domingo, março 30, 2008

sábado, março 29, 2008

Palavras, leva-as o vento...

Já estou como o Jerónimo de Sousa. Não basta o Presidente da República preocupar-se com os actos de violência e indisciplina que assolam as nossas escolas. Cavaco Silva tem, por diversas vezes, criticado alguns princípios da actual política da Educação, mas a verdade é que ainda não mexeu uma palha para tentar resolver os problemas do sector. É preciso que tome consciência que chegou a hora de intervir.

Mobilidade especial ameaça 2000 professores

"O governo aprovou na quinta-feira o diploma que permite atribuir novas funções noutros sectores da administração pública aos professores incapacitados para o exercício da profissão. Mário Nogueira, da Fenprof, fala de "insensibilidade do Governo para com aqueles que já muito deram à escola pública, tratando os professores como material que se usa, estraga e deita fora".

Ao entrarem no regime de mobilidade especial, os professores mantêm numa primeira fase o salário anterior, durante dois meses, podendo frequentar acções de formação para serem integrados noutros serviços. Caso não consigam colocação, o salário sofre um corte de 16,7% nos dez meses seguintes, em que são obrigados a frequentar acções de requalificação. Ao fim de um ano sem encontrar novo posto de trabalho na Função Pública, o salário é novamente cortado em 33,4%.

O governo diz que se trata de uma medida de "fim de linha", depois de esgotadas outras soluções como a aposentação, reclassificação, reconversão ou se o professor pedir licença sem vencimento. Mas para a Fenprof, entre os 2000 professores que esta medida envolve, "há professores com falta de visão, audição, ou com dificuldade de permanecer muitas horas em pé numa sala de aula mas que, apesar disso, podem desempenhar outras funções dentro da escola".
Mas a ministra da educação foi colocada numa posição difícil com esta decisão. "Este decreto-lei vem provar que a ministra da Educação não falou verdade quando disse que nem um só professor passaria para a mobilidade especial", disse Mário Nogueira à agência Lusa.
A Fenprof entende que o governo deveria ter assegurado que estes docentes incapacitados, mas que tenham condições de se manter na escola - por exemplo, na biblioteca ou apoios vários - não entrassem no grupo destinado à mobilidade especial".

www.esquerda.net

Uma bandeira para as escolas

"Pinto Monteiro fez muito bem em dizer o que disse sobre os "ilícitos criminais" cometidos em ambiente escolar. Não agradou aos teóricos da sociedade virtual, mas falou para as pessoas reais do país real. Essas compreendem a razão das palavras do procurador- -geral, e a sua importância.
As escolas públicas portuguesas - é evidente - precisam, em termos gerais (porque existem realidades diferenciadas), de um ambiente de maior respeito e autoridade.
A agressividade dos tempos que vivemos formatou uma juventude mais irreverente e as escolas, sucumbindo a complexos vários e à pressão dos arautos dos temas fracturantes, nem sempre têm sabido preservar, nas últimas décadas, o espaço necessário para o professor. Para o exercício da indispensável autoridade do professor. Para o respeito pelo professor.
Não devemos ter medo das palavras. Uma escola, para funcionar bem, precisa de conselhos directivos coesos e empenhados, que tracem linhas de orientação justas mas que também não tenham medo de enfrentar os problemas - e muito menos que os escondam; de professores a quem se dê condições para exercerem uma acção pedagógica serena mas onde esteja presente a indispensável autoridade; e de pais que, como a mãe da aluna do Carolina Michaëlis, tenham lucidez e coragem para admitirem os erros dos filhos.
Nas escolas públicas sempre houve e continuará a haver problemas, mas é tempo de terminar com a hipocrisia.
Os colégios particulares, cada vez mais procurados pelas famílias com posses, funcionam bem porque há disciplina. Desde logo, os pais não desculpam os filhos a quem vestem a farda - e as escolas, se desrespeitadas nos seus códigos, metem a criancinha à porta. Ora a escola pública tem de seguir este paradigma. Só assim recuperará o antigo estatuto de local privilegiado para transmitir saberes e cultivar o respeito.
E aqui temos uma bandeira que bem poderia unir os professores e o ministério".

