublinhasse o potencial e os perigos resultantes da dispersão regional e da extraordinária proximidade que os professores mantêm com a população. os professores sempre foram vistos como um extraordinário veículo de propaganda ou como perigosos agitadores: a república pô-los a oficiar cerimónias maçónicas, o Estado Novo controlou-os e perseguiu-os mais do que a quaisquer outros funcionários e a democracia almejou que eles construíssem, em cada escola, aquele que era o seu modelo de sociedade ideal - um universo onde a disciplina surgia naturalmente, se trabalhava sem esforço e onde todos eram iguais. Não por acaso é um dos homens que associamos ao espírito da Primavera marcelista e que na democracia voltou a ser ministro, veiga Simão, que encontramos a pôr em marcha a escola enquanto alter-ego duma sociedade que vê na igualdade uma espécie de estado bondade irremediavelmente perdido para os adultos mas passível de ser recriado para as crianças e jovens.
Ao extinguir o chamado ensino técnico entendeu a geração de Veiga Simão que se estava a dar um forte contributo para acabar com a diferença entre pobres e ricos, pois todos passariam a frequentar a escola unificada. Simultaneamente, a escala de avaliação de 1 a 20 foi condensada em 1 a 5. O resultado foi o 3 tornar-se nota universal para alunos que iam do medícre ao bom. Se algo a 5 de Outubro conseguiu criar rapidamente nas escolas foi esse assustador centrão da mediocridade. Mas nada disto foi ou é suficiente para que o Ministério da Educação se dê por derrotado nos seus desígnios de política social: em nome da igualdade, a actual equipa ministerial terminou com o ensino artístico, uma decisão que à semelhança do que sucedeu com o ensino técnico pode vir a ter implicações futuras calamitosas.
Sob a batuta da 5 de Outubro o universo-escola criou uma linguagem própria que tornou apresentável este reino do absurdo, em que se tornaram indistintos não apenas os resultados mas também o que fazia cada um na escola. Os professores e alunos passaram a ensinantes e aprendentes mútuos, a transmissão de conhecimentos deu lugar a uma situação relacional onde por vezes se ficava retido e a violência escolar passou a ser encarada como uma forma não enquadrada da expressão de problemas. Para cúmulo, o próprio saber dos professores entrou numa espiral de relativismo: o que importava era acumular créditos em acções de formação e não com o conteúdo dessas acções. Assim, era rigorosamente igual para um docente de Alemão frequebtar uma acção de formação em língua alemã, ecologia ou azulejaria. Isto numa versão relativamente bondosa do sucedido, porque em alguns casos chegaram a fazer-se seminários para docentes ministrados por "terapeutas de energias" e astrólogos. Tudo isto devidamente avalizado e estimulado pelo ministério.
Os professores não inventaram nada do monstro que anda por aí. Simplesmente se adaptaram a todas as reformas prontas a usar que lhes foram entregues pela 5 de Outubro. Os professores temem agora - e têm fortes motivos para isso - que a avaliação os torne nos bodes expiatórios do falhanço duma política, a da educação, que leva 11% do investimento público e não apresenta resultados minimamente satisfatóriuos. Diz a ministra que os professores não querem ser avaliados. Provavelmente tem razaõ a sebhora ministra. Mas os professores apenas se limitam a fazer seus os princípios básicos do ministério. Durante quanto anos o ministério tentou que não fossem conhecidos os dados que permitem elaborar os rankings? E, por acaso, deixa Maria de Lurdes Rodrigues que os pais avaliem as escolas? Quando digo avaliar não falo de preencher fichas ou dar notas a professores. Falo do única forma que conheço de avaliação de um serviço: termos a liberdade de o trocar por outro.
O critério de escolha das famílias - instituindo o cheque ensino e dando liberdade às escolas públicas para se organizarem consoante as necessidades daqueles que as procuram - é o único processo de se poder avaliar o trabalho de uma escola e dos seus professores. Os professores serão avaliados no dia em que numa qualquer escola pública, em Portugal, um encarregado de educação possa dizer que quer transferir o seu filho para a escola A, seja ela pública ou privada, simplesmente porque ela é melhor e que, na sequência dessa transferência, os cinco mil euros que o estado português gasta anualmente com a educação do seu filho mpassarão a ser entregues na escola Y e não naquela que frequentou até então.
As fichas que tanta indignação têm suscitado não pretendem avaliar professores. São simplesmente um mecanismo de controlo por parte do ministério para com os seus funcionários. Mecanismo autoritário e legitimador de subjectividade várias como sempre aconteceu na relação entre o ministério e os professores. Mas aos pais e aos alunos essas fichas interessam tanto quanto os requerimentos que os professores têm de preencher. Ou seja, quase nada. Os pais e os alunos estão encalhados à espera que algo consiga quebrar esta concepção da educação que leva a que a mesma esteja reduzida a uma guerrra entre a rua, onde os professores desfilam sábado, e o ministério donde a ministra faz prova de vida nos noticiários da noite do fim-de-semana. Quer os professores quer a ministra sabem que não têm margem para muito mais.
Entretanto, de segunda à sexta, os alunos portugueses fazem o seu ensino obrigatório numa escola que não podem escolher. Será que a ministra e os professores querem mesmo falar de avaliação?"

Helena Matos, jornalista
Público

segunda-feira, março 10, 2008

"Séquesso"

"A pátria adora conversar sobre professores. A pátria, porém, nunca fala sobre educação. Portugal ainda não arranjou coragem para lidar com este facto: os alunos acabam o secundário sem saber escrever. parece que os professores vão fazer uma "marcha da indignação". Pois muito bem. Eu também vou fazer uma marcha indignada. Vou descer a avenida com a seguinte tarja: "os alunos portugueses conseguem tirar cursos superiores sem saber escrever".
A coisa mais básica - saber escrever - deixou de ser relevante na escola portuguesa. De quem é a culpa? Dos professores? Certo. Do Ministério? Certo. Mas os principais culpados são os próprios pais. Mais e pais vivem obcecados com o culto decadente da psicologia infantil. Não se pode repreender o "menino" porque isso é excesso de autoridade, diz o psicólogo. Portanto, o petiz pode ser mal-educado para o professor. Não se pode dizer que o "menino" escreve mal porque isso pode afectar a sua auto-estima. Ou seja, o rapaz pode ser burro, desde que seja feliz. O professor não pode marcar trabalhos para casa porque o "menino" deve ter tempo para brincar. genial: o "menino" não passa de um mostrengo mimado que não respeita professores e colegas. Mais: este mostrengo nunca reconhece os seus próprios erros; na sua cabeça, "sexo" será sempre "séquesso". Neste mundo Peter Pan os erros não existem e as coisas até mudam de nome. O "menino" não escreve mal; o "menino" faz, isso sim, escrita criativa. O "menino" não sabe escrever a palavra "recensão", mas é um Eça em potência.
Caro leitor, se quer culpar alguém pelo estado lastimável da educação, então só tem uma coisa a fazer: olhe-se ao espelho. E já agora, desmarque a próxima consulta do "menino" no psicólogo".

