quinta-feira, agosto 12, 2010

O percurso alternativo

"A ministra da Educação defendeu recentemente a discussão sobre a hipótese de não haver reprovações no ensino secundário, propondo-se aos alunos um “percurso alternativo”.

Quando ouvi a notícia desabafei com a Isabel, a minha mulher, que se eu fosse primeiro-ministro e tivesse ouvido uma tirada destas, mandaria de imediato o ministro passar pela tesouraria em direcção à porta da rua...

A Isabel, mais sensata do que eu, respondeu-me de imediato que nenhum ministro da educação teria a coragem de uma atoarda destas se não tivesse as "costas bem quentes" e que o senhor primeiro-ministro deve estar completamente ao corrente e até estimular ideias destas para serem palco de debate público.

A Isabel sabe que não há melhor para animar a ‘silly season' do que ‘silly ideas'. Além do mais desfoca a atenção para o descalabro da execução orçamental e para o imparável aumento do saldo da dívida pública (que cresce este ano à razão de 2,2 milhões de euros à hora!). Acresce que a proposta provoca sempre o apoio massivo dos estudantes numa altura em que se lhes vai exigir levantar mais cedo para andar mais a pé até à sua escola (porque a da aldeia mais perto vai fechar), ou pedir para se enlatarem mais em turmas mais apinhadas porque não há dinheiro para pagar a mais professores e manter assim os actuais rácios de alunos por turma.

Isto é, como se prevêem dificuldades orçamentais com impacto na qualidade do serviço prestado usa-se o caminho mais fácil, isto é, promete-se o céu dos cábulas (o que não impede que os bons alunos aproveitem).

Confesso que a ideia de reprovar é má. Os meninos podem até ficar traumatizados e nunca mais fazerem nada na vida... Eu chumbei no exame do Código da Estrada. Xi!... Fiquei tão traumatizado!... Paguei nova inscrição em exame à custa de mais explicações que tive de dar e de uma cervejas a menos com os amigos, fiquei umas dezenas de horas a mais em casa, sozinho, a decorar as regras de trânsito e os sinais, e voltei, teimosamente a exame. Resultado: passei! Mas que ideia esta tão bizarra de "chumbar" alguém e de o fazer rever as matérias que não percebeu ou que não teve paciência para estudar...

Se hoje, apesar de haver reprovações, os meninos que chegam às universidades têm enormes dificuldades em escrever duas ideias seguidas, argumentando sem erros gramaticais, não sabendo a tabuada, não conseguindo em muitos casos ter a noção de conceitos abstractos como os de dízima infinita e respondendo nos exames como se estivessem a escrever um SMS, como será quando não tivermos reprovações?

E não sei se a ideia de um percurso alternativo com a legião dos "ex-reprovados" é melhor do que ir integrando alunos repetentes nas turmas de andamento normal. Mas afinal os meninos são retardados, ou carentes de métodos de trabalho?

A menos que o "percurso alternativo" seja uma questão de semântica, apenas para iludir o pagode não passando de um "chumbo alternativo"".