João Marcelino
DN

sexta-feira, março 28, 2008

terça-feira, março 25, 2008

Sempre que abrem a boca sai asneira

A partir de agora, as escolas com problemas graves de indisciplina podem apresentar ao Ministério da Educação uma proposta para a contratação de técnicos como psicólogos e mediadores de conflitos, anunciou hoje o secretário de Estado da Educação. Lembrou ainda este senhor, que a figura do coordenador de segurança escolar, criada no início deste ano lectivo, tem também um papel decisivo a desempenhar na resolução deste tipo de problemas.
Mais psicólogos? Eles já por lá andam e que se saiba os desvios comportamentais dos alunos, em vez de diminuirem, têm aumentado. Coordenador de segurança escolar? Deixem-me rir. Na minha escola, ao dito coordenador, nunca lhe vi serem atribuídas funções dessa índole.
Estas afirmações vindas de quem vêem já não surpreendem ninguém e não acontecem por acaso. Valter Lemos não sai do gabinete, está longe de saber o que se passa nas escolas e depois vai debitando atoardas umas atrás das outras sem que alguém lhe ponha um travão na língua. Verdade seja dita que, neste particular, não é só ele, é toda a equipa ministerial. Decididamente, o ME anda a precisar dum especialista em comunicação. É que a continuarem assim, serão eles próprios a cavarem as suas sepulturas.

A ler com atenção

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David Fonseca - Kiss Me

S.O.S. Professor

"O que fazer perante as imagens que graças ao gozo de mais um jovem imbecil e mal-educado, chegaram até nós? Ficar surpreendidos? Impossível!
A linha SOS Professor, em funcionamento desde Setembro, recebeu em 5 meses 128 contactos dos quais 39% relatam situações de agressão física, isoladas ou em simultâneo, sendo que 37,2% das agressões partiram dos alunos e 21% dos encarregados de educação. Ainda mais inacreditável é o facto de a maior parte dos casos ocorrer no 1.º ciclo (antiga primária), 31%, seguindo-se o 2.º e 3.º ciclos (25,6%) e o ensino secundário com 15,5% das denúncias.
Quanto às zonas do País, Lisboa lidera com 36%, Porto 26% e Setúbal (13%). Segundo dados do Observatório da Segurança Escolar divulgados no Parlamento, no passado ano lectivo foram contabilizadas 390 agressões a professores na escola e arredores, o que dá uma média diária superior a dois casos tendo em conta que há 180 dias de aulas por ano.
Agora notem: no passado ano lectivo, os professores ingleses foram vítimas de 221 agressões, de acordo com dados da Comissão de Saúde e Segurança do Reino Unido, menos 169 do que em Portugal.
Há apenas um pequeníssimo pormenor a ter em conta: em Portugal, há cerca de 150 mil docentes enquanto nas escolas inglesas trabalham mais de 420 mil!
Volto à minha pergunta, o que fazer? Leio na Net que a Federação Nacional dos Sindicatos de Educação (FNE) propõe que estas agressões fossem consideradas "crimes públicos", mas tal significa uma alteração legislativa. Afinal há boas notícias! O Governo e a Assembleia podem tornar efectiva a punição a este tipo de comportamentos.
A má notícia é que, contrariamente ao que já acontece na vizinha Espanha, os tribunais ainda não obrigam os encarregados de educação ao pagamento de multas.
É pena. Doutra forma não vamos lá!"

Luisa Castel-Branco
Destak

segunda-feira, março 24, 2008

Frases

"Esta coisa de se passar alunos reprovados não leva a nada. Tem de se reprovar o aluno nas bases, não se fazem casas pelo telhado"