Henrique Mendes
Expresso

domingo, março 09, 2008

Avaliação

"Não é possível apoiar a ministra por inteiro, nem criticá-la por atacado. O seu legado de medidas, ideias e objectivos tem de tudo, do muito bom (a consolidação do cargo de director de escola, os contratos de três anos a favor de um princípio de estabilidade dos professores), ao muito mau (o sistema de avaliação, o regime de faltas dos alunos).Boas ideias, simples e necessárias, como fechar as escolas mais tarde e criar aulas de substituição, coexistem com propostas absurdas, como a de fazer intervir os pais na avaliação dos docentes ou de contar as notas dos alunos para a folha de serviços do professor. Como há também omissões dignas de recordação, em particular a aparente recusa de proceder, dentro da legislatura, à entrega das escolas às comunidades locais, às autarquias e às comunidades educativas (professores, pais e autarcas).A persistência de um modelo de educação integrada, unificada e centralizada é não só a génese de inúmeras deficiências actuais, como também a razão de ser da dificuldade ou da impossibilidade de levar a cabo as reformas úteis e necessárias. É também a causa da transformação dos problemas de educação em guerra social nacional.
O elemento essencial das reformas de Maria de Lurdes Rodrigues consistiu, até hoje, na alteração da relação de forças dentro da educação. Em termos simples, retirou aos sindicatos uma parcela importante do poder que, sob várias formas, detinham até agora. Esta é a sua força. Nada seria possível fazer sem a remoção prévia da tenaz sindical que, sob múltiplas formas, mantinha a educação e o ministério como reféns.
Mas essa reforma, mais propriamente política, seria ineficaz e apenas adjectiva se não fosse completada por alterações importantes e razoáveis nas questões substantivas: a gestão do sistema, o modelo de organização, a definição de novos conteúdos curriculares e dos manuais, entre outras. Esta a sua fraqueza.O que se passa nas ruas do país tem, evidentemente, conotações políticas. Não podia deixar de ser. A educação é um tema político de primeira importância. Aqueles que, no Governo e alhures, denunciam a ingerência de "políticos" e "partidos" avançam um argumento gasto e míope. Mas também é verdade que a contestação ultrapassou largamente as fronteiras da política pura e do sindicalismo, para se tornar também profissional e social. O Governo já percebeu isso, mas persiste em negar a evidência, na esperança de comover os pais, em particular, e a "maioria silenciosa", em geral. Daí o ter transformado os professores, todos os professores, em vilões. A atitude não é inédita e não merece que com ela se perca tempo.
O movimento dos professores tem muitos objectivos: o director da escola, o conceito de autonomia, o estatuto da carreira docente e outros. Além da parcela de poder sindical. Acontece que os professores têm algumas razões. E a ministra também. O facto de se ter declarado guerra entre aqueles e esta é infeliz, pois impede detectar as razões que assistem uns e outra. Infelizmente, é assim a luta das classes e das instituições. É frequente perder-se a semente no meio do joio.
A este propósito, sublinhe-se um erro decisivo na estratégia do Governo, não se sabe se da autoria da ministra, mulher tranquila, se da responsabilidade do primeiro-ministro, homem crispado. A ausência de vontade experimental, ou de estratégia empírica, esteve evidente desde o início. O Governo queria organizar uma cruzada, fazer tudo ou nada, agir por enxurrada e realizar tudo ao mesmo tempo, em todo o sítio e para toda a gente. Com este método, os erros tomam uma dimensão colossal e torna-se impossível corrigir o que quer que seja.
O sistema de avaliação que a ministra pretende impor e que os sindicatos recusam é apenas um dos temas de contestação. Mas é o que tem surgido com mais evidência. A coberto de uma virtude indiscutível, a ideia de avaliação não é recusada por ninguém. É de bom-tom dizer que se é "a favor da avaliação, mas contra esta avaliação". Para todos, ou quase, é uma espécie de santo-e-senha de honorabilidade. Acontece que não é. A palavra, o conceito, o mito e o tique nasceram há vinte ou trinta anos. Em Portugal e na Europa. Criado por burocratas e tecnocratas, os defensores da avaliação acreditam que um sistema destes promove a boa educação, melhora o ensino, castiga os maus profissionais, detecta os talentos, permite corrigir erros e combate o desperdício.
Na verdade, o sistema e a sua ideologia, que infestaram o Ministério da Educação, são próprios de uma educação centralizada, integrada e uniforme. Na impossibilidade humana de "gerir" milhares de escolas e centenas de milhares de professores, os esclarecidos especialistas construíram uma teoria "científica" e um método "objectivo" com a finalidade de medir desempenhos e apurar a qualidade dos profissionais. Daí os patéticos esquemas, gráficos e grelhas com os quais se pretende humilhar, controlar, medir, poupar recursos, ocupar os professores e tornar a vida de toda a gente num inferno. O que na verdade se passa é que este sistema implica a abdicação de princípios fundamentais, como sejam os da autoridade da direcção, a responsabilidade do director e dos dirigentes e a autonomia da escola. O sistema de avaliação é a dissolução da autoridade e da hierarquia, assim como um obstáculo ao trabalho em equipa e ao diálogo entre profissionais. É um programa de desumanização da escola e da profissão docente. Este sistema burocrático é incapaz de avaliar a qualidade das pessoas e de perceber o que os professores realmente fazem. É uma cortina de fumo atrás da qual se escondem burocratas e covardes, incapazes de criticar e elogiar cara a cara um profissional. Este sistema, copiado de outros países e recriado nas alfurjas do ministério, é mais um sinal de crise da educação. Mais do que dos sindicatos ou dos professores, a ministra Maria de Lurdes Rodrigues é vítima da 5 de Outubro".

António Barreto
Público

E agora o que fazer?