João Duque

Diário Económico

domingo, agosto 08, 2010

O fim dos chumbos

"A razão pela qual não é admissível o fim dos chumbos (agora chama-se "exclusão", a palavra politicamente correcta), é uma razaõ de justiça social. O Estado, que os cidadãos legitimam e financiam, existe para cumprir funções de soberania, defesa e ordem pública, administração da justiça e correcção das desigualdades sociais aberrantes. Nesta, inclui-se a obrigação de não deixar que ninguém more na rua porque não pode pagar uma habitação, que ninguém deixe de ser tratado porque não tem dinheiro e que ninguém deixe de estudar e ter uma oportunidade na vida porque não tem meios para tal. Mas o Estado não tem obrigação de dar casas a quem as não estima nem cuida; de acudir às falsas baixas e aos falsos doentes que exigem uma TAC ou uma ressonância magnética porque estão com uma dor de barriga; ou de pagar os estudos a quem está na escola para não estudar e tudo fazer para perturbar os que querem estudar. Primeiro do que tudo, portanto, os chumbos existem por uma razão de justiça social: uma vez corrigida a desigualdade de nascença e fornecida a oportunidade, o Estado (isto é, a comunidade, todos nós), não tem de insistir e proteger quem o não quer ou o não merece. É bem mais útil gastar o dinheiro dos impostos dos que trabalham a financiar um doutoramento no estrangeiro a um aluno excepcional e que, de outro modo, o não poderia fazer, do que gastá-lo em aulas de recuperação aos calões de serviço - que sempre os haverá. E, sobre uma razão de justiça social, existe ainda uma razão de mérito: em todos os domínios, e começando logicamente pela escola, que é onde tudo começa, o dever de uma comunidade não é proteger os medíocres e compadecer-se dos inúteis, mas sim estimular os bons e premiar os que fazem. Podemos sempre discutir os métodos de ensino, os currículos, os manuais. Mas não podemos nunca transigir no essencial: quem os Estado deve apoiar são os bons alunos, não os maus. A falta de uma cultura de mérito, de uma cultura de responsabilização e de uma cultura de risco é hoje o principal problema do país. A proposta da ministra da Educação para acabar de vez com os chumbos representa a rendiçaõ de toda uma política(...)".

Miguel Sousa Tavares
Expresso

sábado, agosto 07, 2010

A ministra vendedora de ilusões

"A ministra da Educação, antes de voltar atrás e se desmentir, como aliás é frequente entre os ministros socialistas, anunciou que quer alterar as regras de avaliação e acabar com os chumbos, a que hoje pomposamente se chama "retenções". A ideia nada tem de inovadora ou de surpreendente. Não é, desde logo, inovadora, porque se inscreve na política demagógica do Governo de agradar a toda a gente sem olhar a meios ou a consequências. A mera hipótese de um decreto a acabar com os chumbos já foi aplaudida pelas associações de pais, através da sua confederação que representa todos os que apenas querem que os seus rebentos adquiram um canudo grátis e fácil, e cujo visionário presidente já declarou que a medida "seria a maior reforma educativa depois do 25 de Abril", e não deixará decerto de agradar aqueles alunos que pretendem estudar e trabalhar o menos possível. Não consegue ser, de igual forma, surpreendente, porque coincide com os princípios ideológicos do socratismo, que tem a fobia do mérito e a tolerância para com a impunidade como dois dos seus principais alicerces, e que utiliza a manipulação das estatísticas e o facilitismo como forma de se perpetuar no poder.

Isabel Alçada é mais simpática e sedutora que a sua antecessora. E, como se sabe, teve a sorte de chegar ao Ministério com o apoio pessoal do primeiro-ministro, que lhe permitiu selar um acordo perdulário com os professores que reduziu a conflitualidade no sector à custa de muitos milhões que estão já a ser pagos pelo erário público, o que aliás explica porque razão a despesa primária do Estado continua a crescer de forma incontrolada. Mas, no restante, Alçada nada trouxe de novo.

O facilitismo constitui já, no presente estado de coisas, um dos maiores problemas da escola. Afecta os processos de avaliação dos professores que são prejudicados por atribuírem notas justas e beneficiados por inflacionarem as classificações dos seus alunos, impede que os bons professores desempenhem a sua missão de ensinar, desincentiva e prejudica os melhores alunos, impregna todo o sistema de uma áurea de desresponsabilização. É lamentável que haja quem consiga aceder a cursos universitários com negativas, e é inacreditável que não se chumbe por faltas de presença, de material ou de ordem disciplinar.

A tentativa ministerial de invocar o exemplo nórdico para sustentar esta medida roça mesmo a desonestidade intelectual porque Portugal não tem um sistema de ensino igual ao desses países, onde a realidade sociocultural é muito diferente na disciplina, no civismo, nos meios, e na forma como o trabalho intelectual é avaliado.

Mas, como me assinalou uma pessoa amiga e bem informada mal a ideia da Ministra foi conhecida, o momento escolhido não foi inocente, porque coincidiu com o dia em que se conheceram os resultados desastrosos dos exames nacionais.