Luísa Dacosta
Escritora, ensaísta e pedagoga
Notícias Magazine

Terra Naomi - Not Sorry

domingo, março 23, 2008

O declínio

"Uma aluna agride verbal e fisicamente uma professora, numa escola «normal», ou, se quiserem, não «problemática». As filmagens dessa agressão chegaram ao YouTube. Aparentemente, um coleguinha filmou tudo.
Do que é que estamos a falar?
Da amoralidade vigente entre os «jovens», onde o «respeito» é uma bizarria própria dos fracos e o «certo» e o «errado» noções à la carte, apreendidas entre a apatia generalizada dos progenitores e os episódios dos Morangos com Açúcar?
Da criminosa ausência do exercício da autoridade por parte de pais, educadores de infância, professores e auxiliares, para quem a criança passou a ser um misto de papão - a quem é preciso tratar com cuidado sob pena de «revolta» - e vítima - permeável a traumas indizíveis?
De uma cultura pop estupidificante e acéfala, onde, em matéria de educação e maneiras, se cultiva a bestialização de tudo o que seja clássico e antigo – numa palavra «quadrado» - e se glorifica toda e qualquer next big thing?
Do facto de ter passado a ser anedota a velha máxima de que “a idade é um posto”?
Da falta de prestigio e de respeitabilidade dos professores nas escolas, consequência de políticas educativas que burocratizaram e baralharam a sua função, e conferiram aos professores um estatuto de fragilidade e vulnerabilidade que faz com que seja vox populi a ideia de que «o professor não só não manda como já nada pode fazer contra os alunos mal comportados»?
Não. Dizem-nos que não. O mundo, aparentemente, mudou. Os paradigmas são agora outros. A moral deve adaptar-se a «contextos», a «especificidades» acessórias e transitórias. Perante o vídeo da agressão da aluna à professora e da atitude abjectamente contemplativa dos colegas, há que enveredar por congeminações relativistas sobre a cronenberguiana «extensão natural do corpo» que constituí um telemóvel, ou por criticas em relação ao comportamento do agente que detém o poder – neste caso a professora – apelidando-o, depois de aturado estudo, de «desadequado», «desajeitado», «impróprio» ou até mesmo «agressivo» (facto que potenciou o desvio comportamental da jovem e inocente aluna). Ou, ainda, desvalorizando aquilo que apelidam de «epifenómenos» (isolados e extraordinários). Elucubrações, aliás, vindas, provavelmente, de psis, pedagogos e intelectuais que, nos seus papeis de pais, também falham em «domar» a «besta» que habita lá em casa (por ausência ou benevolência exacerbadas) e fogem do óbvio para disfarçar a sua própria indigência moral.
Os «valores» de «antigamente» são isso mesmo: despojos de um mundo extinto, sobre o qual já não interessa falar e que apenas certos líricos ainda crêem ser possível sustentar. É este o caldo cultural e social em que vivemos. E agora, reparem: para cúmulo, é este o caldo que potencia a vertigem legalista de governos centralistas, maximalistas e paternalistas (como é o caso do presente), que crêem que a função do Estado é também a de cunhar uma nova linhagem de homens ou a de moldar a actual por decreto. Até à perfeição".

sábado, março 22, 2008

Psicólogos da treta

"É uma das imagens de marca do país: afirma-se muito, questiona-se pouco. Ontem, João Amado, psicólogo, professor da Faculdade de Psicologia e Ciências de Educação de Lisboa, que tem trabalhado sobre a indisciplina nas escolas, confirmou que isso estava de novo a acontecer a propósito do incidente na escola Carolina Michaelis, no Porto.
Ele voltou a estranhar. Algumas questões que lhe surgiram quando foi confrontado com as imagens nos telejornais de quinta-feira: "Em que medida é que aquela professora tem preparação para dar aulas? Haverá um trabalho conjunto naquela escola? Quantos pais aproveitaram esta circunstância para dialogar com os filhos?
(...)Há alunos e alunos e pais que são maus exemplos. Mas isso não desresponsabiliza a escola, que tem de estar preparada para esta situação de diversidade", alerta João Amado.
O psicólogo recusa, contudo, que a agilização dos procedimentos disciplinares, alegadamente contemplada no novo Estatuto do Aluno, venha resolver alguma coisa: "A autoridade que os alunos têm de reconhecer no professor não passa pelo que está escrito nos regulamentos, mas sim pelo modo como se exerce a docência."
Nas escolas, a violência não se exerce só para um lado: "O respeito pelos professores é fundamental, mas os alunos também têm que ser respeitados", adverte o psicólogo, sublinhando que não poucas vezes "os procedimentos disciplinares são motivo para grandes injustiças".
Público

Nota - São análises como esta que muito têm contribuído para o crescente clima de indisciplina que se vive hoje em dia nas escolas. Cada vez que os petizes descarrilam, é certo e sabido que vários psicólogos são chamados a dissertarem sobre o assunto e, como é habitual, o discurso é sempre o mesmo, assente nas "velhas" teorias da treta que, basicamente, apontam no sentido da desculpabilização do comportamento dos jovens. Confesso que já não tenho pachorra para aturar este e outros quejandos que pululam pelos media e que só dizem alarvidades. Transformados em eminências pardas pela comunicação social (confesso que ainda não percebi porquê!), que os solicitam frequentemente, este senhores deviam ser obrigados a, durante uns meses, dar aulas numa escola problemática de Lisboa ou Porto, para tomar contacto com a dura realidade, que pelos vistos desconhecem, e que nós professores vivemos todos os dias. Estou convicto que as suas fortes convicções sofreriam um duro revés e, por certo, deixariam de dizer barbaridades como aquelas que reproduzimos.

A teimosia como princípio

sexta-feira, março 21, 2008

E para quando uma avaliação dos pais?