Depois do assinalável êxito da manifestação de ontem em que cerca 100.000 professores exteriorizaram a sua revolta face às políticas educativas do Governo há que começar a pensar no que fazer a seguir. Não podemos ser ingénuos ao ponto de acreditar que a partir de agora tudo vai ser diferente, até porque a ministra já anunciou que não se vai demitir e que as políticas são para manter. Do lado de José Sócrates não se espere que ele repita o que fez com o ministro da Saúde porque isso seria entendido como mais um sinal de fraqueza que lhe podia hipotecar as possibilidades de reeleição em 2009. Assim sendo, de que forma poderão os professores fazer valer os seus pontos de vista?

sábado, março 08, 2008

Excelente reflexão

"Hoje para os professores será o dia do Zénite. Hoje olhando-se uns aos outros, vendo as filas e filas de gente vindas de Vila Real de Santo António a Monção e Bragança, os professores sentirão aquela sensação de alegria que percorre os participantes duma manifestação bem sucedida. Sentirão força, alegria, trocarão entre si sinais de reconhecimento e identidade, beijos, abraços, palmadas nas costas, polegares no ar, colocarão uns aos outros autocolantes. As pessoas ficam "físicas" nas manifestações, de braço dado. Os mais treinados nestas coisas, que conhecem bem as "manifs", estarão mais calmos do que os novatos. Os novatos vão falar muito, gritar mais alto, sentir a "psicologia das multidões", uma novidade para eles. Será um dia em cheio para os professores, reconfortante e, quando nas suas camionetas regressarem a casa, cansados e com pena de não haver mais, pensarão na lição que deram à ministra e ao governo. Mas, com eles, viajará o Nadir.
Segunda feira voltarão às escolas, às aulas. Se a ministra não for demitida, ou se demitir, começa a ressaca do sucesso, vai parecer pouco o que com tanto esforço foi conseguido. Se os professores estivessem dispostos a entrar em greve, a "rua" poderia ter tido um papel de uma etapa de luta para outra. Mas duvido que os professores tenham a unidade, a força, a disposição, a resistência psicológica e financeira que são necessárias para uma greve que só seria eficaz se fosse prolongada, sem fim à vista, dura e intransigente. Mas todos sabem que uma coisa é ir a uma manifestação neste momento, outra fazer greve. E por isso a sensação de vitória vai-se azedar pouco a pouco, dar origem a mais do mesmo que hoje assalta muitos portugueses: uma sensação de impotência, de que não vale a pena fazer nada, de derrotismo e ou apatia ou agressividade.
Escrevo hoje no Público sobre a "rua" e termino dizendo que quando se vai para a "rua" tem que se saber como se sai dela. Em democracia, quando se vai para a "rua", local nobre e legítimo do protesto, tem que se saber que não se pode continuar nela sob pena de então as coisas estarem muito mal para a democracia. Duvido que nesta luta dos professores exista um plano B. O plano A resultou, está à vista hoje. Podia haver um plano B para 2009, no voto, mas duvido que quando lá se chegar exista uma alternativa no domínio político para o materializar. Por isso temo que disto tudo resulte pouco mais do que desespero apático, ou asneira agressiva. Vamos ver".

Pacheco Pereira
Abrupto

sexta-feira, março 07, 2008

Educação e exemplos

"Os professores perdem autoridade e, para mascarar as estatísticas, são obrigados a passar quase todos os alunos. Se não o fazem hoje têm de apresentar justificações intermináveis e sujeitar-se a sanções. Se não o fizerem no futuro serão penalizados nas avaliações que se aproximam podendo vir a ser despedidos.
Não sei se o leitor entrou numa escola e viu as instalações dos professores: geralmente estão amontoados numa sala comum, com umas mesas e cadeiras, aí têm de ver testes, preparar aulas, estudar e estar de plantão esperando por uma aula de substituição.
As instalações são, na esmagadora maioria dos casos, deprimentes, frias, sem aquecimento no Inverno e sem ar condicionado no Verão, os professores não dispõem de computadores ou de postos de trtabalho. Uma miserável secretária onde coloquem os livros ou pastas é um luxo inacessível e um gabinete de trabalho para os docentes é um mito impossível.
Os professores são sujeitos a pressões constantes do ministério e das múltiplas direcções regionais, não para ensinar melhor, mas para passar os meninos e melhorar as estatísticas. Os professores não são motivados para realizar actividades com os alunos, isso custa dinheiro e dinheiro é tudo o que não se pode gastar.
Diz assim o governo que o insucesso escolar diminuiu drasticamente, eu, como professor universitário, fora do meio do liceu, eu que tenho gabinete, biblioteca, aquecimento e arrefecimento, computador, secretária e estantes para colocar os livros, afirmo que a diminuição do insucesso é mentira, uma descarada e redonda mentira.Para mim o sucesso é o conhecimento, é a cultura, é a esperança numa educação que, mais do que passar no fim do ano, é preparação para o mundo e uma ética de vida. Os números têm descido mas os alunos que me chegam todos os anos à Universidade são, cada ano que passa, pior preparados. Não falo de meia dúzia de alunos: falo de centenas ou mesmo milhares que passam pela minha cadeira no Instituto Superior Técnico onde tenho, mesmo assim, a sorte de ter os melhores alunos do país. E acuso: acuso estes governantes de mentirem. Mentem ao país, aos pais, aos estudantes e à Europa, ao mascararem os números do insucesso forçando aprovações em massa de alunos que nada sabem. O pior nem é serem tacanhos, mesquinhos, punitivos, persecutórios, o pior é que se andam a enganar a eles próprios e a destruir uma geração com um facilitismo irreal.
Educação não é burocratização e punição. Educação é, sobretudo, motivação e ética. Educar é uma tarefa elevadíssima em que o menor dos bens é o conhecimento puro. Educar é formar cidadãos e essa é a menor das preocupações dos governantes de hoje. E é tão simples: bastaria começar por dar bons exemplos..."

Valerá a pena mudar?

"Só não vê quem não quer ver.
Há coerência na actuação do Governo. Mudar de ministro sem mudar de política, não adianta nada.
Há uma vaga de fundo imparável, messiânica de contra tudo e contra todos resolver o problema do défice e das contas públicas. Até aqui muito louvável.
Mas à custa de quê?

A ideia não é nova, já Salazar a teve e pôs em prática.

Os ministérios da educação e o da saúde são os que dão maior despesa. Portanto, um raciocínio linear e directo leva a que se corte nos gastos nestes sectores, sejam quais forem as consequências. É triste, mas é o que se está a passar: acabar lenta e despudoradamente com a escola pública e com o serviço nacional de saúde. Não serve de nada mudar os ministros se a política continua a mesma. É por isso que o PSD anda às aranhas. Já não tem espaço político. Este PS ocupa todo o espaço à sua direita. Por outras palavras: com um PS destes, quem precisa dum PSD ou CDS?


Vejam o emaranhado, a complexidade do processo burocrático que envolve esta avaliação. (E depois falam em simplex e em desburocratização...)