Como a ministra não tinha vontade de ver o assunto discutido, nem lhe interessava que fossem avaliadas as razões do fracasso ou ponderadas as formas de evitar a repetição ou o agravamento da situação no próximo ano, lançou esta ideia descabida de acordo com a seguinte lógica, ou conselho: "dentro de duas semanas, se tanto, a senhora virá dizer que não era bem isso, era acompanhar os alunos em dificuldades, e do desaire dos exames nacionais já toda a gente se esqueceu". Pois bem, essa pessoa minha amiga tinha razão, porque ainda não passaram duas semanas e a ministra já deu o dito por não dito, sem que alguém falasse dos exames nacionais… E é assim o paraíso cor-de-rosa em que vivemos".

Rui Moreira
JN

sexta-feira, agosto 06, 2010

Soldadinhos do chumbo

"Os portugueses não são um povo de almocreves, desligados do mundo, limitados ao horizonte do seu casebre, horta e burro. Viajam, estudam, realizam-se, influenciam decisões externas. Não precisam de, em matérias educativas, ter um ministério iluminado, a indicar-lhes o caminho, invocando exemplos alheios, Sobretudo quando esse caminho é, por muita maquilhaegm que se aplique, o velho rumo para o abismo.
Nos vários colóquios internacionais sobre insucesso escolar, costumo ver listadas "10 razões" para o mesmo. Vão desde falta de competências na aprendizagem básica da língua e da aritmética a problemas familiares e sociais (incluindo, nalguns países, a fome real dos alunos), ausência de motivação, fobia do ensino ou consumo de substâncias perigosas.
Das experiências americanas às asiáticas, das alemãs às australianas, nunca vi propor, como solução, a diminuição do rigor, ou a eliminação das fronteiras entre o bom e o mau, o suficiente e o inaceitável.
Por outras palavras, nunca vi que o "chumbo" fosse diagnosticado como a causa dos males. Ele é, obviamente, uma consequência: a tradução da inadequação do aluno ao processo de aprendizagem, e a sua falta de aptidão numa matéria determinada.
Todos sentimos, ao longo da vida, que estávamos mais próximos, ou mais distantes, do controlo dos saberes. É precisamente essa noção de carência, ou suficiência, que nos obriga ou nos persuade a mudar, a melhorar, a ultrapassar as limitações.
Um Estado decente deve ter a educação de qualidade, de todos os seus membros, como prioridade. Um país iletrado produz políticos iletrados, e repetirá a iliteracia à náusea, chegando a chamar-lhe cultura.
Um Estado decente precisa de encontrar meios - humanos e materiais- para auxiliar alunos com problemas de saúde, de sociedade, de família, por forma a colocá-los no mesmo patamar de partida de todos os outros.
Um Estado decente não recua perante a necessidade de revisões, estudo acompanhado, avaliações informais, treino adaptado e ensino especial.
Um Estado decente - falo como pai, como filho, como antigo aluno, como antigo docente, como pessoa interessada na aprendizagem contínua - não tem medo das estatísticas. E não pode tombar no mecanismo infantil (ou "totalitário") de pensar que, mudando as palavras e eliminando os obstáculos burocráticos, adquire o "progresso".
O "chumbo" é um facto da vida, com que conviveram gerações de pessoas de sucesso. A distinção, a classificação, o prémio da excelênca, as notas, as avaliações deviam também continuar a ser fractos da vida.
O que não impede que se melhorem os métodos, se revejam os conteúdos, se modernizem as escolas, se qualifiquem os processos. Não queremos um ensino mais fácil. Devemos desejar um ensino onde o difícil pareça fácil, devido à preparaçaõ do que se abalança à grande aventura descoberta, que é também a odisseia do crescimento.
A alternativa é a desumanidade. Sem objectivos nem refrências, não se dirá então "fez-se um homem".
Antes: "Desfez-se o que poderia ser uma pessoa"."

Nuno Rogeiro
Sábado

quinta-feira, agosto 05, 2010

quarta-feira, agosto 04, 2010

Chumbo é uma palavra pesada. É um sentimento tóxico.