"O Carolina Michaëlis, que já teve o belo nome de liceu, não serve os miúdos do bairro do Aleixo, no Porto. Não, aquele vídeo (ver págs. 4 e 5) não mostra gente com desculpas fáceis, vindas do piorio. Pela localização daquela escola, quem para lá vai vive às voltas da Boavista e os pais têm jantes de liga leve sem precisar de as gamar. Os pais da miúda histérica que agride a professora de francês estarão nessa média. Os pais do miúdo besta que filma a cena, também. Tudo isso nos remete para a questão tão badalada das avaliações. Claro que não me permito avaliar a citada professora. A essa senhora só posso agradecer a coragem. E pedir-lhe perdão por a mandar para os cornos desses pequenos cobardolas sem lhe dar as condições de preencher a sua nobre profissão. Já avaliar os referidos pais, posso: pelo visto, e apesar das jantes de liga leve, valem pouco. O vídeo mostrou-o. É que se ele foi filmado numa sala de aula, o que mostrou foi a sala de jantar daqueles miúdos".

Ferreira Fernandes
DN

quarta-feira, março 19, 2008

100 Mil

"Podem dois terços dos professores, tantos quantos desceram às ruas de Lisboa, estar enganados? Podem 100 mil profissionais estar ao serviço de um partido, como o nosso primeiro-ministro gosta de dizer de quem protesta contra o seu governo? Pode tanta gente ser, afinal, incompetente, "pseudo-+rofessores que trabalham pouco, ensinam menos e não aceitam avaliações", como disse Emídio Rangel num daqueles momentos em que mais valia estar calado? Claro que não.
Não está em causa a mais do que necessária na educação, nem sequer a justa avaliação a que os professores devem submeter-se. O que está em causa é esta reforma, esta avaliação, em que o governo teimosamente insiste sem admitir que possa ter erros. Há , obviamente, bons e maus professores em Portugal, professores inesquecíveis e professores que deviam mudar de profissão. Mas o governo não pode esperar que acreditemos que aqueles 100 mil que protestaram nas ruas estejam simplesmente de má fé".