Que tempo resta para ensinar? A cabeça dos agentes educativos fica atafulhada de tarefas estupidificantes, inúmeros papeis para preencher e não sobra um cantinho para o que devia ser a sua mais nobre missão: ensinar. Além disso, são obrigados a permanecer num local sem o mínimo de condições para pensar e trabalhar. Eu sei o que é ter de passar os intervalos numa sala de professores, onde há cerca de 20 pessoas a conversar sobre tudo e sobre nada, a falar ao telefone e a fazer barulho. Sem secretárias, muito menos computadores. Como pode um professor aproveitar esses tempos, fora das aulas, para trabalhar, para aprofundar a sua formação científica, ou para pensar? Completamente impossível! Em casa ou no jardim sempre se consegue mais privacidade, ambiente de estudo e capacidade de se concentrar. Fala-se tanto em comparar uma escola a uma empresa. Nas empresas os funcionários têm um local de trabalho. Mesmo no ensino dito superior, muitos docentes não têm um local de trabalho, quanto mais os docentes do básico e secundário. Isto passa-se numa escola superior pública em Lisboa, não é nos confins da província. Tenho colegas que compraram a secretária e a cadeira onde se sentam e instalaram num cubículo que conseguiram surripiar mediante secretas manobras de bastidores. Outros nem isso. Lâmpadas, papel e material de escrita, temos de levar de casa. Isto para não falar de computadores ou de ar condicionado.

Qualquer pai que se preze e tenha possibilidades para isso, não sujeita os seus filhos a esta fantochada, simulacro de escola. Se quiser que eles tenham uma formação a sério, que eles aprendam alguma coisa, que eles consigam entrar num curso de medicina, têm de os colocar numa escola privada, ou contratar bons e caríssimos explicadores.

Custa muito mais que nos tentem enganar, do que dizer as verdades, por mais duras que sejam. Por favor, digam-nos claramente, a todos os cidadãos, ao País, que o Estado não suporta as actuais despesas com a educação pública nem com o serviço nacional de saúde e que se está a fazer tudo para reduzir os seus raios de acção e em consequência os seus gastos. O resto é folclore.O que se quer é pura e simplesmente privatizar a saúde e a educação.Não nos enganem dizendo que estão a cuidar dos alunos e das futuras gerações, quando estão apenas a economizar, mas economizar sem racionalizar, sem iliminar os gastos supérfluos, mas sim e erradamente, cortando no que é básico e essencial".

http://homoclinica.blogspot.com/

Chumbos diminuíram desde a aplicação do despacho 1/2005

Não é a ministra que diz que não há facilitismo?!

quinta-feira, março 06, 2008

Carta de agradecimento

"Logo depois de ter lido aqueles documentos sobre a avaliação dos professores, pensei como lhe deveria agradecer, Srª Ministra. Afinal, aquelas horas passadas diariamente junto do meu filho a verificar se os cadernos e as fichas estavam bem organizados, a preparar a mochila e as matérias a estudar para o dia seguinte, a folhear a caderneta escolar, a analisar e a assinar os trabalhos e os testes realizados nas muitas disciplinas, a curar a inflamação de uma garganta dorida pela voz de comando “Vai estudar!” ou pela frase insistentemente repetida, de 2ª a 6ª feira:”DESPACHA-TE! AINDA CHEGAS ATRASADO!” ou o incómodo e o tempo perdido para o levar diariamente à Escola, percorrendo, mais cedo do que seria necessário, um caminho contrário àquele que me conduziria ao meu emprego, tinham finalmente, os seus dias contados. Doravante, essa responsabilidade passaria para a Escola e, individualmente, para cada um dos seus professores. Finalmente, poderei ir ao cinema, dar dois dedos de conversa no Café do Sr. Artur, trocar umas receitinhas com a minha vizinha (está entrevadinha, coitadinha!) ou acomodar-me deliciosamente no sofá da sala a ver a minha telenovela brasileira preferida.
O rapaz ainda me alertou para os efeitos das faltas o conduzirem à realização de uma prova de recuperação. Fiz contas e encolhi os ombros - poupo gasóleo e muitos minutos de caminho, de tráfego e de ajuntamentos. Afinal, ele até é esperto e, se calhar, na internet, encontra alguns trabalhos ou testes já feitos… Sempre pode fazer “copy – paste”… Efectivamente, as provas de recuperação parecem-me a melhor solução para acabar com a minha asfixia matinal e vespertina. Ontem, a minha vizinha da frente, que tem dois ganapos na escola do meu, disse-me que, se ele continuar a faltar, o vêm buscar a casa, e que, no próximo ano lectivo, os professores vão tomar conta deles depois das aulas.
Oiro sobre azul. Obrigada, Srª Ministra. A Senhora é que percebe desta coisa de ser mãe! A Senhora desculpe a minha ousadia, mas será que também não seria possível fazer uma lei para os miúdos poderem ficar a dormir na escola? Bastava mandar retirar as mesas e cadeiras das salas de aula e substituí-las por beliches, à noite. De manhã, era só desmontar e voltar a arrumar. Têm bar, cantina e até duche. Com jeito, eles ainda aprendiam alguma coisinha sobre tarefas domésticas, porque, em casa, não os podemos obrigar a fazer nada ou somos acusados de exploradores do trabalho infantil com a ameaça dos putos ainda poderem apresentar queixa junto das autoridades policiais.
Ao Sábado, Srª Ministra, podiam ocupá-los com actividades desportivas ou de grupo, teatro, catequese, escuteiros, defesa pessoal…
O ideal mesmo era que os pudéssemos ir buscar ao Domingo, só para não se esquecerem dos rostos familiares.
O meu medo, Srª Ministra é aquela ideia que a minha vizinha Sandrinha, aquela dos três ganapos, comentava hoje comigo. Dizia-me que a Senhora Ministra quer criar o ensino doméstico. Eu acho que ela deve ter ouvido mal ou então confundiu o jornal da SIC com aquele programa da troca de casais do canal 24. Eu acho que isso não vinga em Portugal, porque não temos a extensão de uma América do Norte ou de uma Austrália e, por outro lado, tinha que comprar e equipar os VEI (veículos de educação itinerante), o que iria agravar mais o deficit das contas públicas e o insucesso dos nossos miúdos. Foi isso eu disse à Sandrinha. Acho que ela deve estar enganada. Logo agora, que podemos respirar de alívio porque não temos que nos preocupar com a escola dos garotos, essa ideia vinha destruir tudo, porque os obrigava a ficar em casa para receberem os VEI e aos pais ainda iria ser exigido algum acompanhamento.
A Senhora faça é aquilo que decidiu e não oiça o que os inimigos dos pais e das mães lhe tentam dizer (já agora, lembre-se da minha sugestãozita!). Assim, os professores, com medo da sua própria avaliação, passam a dar boas notas e a passar todos os miúdos e, desta forma, o nosso país varre o lixo para debaixo do tapete, porque é muito feio e incomodativo mostrarmos, lá fora, que somos menos capacitados que os nossos “hermanos” europeus".