"É heavy-metal para os ouvidos elegantes do Ministério da Educação, cujas mãos doces se têm entretido, nas últimas décadas, a destruir qualquer vestígio de exigência no nosso ensino. O facilitismo nacional nasce do ovo chocado pelo Ministério da Educação. O epílogo foi agora anunciado pela ministra, como um milagre esperado: nasceu uma nova era em que não é preciso estudar e apreender para se passar e, para, no futuro se ser licenciado. Na realidade, chumbo é uma palavra que já foi proscrita há muito em nome das estatísticas. Em seu lugar surgiu, abençoada, a palavra retenção. Chumbo significa exigência na educação e é contra isto que este Ministério luta há anos. A educação é hoje, por aqui, uma actividade bacana. Afinal, para os seus dirigentes, a educação é um acampamento hippie, sem hierarquias, sem regras e sem objectivos. O problema é que esta mentalidade bacana tem fiéis seguidores neste País, a começar por quem grita "revolução!" quando Isabel Alçada acendeu o fogo de artifício da possibilidade do fim dos chumbos no ensino obrigatório. Para ver se pega. O fim dos chumbos é o último prego no caixão daquilo a que chamávamos educação em Portugal. É mostrar aos jovens que não vale a pena o esforço, porque o facilitismo é uma forma de vida. A ministra Isabel Alçada decretou a retenção da educação. Anunciou o chumbo do bom-senso. É uma acção de graças: a ministra quer tornar Portugal uma comunidade de orgulhosos iletrados que vive em festa permanente".

Fernando Sobral
Jornal de Negócios

terça-feira, agosto 03, 2010

A nossa escola é uma escolinha

"Professor do Ensino Secundário há duas décadas, um amigo contou-me esta história: a paranóia com a estatística fez com que, em pleno Verão e depois de três reuniões inconclusivas sobre a necessidade de não reprovar um aluno, uma equipa de inspectores de uma direcção regional de Educação se deslocasse à escola para dirimir o diferendo. Conclusão: os inspectores incentivaram a passagem administrativa do aluno, apesar dos péssimos resultados alcançados no ano lectivo. Isto é: a direcção regional de Educação institucionalizou a vergonha.

Nem de propósito, dois dias depois desta conversa, a ministra da Educação fez saber que vê com bons olhos a possibilidade de acabar de vez com os chumbos nas escolas. A ideia não é propriamente nova: todos nos lembramos de que, por motivos mais ou menos prosaicos, antecessores de Isabel Alçada avançaram com idênticas propostas.

Mais do que isso: olhando para o que se tem feito ao longo dos úlitmos anos, percebe-se com facilidade que já foram dados muitos passos rumo a este objectivo. Exemplos? Há-os aos pontapés: os programas são cada vez mais curtos e fáceis; uma colecção de negativas não chega para ficar retido, como agora se diz; os exames não obrigam os meninos a grandes esforços; foram criadas coisas com nomes bonitos, como Área de Projecto ou Formação Cívica, que não contam e cumulativamente não servem para nada.

Aqui reside o problema político desta recorrente trapalhada educativa: os sinais de facilitismo são tão grandes e tão contínuos, tão díspares e inconsistentes, que, em boa verdade, é difícil vislumbrar uma estratégia cujo objectivo final seja, efectivamente, recuperar os alunos com mais dificuldades, de modo a mais tarde os integrar no mercado de trabalho com um mínimo de preparação.

Quero dizer: sem avaliar aqui a bondade da medida (sobre a qual tenho imensas dúvidas), mete-me muita impressão que se queira começar a casa pelo telhado. Os finlandeses, que a ministra tanto gosta de citar como bom exemplo, não andam a dar tiros no escuro, como nós andamos há muitos e penosos anos. Lá, por exemplo, as turmas são muito mais pequenas, os alunos muito mais acompanhados, os professores muito mais valorizados. E, no meio deste ecossistema limpo e claro, o rigor e a exigência são a pedra-de-toque da política educativa. É possível conciliar tudo isto sem loucuras e cedências à estatística. A ministra sabe-o. Mas nada disto será exequível enquanto inspectores se deslocarem a escolas para impor passagens administrativas".

Paulo Ferreira
JN

segunda-feira, agosto 02, 2010

Nós, os suecos

"A ideia de acabar com os chumbos não é da ministra Isabel Alçada, é de algum eduquês desconhecido que anda pelo Ministério pelo menos desde o tempo de Roberto Carneiro.

