

"(...) A bancada parlamentar do Partido Socialista, que tanto se orgulha da sua liberdade, é assim como uma claque de futebol: o chefe manda bater palmas, eles batem palmas; o chefe manda sentar, eles sentam-se; o chefe manda levantar a mão, eles levantam a mão. Sinto até um certo embaraço por um dia ter pensado que cada deputado tinha o seu próprio cérebro e que era com ele que votava na Assembleia de República. Graças ao badalado projecto de lei do Bloco de Esquerda, o grupo parlamentar do PS teve a amabilidade de me mostrar o quanto eu estava enganado.Por isso, pedia humildemente aos especialistas em ciência política que tivessem a caridade de esclarecer esta alma baralhada: para que raio serve, afinal, a disciplina de voto? Porque é que devemos permitir que os deputados que nós elegemos e cujos salários nós todos pagamos votem como se a única coisa que os distinguisse de um rebanho fosse a gravata? Para que é que existem 230 deputados na Assembleia da República se no momento mais nobre da sua actividade - a votação das propostas - eles não estão autorizados a decidir segundo a sua consciência? É que se cada deputado está impossibilitado de se exprimir individualmente, uns 20 tipos chegavam e sobravam para distribuir proporcionalmente os votos do País. Se a disciplina de voto é a regra, então há pelo menos 210 cabeças a mais em São Bento. (...)"
João Miguel Tavares
DN
"Numa iniciativa que se saldou num enorme sucesso, o Grupo de Mulheres do PSD de Vila do Conde organizou, na passada semana, um «Fórum Educação». Quem esteve presente ouviu coisas de estarrecer, algumas que bastaria o recurso ao senso comum para serem corrigidas. A contestação à política educacional governativa é tão vasta e uniforme que, a crer na sua integridade de opiniões, não deve haver um único professor a votar no PS nas próximas legislativas. É a Lei da Avaliação, a da Autonomia das Escolas, são as medidas avulso que nada resolvem, pela simples razão que não há estratégia, mas apenas uma escolha casuística de acções.
Veja-se, por exemplo, o caso do computador Magalhães. Passando ao lado de que aquele produto já tem dois anos no mercado, não tenho o mínimo problema em aplaudir esta iniciativa. È fantástica a ideia de que cada aluno, na sala de aulas, possua um computador. Acontece que este equipamento, por si, não tem valor didático. Porque um computador é apenas uma ferramenta de trabalho, um auxiliar electrónico na acção educativa. Não é por existir um computador para cada aluno que os níveis de literacia e de sucesso escolar irão aumentar.
Por isso, talvez tivesse sido boa ideia abordar a questão de outra forma, começando pela formação dos alunos e dos professores. Poderia chamar-se «Henrique» a este projecto. Porquê? Porque evocaria o Infante D. Henrique que, antes de se lembrar de andar pelo país a distribuir naus e caravelas, criou uma escola, a «Escola de Sagres», dedicada ao estudo e planeamento das viagens marítimas. Ou seja, primeiro pensou e depois é que executou, num plano com princípio, meio e fim.
É isso que falta à actual política educativa: estratégia e planeamento. As medidas são debitadas arbitrariamente, os objectivos são apresentados e alterados aleatoriamente e nem sequer se escuta o que os visados têm para dizer. Com estes ingredientes, é óbvio que o apanágio governamental de uma política de educação com qualidade não encontra eco na realidade, já que alunos, pais e professores só conseguem ver uma acção errante, sem bússola, nem Norte".
Pedro Brás Marques
Vereador na CM de Vila do Conde
Correio da Manhã – Pediram uma reunião de urgência com a ministra da Educação. O que pretendem discutir?
Mário Nogueira – A ministra andou a varrer o lixo para debaixo do tapete e não arrumou a casa. Existem vários pontos que estão a provocar uma insatisfação ainda maior nos professores, como os horários de trabalho ilegais, arbitrariedades e os procedimentos abusivos na avaliação de desempenho.
– Isso significa que vão voltar às jornadas de luta, com manifestações na rua?
– Se continuarmos como estamos, não será difícil prever que vamos regressar à rua. Nos próximos dias vamos sentir o pulsar dos professores, e o mais certo é regressarmos já em Outubro ou em Novembro.
– O facto de o aproveitamento dos alunos ter influência na avaliação e progressão dos professores não abre portas à falsificação de resultados?
– Não posso garantir que isso não vá acontecer, mas os professores são pessoas de bem e não vão abdicar nem colocar em causa valores éticos por causa dessa pressão do Governo.
– Que pressão é essa?
– A leitura feita pelos professores – e não só – é que há uma intenção de melhores taxas de sucesso e de aproveitamento escolar. Mais tarde, o Ministério da Educação e o Governo vão aproveitar números, dizendo que são resultado das suas políticas.
– A avaliação dos professores não era um assunto arrumado?
– Com o memorando de entendimento conseguimos que a maioria dos professores não fosse avaliada. Apenas cinco por cento o foi e mesmo neste pequeno grupo já temos centenas de queixas dos professores. Determinou-se que este seria um ano experimental, mas já se começou a perceber que se trata de um modelo pesado. Os professores ou passam o tempo a avaliarem-se uns aos outros ou a darem aulas.
"A ministra da Educação acha terceiro-mundista a prática das ‘explicações’ que visam (uso palavras suas) "recuperar o que o aluno não aprendeu na escola". Ora, todos sabemos para que servem as ‘explicações’ – e conhecemos o sacrifício dos pais que podem pagar mais de cem euros por mês (118 em média, segundo um estudo da Universidade de Aveiro) para que os seus filhos tenham acesso a esse apoio escolar extra.
Por um lado, mostra como as famílias temem o falhanço científico ou pedagógico no sistema educativo; por outro, revela que as famílias se preocupam, o que não é mau; finalmente, constitui o retrato do sistema que não muda desde os anos 70. Ou seja: o palavreado sobre a qualidade da escola é a única coisa que muda; porque a realidade, essa, é sensivelmente a mesma".
Francisco José Viegas, Correio da Manhã