Uma mãe e encarregada de educação agradecida

quarta-feira, março 05, 2008

Ex-Director Regional fala sobre momento que se vive na Educação

O jornalista Carlos Almeida, do semanário Região de Leiria, solicitou-me, na passada terça-feira, que lhe respondesse por escrito às questões seguintes.

A revolta dos professores é justificada?
Mais do que justificada. Os professores têm sido enxovalhados e desacreditados no que têm de mais sagrado, a sua honorabilidade profissional.

Há medo nas escolas?
Quem o confessa é quem lá trabalha e têm-me chegado ecos desse sentimento através de professores e de gestores escolares.

O que está errado em toda esta equação: a reforma, a ministra da Educação ou os professores?
O que está errado é pretender-se fazer reformas, necessárias diga-se, sem contar com a colaboração dos professores e mesmo contra os professores. É uma ilusão pensar que isto é possível. O que esta equipa do ME, com o apoio expresso do Primeiro-Ministro, anda a fazer é a desestabilizar as escolas convencida de que vai conseguir mudar o rumo da educação. Quando a situação se deteriorar completamente vão-se embora e o sistema fica pior do que estava.

Maria de Lurdes Rodrigues tem condições para continuar no cargo?
Objectivamente tem enquanto o Primeiro-Ministro assim o entender. Mas depois das declarações feitas hoje (terça-feira) pela nova Ministra da Saúde acerca da necessidade de conseguir a colaboração dos profissionais da saúde para as reformas que quer fazer, pois contra eles não se pode fazer nada, não sei como podem coexistir no seio do mesmo governo duas Ministra com pontos de vista antagónicos sobre a forma de gerir os recursos humanos de que dispõem.

Identifique a principal virtude e o principal defeito da actual política de educação?
Virtude - a capacidade demonstrada no início do mandato para definir os principais problemas estruturais que afectavam/afectam o sistema educativo. Defeito - a incapacidade de mobilizar os profissionais da educação para as reformas pretendidas e com isto desestabilizar as escolas e criar um clima completamente oposto ao que é desejável em instituições educativas.

Na reunião promovida pelo Movimento em Defesa da Escola Pública, em Leiria, alguns docentes denunciaram a existência de grelhas de avaliação que levavam em conta a posição dos professores em relação à política educativa do governo. Como comenta?
Trata-se de uma situação absurda e ilustra como se pode ser "mais papista do que o Papa". Infelizmente, Portugal tem uma larga tradição de espias e bufos, denunciantes e similares e, pelos vistos, há quem não queira deixar morrer a tradição. Acredito que essas situações serão corrigidas de imediato.

José Manuel Silva,

ex-Director Regional de Educação do Centro
http://www.campolavrado.blogspot.com

Mais um iludido pelas estatísticas

"O que querem os professores, que se autodenominam de "indignados"? Despedir a ministra, revogar o novo regime de avaliação, receber com paga de horas extraordinárias as aulas de substituição realizadas. O que querem os sindicatos de professores, liderados pela Fenprof? Tudo o atrás exposto, mais - quanto antes - bloquear a nova gestão dos estabelecimentos escolares e reverter o estatuto da carreira docente, que passou a impedir a maioria de professores de progredir até ao topo.
Contrariados, já aceitam hoje as aulas de enriquecimento escolar, o Inglês desde tenra idade, o fim dos furos, as escolas abertas até às 17.30, desde que tudo isto, que representa mais trabalho e mais esforço, seja mais bem remunerado. Isto é, o movimento arranca de um conjunto diversificado de reivindicações profissionais para um objectivo político: dar uma volta de 180 graus ao naipe de reformas do Governo, que começam a enfrentar o teste da prática.
Perante os primeiros dados de aumento da escolarização, de queda sensível do abandono escolar e de ligeiro recuo nas reprovações, o que nos diz a Fenprof? Como a raposa da fábula, diz que estes resultados são verdes, não prestam! São só "quantitativos", não traduzem mudanças de qualidade no ensino. Em educação, eles só 'amadurecem' passados dez ou quinze anos... Mas, seguindo nomenclatura muito cara aos contestatários, eles assinalam conquistas irreversíveis para a escola pública, que quer preparar melhor os jovens deste país, em saberes teóricos e prático-profissionais, para enfrentar o exigente mundo profissional que terão pela frente".

João Marcelino
DN

terça-feira, março 04, 2008

Mais um "Prós e Contras" dedicado à Educação

O “Prós e Contras” de ontem à noite, não terá cumprido os objectivos previstos por Fátima Campos Ferreira ou por quem lhe “encomendou” o programa. Pensaria a moderadora que os intervenientes iriam tecer rasgados elogios à política educativa da ministra da Educação. Enganou-se. Efectivamente não foi isso que aconteceu embora ela tudo tenha feito para que isso sucedesse. É verdade que todos eles se manifestaram a favor da avaliação dos professores (mas quem disse que os professores não querem ser avaliados?!), mas todos eles foram unânimes em declarar que a forma como se quer implementá-la está errada, que devia ter o contributo dos professores e não ser imposta pela tutela e que o modelo previsto devia ser sujeito a um processo de experimentação. E mais importante que tudo: reconheceram a justeza da nossa indignação, o que é mais um motivo para não esmorecermos a nossa luta.

segunda-feira, março 03, 2008

Que me lembre, este é o texto mais infame que alguma vez se escreveu sobre a classe dos professores!