E que há-de ser um grande vendedor de ideias pois a generalidade dos ministros aparece com a original ideia de acabar com os chumbos menos de um ano depois de ter tomado posse.

Só os argumentos vão variando. Desta vez é fazer como "na Finlândia, Suécia, Noruega e Dinamarca" onde, "em vez de chumbar, os alunos com mais dificuldade têm apoio extra".

É certo que, na Noruega (12 alunos por professor no Básico e 8,2 no Secundário, contra 28 a 30 em Portugal), 40% das escolas básicas "são tão pequenas que crianças de diferentes idades têm aulas juntas" e que, na Suécia, cerca de 60% das escolas do 1.º Ciclo funcionam com menos de 50 alunos.

Por cá, a ministra que quer apoio personalizado para os"alunos com dificuldades" é a mesma que fecha as pequenas escolas de proximidade e manda as crianças de camioneta para mega-escolas anónimas e indiferenciadas nos grandes centros. Mas por algum sítio temos de começar para sermos suecos, não é?"

Manuel António Pina
JN

domingo, agosto 01, 2010

Os perigos do facilitismo

"A ministra da Educação afirmou em entrevista ao Expresso que "as repetências quase nunca são benéficas", abrindo a porta a uma revisão das regras de avaliação que acabe com os chumbos. Isabel Alçada tem razão no diagnóstico do problema, mas, salvo melhor opinião, erra no caminho que aponta. A falta de resultados na escola não se combate, obviamente, baixando os níveis de exigência.

A intenção anunciada comportaria vários riscos. Desde logo, a redução da autoridade dos professores, da escola mas também dos pais. Se, no plano das consequências, à falta de aproveitamento escolar corresponder a progressão do aluno, de cada vez que alguém lhe dissesse que tem de estudar, arrisca-se a ter como resposta um encolher de ombros, já que, estude ou não, um facto estaria garantido: não chumbaria.

Sendo verdade que a escola deve ser sempre um espaço de inclusão e de igualdade de oportunidades, o mérito não pode deixar de ser reconhecido e diferenciado. Ou seja, a igualdade de oportunidades deve ser assegurada no acesso ao ensino. Porém, a comunidade escolar não pode, no final de cada ano lectivo, tratar do mesmo modo um bom aluno, um estudante razoável e um cábula. Isto é, não é justo que quem não obtém aproveitamento tenha, em termos práticos, o mesmo resultado que quem se esforça.

A ser assim, arriscamo-nos no limite, e citando a ministra da Educação, a que apenas uma minoria dos alunos portugueses saiba "onde fica o mar Mediterrâneo".

Editorial
DN

CONFAP devia ter vergonha

"Que o Ministério da Educação queira acabar com os ‘chumbos’, não admira. Toda a filosofia do ensino português, nos últimos longos anos, apontava para essa utopia igualitária: o fim da exigência pedagógica e o enterro de qualquer noção de excelência intelectual.

O que admira é a reacção da Confederação Nacional das Associações de Pais, que aplaude a medida e considera a pretensão da dra. Isabel Alçada "a maior revolução na educação desde o 25 de Abril".

Engraçado. Se alguém estivesse a preparar um crime destes sobre a formação académica de um filho meu, a única atitude sensata seria a náusea, a revolta, eventualmente a emigração.

As nossas associações de pais, pelo contrário, sentem orgulho e até gratidão. Porque imaginam que esta simpática fraude irá depositar nas mãos dos filhos o diploma de fantasia com que eles enfrentarão o mundo real.

Não é difícil imaginar a carnificina do arranjo. Difícil é contemplar o sorriso dos pais de hoje pelos filhos analfabetos e imprestáveis que terão amanhã".

João Pereira Coutinho
CM

Ministra da Educação quer acabar com chumbos

"A ministra da Educação, Isabel Alçada, afirmou que "os chumbos quase nunca são benéficos" e, em entrevista ao ‘Expresso’, adiantou que está a ponderar alterar as regras de avaliação durante o seu mandato. O chumbo, disse, "não tem contribuído para a qualidade do sistema" e, por isso, "a alternativa é ter outras formas de apoio, que devem ser potenciadas para ajudar os que têm um ritmo diferenciado". Segundo as contas da tutela, os chumbos custam todos os anos ao País 600 milhões de euros.