Paulo Narigão Reis
Focus

terça-feira, março 18, 2008

Os Professores, a Avaliação e os Mirones da Educação

"Sendo professora com 32 anos de carreira, tenho seguido e sofrido dia a dia não só com as imposições, e divagações do Ministério, mas também com a perseguição de que os docentes têm sido alvo.
Talvez o facto de leccionar Língua e Cultura Portuguesa no Estrangeiro me tenha dado uma visão de sistemas de educação que me permite fazer comparações que não estariam tão ao meu alcance se leccionasse só em Portugal.
Neste ponto só tenho a dizer que o modo como o Ministério da Educação e muitos Encarregados de Educação actualmente tratam os professores seria inconcebível e inaceitável em qualquer país civilizado.
Mas o que mais me espanta, e quase me daria vontade de rir, se o assunto não fosse tão sério, é o elevado número de indivíduos, oriundos de várias camadas sociais e profissionais, que até hoje nenhum interesse mostraram pela Escola, mas que de um dia para o outro se tornaram peritos em Educação e sabem tudo, mesmo tudo!
São absolutamente espantosos as comentários feitos, publicamente, à Manifestação de Professores no passado dia 8 de Março.
O Jornalista Emídio Rangel dá-lhes o nome de “hooligans”, uma “senhora” (aspas intencionais) que pôs um artigo na Internet (Portugal Notícias, 13.03) apelida a marcha de professores de “marcha de chulos”. Outro jornalista do Correio da Manhã diz que os professores “andaram aos saltinhos pelas ruas”. Um senhor reformado ( PWB Netcabo 12.03) queixa-se que começou a trabalhar aos 14 anos, mudou 10 vezes de emprego, tem uma pequena reforma e que os malandros dos professores ficam com boas reformas sem fazer nada, ou quase nada!
E todos concordam em, pelo menos, quatro pontos : os professores são uns madraços, preguiçavam à conta do Estado, pelam-se de medo da avaliação e viva a Sra. Ministra que vai meter isto tudo na ordem! Os professores são o bode expiatório da nação. Delapidaram os cofres do Estado e não ensinaram nada aos coitados dos alunos.
Avaliem-nos! Avaliem-nos ! - grita a multidão - os professores andaram anos e anos armados em espertos, a passar e a chumbar alunos à sua livre vontade, agora somos nós que os passamos ou chumbamos, nós, os pais e os alunos, e só passamos quem quisermos!
Ora, meus caros - e menos caros - amigos, há aqui vários equívocos graves.
Para começar, todos os professores são profissionais com uma formação estruturada, aplicada e aprovada pelo Ministério da Educação. Os professores e os médicos são as duas categorias profissionais em que são perfeitamente visíveis os resultados do seu trabalho e em que a avaliação é feita dia a dia, no local de trabalho, através dos resultados que atingem. Se o médico não consegue descobrir o tratamento adequado ou comete um erro, o doente morre.
Se o professor não ensina, logicamente, o aluno não aprende.
Mas agora surge o ponto crucial da questão:
Se o doente não tomar os medicamentos e não seguir os conselhos médicos, no caso de morrer, a culpa é do médico? Ou se o médico não tiver os medicamentos para ministrar e os instrumentos para a operação, se o doente morrer, a culpa é dele? É lógico que não é. Mas nesse caso, porque andam a culpar os professores dos maus resultados dos alunos, se lhes retiraram todos - ou quase todos os”medicamentos ” e “instrumentos” de que dispunham para exercer a sua profissão?
Refiro-me aqui ao respeito, à autoridade dentro da sala de aula, à possibilidade de fazer com que os alunos estivessem quietos, calados , prestassem atenção à aula, não faltassem e tentassem, pelo menos, atingir a nota mínima para passar de ano.
Actualmente, nada disto é possível. Se o professor tenta tirar o telemóvel ao aluno, porque está a enviar mensagens em vez de seguir a aula, recebe ameaças - e não só - de agressão física da parte do aluno e dos pais do mesmo.
Quando um Director de Turma telefona para os pais de um aluno, porque já há vários dias este não aparece nas aulas, é insultado e os pais dizem-lhe que não tem nada a ver com isso.
Mas não há nenhum problema, porque actualmente e devido às sábias medidas da Sra. Ministra, quase não é preciso os alunos irem às aulas para fazerem o 9° ano! Podem faltar quanto quiserem e não precisam de ter nota suficiente, mas, se mesmo assim não conseguirem, têm as “Novas Oportunidades”, em que conseguem terminar a escolaridade mesmo sendo semianalfabetos.
Mas ai do docente que cometa um erro! A “senhora” que mencionei acima falava, indignadíssima de uma professora que Tinha Cometido Um Erro No Enunciado DE UM TESTE! Do modo como apresentava a questão, parecia que daí poderia resultar o fim do mundo, ou, pelo menos, a terceira Guerra Mundial.
Mas continuando, de quem é a culpa? De um Ministério que abandalha (peço perdão da palavra, mas é a mais correcta) ao máximo as condições do ensino, que retira aos professores todas as possibilidades de ministrar um ensino em condições, que permite presentear com certificados do 9° ano todo o arruaceiro, faltista e preguiçoso que nunca quis fazer nada na escola, só para camuflar os erros ministeriais que cometeu?
A quem admira que, nestas condições, o “doente ensino” morra, ou fique pelo menos incapacitado?
Avaliação! Avaliação! Avaliação! - grita a multidão. Vamos avaliar os incompetentes dos professores!
E a Sra. Ministra rejubila. Sim, porque enquanto estiverem ocupados com um processo de avaliação tão incorrecto, tão moroso, complicado desnecessariamente ao mais alto grau, os professores não vão sequer ter tempo para comer ou dormir, quanto mais para ensinar, criticar o sistema de ensino ou organizar manifestações.
Mas todos estes peritos do ensino de chocadeira podem estar descansados!
Daqui a alguns (poucos) anos, quando tiverem medo de sair de casa porque correm o risco de ser assaltados na próxima esquina - quem não ganha dinheiro e não sabe onde o ir buscar, vai roubar - quando forem pessimamente atendidos nos Correios, no Banco ou numa loja, quando estiverem três meses à espera de telefone porque o seu nome vem sempre soletrado errado, quando se sentirempreocupados com graves problemas de desemprego, criminalidade, tráfico de droga ou prostituição, lembrem-se de que ajudaram, um pouco, a criar uma geração sem valores estabelecidos, sem conhecimentos básicos, sem regras de comportamento, sem hábitos de trabalho, porque que lhes foi permitido andar na escola sem fazer nada e pensar que não é preciso fazer nada para ter tudo, sem reflectirem no choque que esses jovens vão sofrer quando chegarem à vida real e ao mercadode trabalho e ver que as coisas não são nada como lhes fizeram crer. Os que batem nos professores hoje vão ser ou os criminosos ou os explorados pelas empresas amanhã.
Pensem nisto, meus caros – e menos caros – amigos. Pense nisto também, Sra. Ministra!
Pensem que a escola deveria ser uma preparação para a vida. Já o foi, e sei isso, porque trabalhei nesses moldes.
Agora não é uma preparação para nada, a não ser um futuro muito incerto.
Os erros que se cometem com uma geração reflectem-se nas gerações seguintes.
Pensem nisso".

Maria Teresa Duarte Soares - Professora
Nuremberga, Alemanha