"O sítio vai ter uma semana agitada com os professores a preparar uma manifestação contra a política de Educação do Governo e naturalmente contra a ministra da pasta. Importa conhecer as razões que levam os professores para a rua. Os professores vão para a rua porque uma senhora com um saudável mau feitio, de seu nome Maria de Lurdes Rodrigues, acabou com o Ministério dos Professores e tenta, há três anos, criar o Ministério da Educação.
Os professores vão para a rua porque a ministra acabou com a pouca vergonha dos furos nos horários dos alunos, horários esses feitos à medida dos gostos e interesses dos professores, e criou as aulas de substituição, situação que obriga as senhoras e os senhores a passar mais tempo nas escolas. Os professores vão para a rua porque Maria de Lurdes Rodrigues fez aprovar um novo Estatuto da Carreira Docente que acabou com os privilégios e regalias, muitas delas obscenas, do anterior estatuto tão do agrado dos sindicatos.
Os professores vão para a rua porque o novo Ministério da Educação, ainda em formação neste sítio cada vez mais mal frequentado, decidiu avançar para a avaliação dos senhores e senhoras que são pagos para ensinar a ler e a escrever as crianças do sítio. Os professores vão para a rua porque a ministra decidiu enviar para as escolas centenas de sindicalistas que não punham lá os pés há muitos anos.
Os professores não vão para a rua protestar contra o insucesso escolar. Os professores não vão para a rua indignar-se com o abandono escolar. Os professores não vão para a rua gritar contra as notas miseráveis em Português e Matemática. Os professores não vão para a rua exigir um ensino de qualidade que acabe com as os vergonhosos conhecimentos dos alunos nas disciplinas da área de ciência. Os professores não vão para a rua, vestidos de negro, lamentar o analfabetismo e a iliteracia das crianças e adolescentes. Os professores não vão para a rua protestar contra estes miseráveis trinta anos de ensino que colocaram Portugal numa situação inqualificável na União Europeia. Não.
Os professores vão para a rua defender a incompetência e o laxismo. Os professores vão para a rua porque a política do Governo colocou os interesses de pais e alunos acima dos seus privilégios. Os professores vão para a rua porque o seu Ministério da 5 de Outubro está a ser substituído por um Ministério da Educação. Os professores vão para a rua, apoiados pelo PCP, PSD e parte do PS, porque têm medo de ser avaliados. Os professores vão para a rua porque a vergonha há muito deu lugar à pouca vergonha neste sítio chamado Portugal".

António Ribeiro Ferreira
Jornalista
Correio da Manhã

Impertinências

"Das duas uma ou a ministra se cansou muito depressa do breve intervalo de paz que as circunstâncias lhe concederam ou não percebeu como escapou ao cutelo da remodelação a que se atreveu o primeiro-ministro. Seja como for, aí está ela de volta às hostilidades com os professores.

Medindo a tarefa ciclópica (e onde é que eu já ouvi isto?) de educar e ensinar os jovens portugueses, muitos dos quais não querem ser ensinados (e ainda menos educados), qualquer alma caridosa não deveria desejar à ministra um tão sinistro destino. Mas lá que ela o merece - ai isso merece!

Na história moderna, e nem por isso honrosa, do Ministério, cujos resultados os portugueses pagam mas não vêem, não pode ser ignorada a comissão de "sábios" que por lá se foi instalando. Não agora, mas desde há anos. Faltava juntar à obra, se é que faltava, a desautorização dos professores, expondo-os ao desrespeito atrevido e ignorante de toda a gente, incluindo pais (eles próprios tantas vezes carecidos de educação e instrução). Foi o que a ministra fez - ou consentiu que se fizesse - alienando os que melhor apoio lhe poderiam dar, os mais antigos, ultrapassados por motivos pouco claros.

Não consigo apartar-me de três ideias: primeiro, quem anda por lá a teorizar já esqueceu (se é que alguma vez soube) o que é uma escola; depois, não conhecem limites o autismo e a arrogância dos que nada perguntam, a ninguém ouvem e tudo sabem; finalmente, importantes são as estatísticas para Bruxelas, em nome das quais todas as enormidades se admitem. Esta ministra, cujo feitio nem sequer nos seduz a reconhecer-lhe a razão mesmo quando ela acaso a tem, deveria aprender com o que aconteceu ao colega que foi queimado em lume brando até que a rua o mandou para a rua. Sem piedade.

António Freitas Cruz, jornalista

JN

domingo, março 02, 2008

E a mentir se faz a cabeça da opinião pública

"Os envelhecidos sindicatos e os quadros partidários mais activistas descobriram agora as potencialidades dos SMS e as virtudes das manifestações espontâneas convocadas por mensagens de telemóvel. Há pouco, tinham descoberto a contestação ao fecho das urgências e a demissão do ministro Correia de Campos, que o corajoso Governo do determinado primeiro-ministro José Sócrates entrara na fase das cedências e do recuo face à pressão das urnas.
Como resultante destas duas descobertas, aí tivemos, esta semana, concentrações em série de professores espontaneamente organizados um pouco por todo o país: Leiria, Porto, Caldas da Rainha, Aveiro. E mais aparecerão, de geração igualmente espontânea. Se esta forma de protesto resultou na Saúde por que não poderá dar os mesmos frutos na Educação? Ou, como dizia por estes dias o veterano líder da ortodoxa Fenprof: "Se conseguirmos a demissão, a curto prazo, da equipa do Ministério da Educação, criam-se condições para começar a discutir". Pois.
É indiscutível, para o país, a importância das actuais reformas na Educação. De introduzir, finalmente, um sistema de avaliação dos professores semelhantes ao que já existe em quase todos os sectores de actividade e empresas portuguesas. De premiar o mérito e acabar com as progressões automáticas que promovem a mediocridade. De dotar as escolas de uma gestão com efectiva capacidade de liderança e de decisão. Percebem-se as resistências e apreensões dos professores face às consequências práticas das mudanças. Mas percebe-se, também, a quem interessa fazer passar a ideia de que a ministra está politicamente isolada e sem base de apoio, nas escolas e no país.
Sócrates já tem a irremediável Ana Benavente a tentar fazer um remake na Educação do papel que Manuel Alegre fez na Saúde. Esperemos não o ouvir a repetir, um dia destes, que "as condições políticas para que a ministra Maria de Lurdes Rodrigues fizesse passar a sua acção estavam a deteriorar-se". Como fez com Correia de Campos. Porque o primeiro-ministro joga aqui a credibilidade das suas políticas reformistas, o respeito do seu Governo e, provavelmente, a maioria nas eleições de 2009".

José António Lima
Sol

Nota: o sublinhado é meu.

Vital Moreira no seu melhor estilo

"Há quem tenha a ilusão de que uns milhares de professores na rua arrastam a demissão da ministra da educação. Não se dão conta de duas coisas elementares: (i) Maria de Lurdes Rodrigues já deu sobejas provas de que não se deixa impressionar pela contestação; (ii) Sócrates nunca poderia ceder aos protestos de uma classe profissional, ainda por cima sem apoios na população em geral.
De resto, para além de justa em si mesma, a reforma da educação rende mais votos do que os que faz perder..."

sábado, março 01, 2008

A guerra dos profs

"A contestação generalizada dos professores à avaliação tem um lado negro. Mas vou começar pelo lado certo dessa contestação.

Basta ver na proposta a confusão que resulta de um projecto ultra-burocrático para se perceber que o modelo jamais será implantado, pelo menos de forma imparcial e justa. O modelo do Ministério, ao invés de ser simples e concreto, de forma a que não só os professores, como os pais e os próprios alunos mais crescidos, compreendam, investe por uma série de caminhos, atalhos e impasses próprios de quem quer prever todas as situações e acaba perdido na teia que, entretanto, teceu.