A ideia da ministra não agradou aos partidos da Oposição, sendo a reacção do CDS-PP a mais incisiva: a medida de Isabel Alçada é "um disparate" e "uma injustiça". "Portugal, dizem os populares, "necessita de valorizar a cultura do mérito".

De acordo com as estatísticas do ano lectivo 2008/09, a taxa de retenção e desistência foi de 7,6 por cento no ensino básico, sendo o 3º ciclo aquele em que há mais registo de chumbos: 13,8 por cento. No ensino secundário, a taxa de retenção/desistência cifrou-se nos 18,7 por cento".

CM

sexta-feira, julho 30, 2010

quinta-feira, julho 29, 2010

Crise está a empurrar alunos do ensino privado para o público

O director executivo da Associação dos Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo considera que a crise está a obrigar muitas famílias, sobretudo de classe média, a optar pelo ensino público.

«Há famílias com problemas de desemprego de um dos membros do agregado e não conseguem manter os seus filhos no ensino particular e cooperativo», adiantou Rodrigo Queiroz e Melo, citado pela Renascença.

«Nas grandes cidades, a procura continua em níveis semelhantes aos de anos anteriores; nas periferias das grandes cidades há bem menos procura e nos meios mais rurais essa procura diminuiu substancialmente», acrescentou.

O responsável não tem números concretos para esta tendência. Ainda assim, acredita que, se a situação piorar, ficam em risco postos de trabalho no ensino privado

quarta-feira, julho 28, 2010

Menos 701 escolas

A crer no Ministério da Educação, é para garantir "igualdade de oportunidades" a todos os alunos que, "em estreita colaboração com associações de pais (...) e autarquias", irão ser encerradas a partir de Setembro mais 701 escolas do 1º Ciclo, a juntar às 5 172 encerradas desde 2000.

Apesar de o anúncio ter sido feito com meio país a banhos, sucedem-se, de Norte a Sul, os protestos das associações de pais e autarquias "em estreita colaboração" com as quais o ME teria preparado a coisa.

A seguir a centros de saúde, maternidades, urgências e estações de CTT, 701 pequenas comunidades rurais do desertificado interior ficarão agora sem escola e 10 mil crianças dos 6 aos 10 anos serão forçadas a percorrer todos os dias dezenas de quilómetros até chegarem, exaustas e sonolentas, às indiferenciadas linhas de produção educativa que são as "mega-escolas" dos centros urbanos.

O presidente da Câmara de Bragança fala de casos, no concelho, em que as crianças terão que fazer diariamente duas viagens de mais de hora e meia para ir à escola. Só por humor negro alguém pode chamar a isso "igualdade de oportunidades".