É, pois, normal, que os professores repudiem tal método.

Mas há o lado negro, aquele que é impulsionado pela maioria dos dirigentes sindicais: o medo da avaliação. Na verdade, subsiste quem acha que jamais deve ser avaliado num sistema em que chegou a haver créditos fornecidos aos professores pela sua participação em cursos idiotas. É por este lado que o Governo se defende, atirando as culpas para cima de professores preguiçosos, indolentes e incompetentes, como se dos professores fosse a culpa (exclusiva ou principal) do sistema de ensino que temos.

Porque, antes da avaliação e da própria gestão das escolas (que são boas ideias, ainda que com concretizações muito discutíveis) há aquilo que é essencial e que sai directamente da 5 de Outubro: os programas, os métodos de avaliação e de imposição de disciplina.

Estes três vectores podem resumir-se assim: maus programas, pouca e facilitista avaliação e indisciplina generalizada.

E disto não têm culpa nenhuma 99 por cento dos professores".

Henrique Monteiro
Expresso

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Mais uma voz contra a ministra

"Escreve hoje Manuel Carvalho no Editorial do Público: «ainda que concedamos que a ministra [da Educação] não teve sentido táctico, que se perdeu no labirinto dos papéis que infernizaram a vida nas escolas, que errou no processo dos professores titulares ou que abusou da sua pose de autoridade quando tinha o dever de negociar, de um facto há poucas dúvidas: a maioria das reformas que propunha apontava para o caminho certo.»
Parece-me que a questão que merece reflexão é precisamente a inversa: ainda que concedamos que muitas das reformas que propunha (e.g., avaliação de professores, associação entre progressão na carreira e desempenho, estabilização do quadro docente) apontavam para o caminho certo, a multiplicação de leis e despachos (muitas vezes inconsistentes entre si), a falta de credibilidade do processo dos professores titulares (que veio pôr em causa os princípios de avaliação que se apregoavam), o autoritarismo e a incapacidade de negociar (classificando todo e qualquer sinal de descontentamento como atitudes reaccionárias e corporativas), a diabolização dos professores desde o primeiro momento, inviabilizaram o sucesso das mudanças que se propunham.
Como afirma Manuel Carvalho de forma cristalina, «o alcance reformista do seu programa estará sempre condenado à contestação. Sem o apoio da maioria dos professores, pouco mais é que um manifesto.»
Pela enésima vez houve quem se convencesse que se governa por decreto, ignorando a importância da mobilização dos agentes centrais da mudança. Grande parte dos professores sempre aceitou os princípios da avaliação e da relação entre desempenho e progressão na carreira. Mas optou-se pelo populismo, por atacar a classe docente como um todo (talvez seja a isto que tem em mente Manuel Carvalho quando fala em falta de 'sentido táctico'). Agora paga-se o preço. Seria bom que se aprendesse com esta experiência. Bom demais, desconfio".

Ricardo Paes Mamede

Num outro palco, Ana Benavente volta à carga

http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?article=329673&headline=98&visual=25&tema=27

Uma das coveiras do ensino em Portugal quer a substituição da ministra

Avaliação: formar ou punir os professores?

"Como pode um governo do país que tem um dos sistemas de ensino mais deficiente e injusto, campeão dos repetentes e excluídos, tentar transferir a responsabilidade deste pesado défice social para cima dos seus empregados, os professores, acusando-os de serem eles os responsáveis pelas políticas que conduziram a esta situação?
Como é possível pretender que se recupere o atraso nesta área social decisiva para o presente e o futuro começando precisamente por atacar os profissionais?

Se for por diante o novo sistema de avaliação, a grande maioria dos professores verá reduzido em cerca de um terço o tecto salarial que pode atingir ao longo de toda uma carreira de quarenta anos de trabalho. Dois em cada três professores ficarão nessa situação, porque só um terá hipótese de chegar à categoria de professor titular, sujeita a "numerus clausus". Os outros serão professores de segunda categoria, administrativamente considerados como maus professores, ou pelo menos deficientes.

Logo para entrar na carreira, os jovens professores saídos das faculdades serão sujeitos a um exame "probatório", em que os conhecimentos aprendidos nas universidades serão de novo postos à prova, lançando assim uma insuportável suspeita sobre o esforço, os custos e o sucesso conseguido numa licenciatura inteira e dezenas de cadeiras feitas. Por isso, é justa a crítica dos sindicatos, quando dizem que se o ministério desconfia da qualidade das licenciaturas, é sobre as escolas de ensino superior que deveria actuar. Do que se trata, neste caso, é de aliviar as estatísticas do desemprego docente, eliminando à partida uma larga percentagem de pessoas que fizeram cursos para a docência.

O novo sistema de avaliação pretende pura e simplesmente dividir em duas categorias os que já estão na carreira, hierarquizar, criar a concorrência em vez da cooperação, e simultaneamente controlar e "punir". Isto é, fazê-los pagar pela incapacidade e incompetência de todo um sistema de carências, pobreza e exclusão social, que o sistema económico e o poder político produziram e intensificam, de um sistema de ensino cheio de falhas e atrasos imputáveis aos sucessivos governos e ministros da educação.

A avaliação punitiva, que enforma o modelo que a ministra quer impor, é socialmente inaceitável. Não é possível admitir que uma grande parte dos alunos do sistema de ensino seja sujeita ao trabalho de profissionais considerados "maus" ou de segunda e terceira categoria. Imaginem o que seria estender este "dogma" (de que é fatal haver maus e bons profissionais) a outros sectores, por exemplo os pilotos de aviões? Pilotos maus profissionais? Para transportar quais passageiros? Do mesmo modo: professores "maus" para crianças, adolescentes e jovens? A ministra afirma que se pretende "reconhecer o mérito e a excelência", "diferenciar e premiar os melhores". Premiar? Ou antes castigar salarial e estatutariamente dois terços dos profissionais, com quotas decretadas arbitrariamente para o grau de titulares? Como é possível decretar quotas de "muito bons" e "excelentes" professores, mediante despacho governamental anual?

A avaliação de que precisamos como de pão para a boca é, antes, a avaliação formativa: avaliar para melhorar o trabalho, para compreender os pontos fortes e fracos, para potenciar o trabalho em equipa, para poder corrigir falhas, para acompanhar a evolução dos tempos.