Manuel António Pina
JN

terça-feira, julho 27, 2010

As Novas Oportunidades - uma fantochada

"Em Matosinhos, durante uma cerimónia de entrega de diplomas a alunos das Novas Oportunidades (NO), o eng. Sócrates confessou sentir "um nó na garganta".
Engraçado. Eu também fiquei assim depois de ler, um destes dias, o primeiro estudo editado pela prestimosa Fundação Francisco Manuel dos Santos (e pela Relógio d'Água), O Ensino do Português, de Maria do Carmo Vieira. O capítulo dedicado às NO relembrou-me não apenas que as NO existem como aquilo que, evidentemente, são: uma das maiores anedotas já perpetradas contra a educação em Portugal.
Na prática, as NO consistem na troca dos currículos associados ao ensino básico ou secundário por uma "abordagem autobiográfica", na qual os alunos (?) descrevem, com o caos gramatical e narrativo facilmente imaginável, a história das suas vidas e o que se acham capazes de fazer. Dito de outra forma, elimina-se a necessidade de se reter uns rudimentos de ciências e letras, em princípio adquiridos ao longo de anos, e passa-se a avaliar as pessoas através de uma redacção confessional que culmina três ou seis meses de uma espécie de aulas. Dito ainda de uma terceira forma: não se avalia ninguém.
De resto, seria complicado uma criatura ser avaliada por quem lhe pede um "portefólio reflexivo de aprendizagens", conceito que só por si ilustra a literacia dos próprios inventores das NO. Talvez por isso, essas sumidades assumem que as "aprendizagens" em causa incluem, juro, o preenchimento de formulários, o domínio de uma torradeira eléctrica e a capacidade de ingerir um analgésico para combater a dor de cabeça. Ou seja, um sujeito que consiga fazer uma tosta mista ou tomar um comprimido é praticamente catedrático.
E, se não conseguir nenhuma das proezas acima, as NO sempre oferecem o Curso de Jogador(a) de Futebol, que "dá" equivalência ao 9.º ano e que permite aos felizes beneficiários "utilizarem a imagem pública na construção da carreira e do êxito pessoal, na divulgação da equipa que representam".
Não admira que, no final da cerimónia de Matosinhos, o eng. Sócrates, ele próprio possuidor de um diploma de valor comparável aos que distribui, tenha afirmado que "Isto é que é importante para o País", que "A política assim vale a pena" e que saía dali "com uma luz no coração". Obviamente, o nó não lhe bloqueia a garganta. De resto, o Ben-u-ron ajuda".

Alberto Gonçalves
DN

sexta-feira, julho 23, 2010

Aprovado o novo Estatuto do Aluno

"O novo Estatuto do Aluno foi ontem aprovado no Parlamento com os votos favoráveis de PS e CDS-PP, e com os restantes partidos a votarem contra. A alteração ao regime de faltas – com o regresso da distinção entre faltas justificadas e injustificadas – e o fim das tão contestadas provas de recuperação são algumas das medidas que se destacam na nova lei.
Já o aumento da responsabilização dos pais é um dos aspectos dominantes no novo Estatuto do Aluno, que prevê que os pais sejam chamados à escola sempre que os filhos atinjam metade do limite de faltas. Caso os encarregados de educação não compareçam, o director está, a partir de agora, obrigado a comunicar a falta de assiduidade à Comissão de Protecção de Crianças e Jovens. "Quisemos responsabilizar outros agentes para além da escola quando os pais não acompanham o percurso escolar dos filhos", explicou ao CM a deputada socialista Paula Barros.
No Parlamento, o CDS-PP cantou vitória. "95 por cento das nossas propostas estão vertidas no novo estatuto", afirmou o deputado José Manuel Rodrigues. O PSD reconheceu que o fim das provas de recuperação e o novo regime de faltas são aspectos positivos, mas frisou que o novo estatuto foi "uma oportunidade perdida". "Propusemos que fossem criadas 10 equipas multidisciplinares no País para lidar com os casos de indisciplina, que custariam não mais de 1,5 milhões de euros, mas foi rejeitado", disse ao CM o deputado do PSD Emídio Guerreiro. PS e CDS comprometeram-se a apresentar propostas autónomas sobre a criação dessas equipas. A deputada Paula Barros disse ao CM que a proposta do PS deu ontem entrada na Assembleia da República. Miguel Tiago (PCP) disse que este estatuto tem ganhos face ao anterior, mas "responsabiliza o aluno por tudo" e "não traz soluções para a indisciplina".
Também Ana Drago (BE) disse que se trata de uma "resposta ilusória às questões de indisciplina": "Era fundamental pôr equipas multidisciplinares nas escolas."