Convém que se saiba como o ministério trata o assunto da formação: os professores serão obrigados a frequentar acções de formação profissional todos os anos até à reforma. E como serão garantidos cursos de formação para 150.000 professores, anualmente? Os custos dessas tenderão a ser suportados pelos profissionais. Decorrerão em horário pós-laboral. Muitos estão já a acorrer às escassas ofertas de formação, muitas vezes a dezenas de quilómetros da sua residência. Tudo saído do seu bolso e do seu tempo de lazer.

Como observa José Ribeiro (Jornal de Letras, 13/2/2008), o governo e o seu sistema de avaliação roça o desumano: em vez do apoio profissional e pessoal que é tão necessário e urgente, ameaça-se com a porta da rua, agravando o stress nestes profissionais que são já campeões das consultas de psiquiatria.

Como refere Sérgio Niza no mesmo jornal, o novo sistema de avaliação constitui "um programa de vigilância e controle em vez de valorizar os professores e proporcionar estímulos para o seu aperfeiçoamento".

Por este andar, o atraso do sistema de ensino básico e secundário português, que nos envergonha e que ficou refém de alguns preconceitos salazarentos, corre o sério risco de se prolongar por este novo século adentro.

A população escolar é constituída pelos alunos e pela "tripulação" - os professores. Estamos no mesmo barco. Só juntos e com respeito pela nossa dignidade poderemos chegar a bom porto. Esta tentativa de virar uns contra os outros, num momento de grave crise, é o pior que se poderia fazer".

Jaime Pinho

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

A situação de revolta nas escolas

"No caso do ministro da Saúde, a contestação era maior na rua do que no interior do "sistema"; no caso da ministra da Educação é o contrário. A situação nos dois ministérios "reformistas" do governo Sócrates tinha por isso uma diferença fundamental e levou ao despedimento do ministro da Saúde e à manutenção da ministra da Educação. No entanto, com a deterioração acelerada da situação no interior das escolas, já estive mais seguro de que ninguém tocaria na ministra do que estou hoje.
Não é que o ministério da Educação não tenha simpatias do seu lado, e poderosas: muitas pessoas estão com a ministra, pais, autarcas, "povo", porque se revoltavam com a situação das escolas, por muitas e diferentes razões, mas unidas num único alvo, os professores. Os professores no seu conjunto eram tidos como os grandes responsáveis pelo que se passava nas escolas e embora houvesse outros alvos, o ministério, o laxismo, o "eduquês", os sindicatos, acabava sempre por sobrar para os professores. Os professores tinham uma óbvia responsabilidade por esta situação e tinham-se posto a jeito. Embora houvesse professores que individualmente expressassem o seu descontentamento com o "eduquês", o facilitismo, a falta de hierarquia de mérito entre os próprios professores, o absentismo, o desleixo e a má preparação de muitos profissionais, a ausência de avaliação digna desse nome, a sindicalização do ministério, não havia um sólido movimento de opinião entre os professores que exigisse reformas e isso permitiu a demonização dos professores enquanto classe profissional. Mas havia professores com estas preocupações e estes deveriam ser os aliados naturais de uma política de reformas como a que a ministra quis fazer. Só que não há, não há ninguém, é difícil encontrar alguém, em qualquer escola do país, que apoie a ministra, que é universalmente odiada pelos professores. Uso a palavra forte, "odiar", porque é raro encontrar algum responsável ministerial mais sózinho que a ministra da Educação e isso, por si só, mostra que alguma coisa falhou nas suas reformas, porque, por escassos que fossem, alguns aliados deveriam existir, 10%, 5% dos professores, 3 ou 2% para se conseguir ter sucesso.
Onde estão os erros? Um, de primeira responsabilidade de Sócrates, foi fazer reformas "contra", usar, para obter apoio popular fácil, o mecanismo de pôr juízes contra professores, professores contra médicos, pais contra os professores, cada classe ou grupo contra os "privilégios" dos outros, e o "povo" contra todos. É bom para as sondagens, é péssimo para fazer reformas. Esta linguagem agressiva das reformas "contra" os grupos profissionais também penetrou no ministério e, feito o mal, a seguir não é possível controlar os estragos. Depois, o ministério, que é uma burocracia que se comporta como burocracia, quis fazer tudo ao mesmo tempo, dispersou-se e desconcentrou-se, misturou coisas importantes com irrelevâncias, atirou para todo o lado, e, sem dar espaço às escolas e aos professores para se adaptarem a uma nova ecologia, logo surgia outra alteração e outra e outra. Muita coisa foi feita de forma incompetente, gerando injustiças flagrantes em processos muito delicados, criando divisões e hostilidade entre professores, despromovendo carreiras profissionais altamente qualificadas a favor de critérios apenas centrados no dar aulas, actuando de uma forma sentida como punitiva contra os professores. O ministério alienou os apoios dos melhores e mais dedicados professores e não conquistou o apoio de nenhuns outros.
A ministra bem pode mandar, como Jeová, os Anjos a Sodoma e Gomorra à procura de um justo, que não encontra ninguém. Pode-se dizer que isto acontece porque são mesmo verdadeiras reformas e atibgem o cerne do corporativismo dos professores, o que é em parte verdade, mas escapa à questão de fundo: muitas reformas foram mal conduzidas, mesmo quando tinham mérito de per si e o resultado pode apenas ser mais caos e esvanecer-se junto com a ministra.
Aanela de oportunidade está quase fechada, o tempo é escassíssimo, mas só uma pessoa pode ainda tentar salvar o que se pode salvar: a ministra da Educação. Não é "ceder" que se lhe pede, é que distinga o que é essencial do que é secundário e se concentre, concentre, concentre, no que é essencial e deite o resto pela borda fora. Já".

Pacheco Pereira
Sábado

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Até parece que vivemos em países diferentes!

"O Estatuto da Carreira Docente da Madeira entra hoje em vigor, com claras diferenças em relação ao Estatuto em vigor no Continente, devido ao carácter específico da autonomia das Regiões autónomas.
O decreto legislativo regional, ontem publicado em Diário da República, apenas se aplica aos docentes que dão aulas na Madeira.
De acordo com o Estatuto, não é exigida uma prova de avaliação de conhecimentos e competências para o ingresso na carreira, não há hierarquização da carreira em duas categorias (professor e professor titular) e não há quotas no escalão máximo (oitavo) da carreira docente (no Continente, foi estabelecido um limite de Professores Titulares por escola).
O Estatuto dos Professores da Madeira estipula que o ingresso na carreira faz-se por concurso, quando no Continente é obrigatória a realização de uma prova de avaliação".

Correio da Manhã

terça-feira, fevereiro 26, 2008

A "credibilidade" do Programa Novas Oportunidades

A referência vem daqui. Importante ouvir para se ter a verdadeira noção do que é o Programa Novas Oportunidades. Ouçam aqui.