CM

quarta-feira, julho 21, 2010

Saldos dos salários

Nos últimos meses, desde que a crise do euro colocou em causa a posição de Portugal, muitos economistas, nacionais ou estrangeiros, propuseram uma magnífica cura para todos os nossos males: descer os salários nacionais.
Alguns falam em 10 por cento, outros em 15, e outros, mais afoitos, chegam a falar em 20 ou mesmo 30 por cento. A lógica desta "medida" é de uma simplicidade encantadora: como a produtividade dos portugueses não cresce, e já não é possível desvalorizar a moeda, então a única forma de sermos competitivos é uma descida geral dos salários, para tornar toda a nossa economia, mais… ups, está-me a faltar a palavra, é isso, "competitiva"!
Quando ouço essas luminárias a propor semelhante remédio para a nossa doença, desconfio logo de que se trata, certamente, de pessoas bem pagas. Se eu ganhar 20 ou 30 mil euros, descer os salários em 2 ou 3 mil euritos não vai mudar muito a minha vida. Contudo, se eu ganhar mil euros, ou seiscentos, perder 20 por cento do meu salário é capaz de já me fazer muita diferença, não é verdade?
Mas, esqueçamos por uns segundos os rendimentos das luminárias, e examinemos o que cada um de nós faria com menos 20 por cento do salário. A maioria dos portugueses, além de vir para a rua furioso em manifestações (o que até podia ser divertido), só tinha uma coisa a fazer: cortava nas suas despesas. Fazia menos compras nos supermercados, em gasolina, em despesas domésticas e familiares, etc., etc. Ou seja, o efeito combinado de milhões de portugueses a baixarem as suas despesas provocava uma tremenda recessão no consumo. E, como se tratava de uma medida permanente, na verdade descíamos todos para um patamar abaixo, para sempre. Para agravar ainda mais o cenário, convém lembrar que as nossas dívidas não baixavam 20 por cento, e teríamos de continuar a pagá-las, desse por onde desse.
Exportaríamos mais, com essa queda nos salários? É duvidoso, pois não é garantido que os preços das exportações descessem 20 por cento, nem que os estrangeiros nos comprassem mais só por causa disso. Os saldos salariais são pois uma ideia idiota, saída de cérebros desprovidos de qualquer preocupação social. São uma ideia desesperada, de quem se recusa a reconhecer a evidência de que o euro, com as regras que tem, teve efeitos nefastos em Portugal. Infelizmente, é sempre mais fácil negar a realidade com truques de ilusionistas do que enfrentá-la.

Domingos Amaral, director do "GQ"
CM

terça-feira, julho 20, 2010

A Escola - um atraso de vida

"Parece que se discute agora a obrigatoriedade da disciplina da Educação Sexual nas escolas. É um assunto obviamente delicado mas, convenhamos, também é coisa do século passado. Quando fui aluno do secundário, há mais de 30 anos, projectava-se a existência de uma disciplina desse tipo. Ao fim deste tempo todo estamos exactamente no mesmo sítio, a discutir se sim, se não. Um atraso de vida, constata-se.

A famosa reforma educativa de Maria de Lurdes Rodrigues, espremida, não significava mais do que arranjar maneira de reduzir as despesas do Estado com a educação pública. O resto, imaginativo, erudito e hipócrita, era um exercício de malabarismo para defender, ideológica, legal e pedagogicamente, a odisseia. Quantos governos PS ou PSD, anteriormente, tentaram o mesmo? Todos, com menos estardalhaço mas igual insucesso. Um atraso de vida, confirma-se.

As notas dos exames no secundário foram baixas. Nas disciplinas de Português as médias variaram, conforme os cursos, de 10,1 a 10,5 valores. Na Matemática foram de 8,7 a 10,8. A Física e Química 8,1... Uma normalidade, de décadas, com pequenas variações. Nela assistimos a uma tragédia incompetente, caucionada, no entanto, pela constante e milagrosa diminuição de chumbos. Um atraso de vida, portanto.

O nosso sistema de ensino, apesar de andar a distribuir um computador por cabeça, ignora ou apenas finge que dá atenção a elementos básicos de cultura geral. Quantos alunos aprenderam a tocar uma simples flauta de bisel na escola pública? Quantos alunos aprenderam uma dança, a entender um bailado, a perceber uma ópera? Quantos alunos conseguem identificar uma obra de arte famosa de Leonardo da Vinci, Goya ou Picasso?

Pior: A maioria dos alunos sabe construir um banco de madeira? Não! Cozinhar um ovo estrelado? Não! Cuidar de um cão? Não! Plantar uma árvore? Não! Isto já nem é do século passado, cheira a século XIX. Um atraso de vida, fossilizado.

Portugal é um atraso de vida? É. Como podia deixar de o ser? Bastava ensinar os estudantes a descodificar, a criticar e a valorizar as mensagens da comunicação social, dos jornais, da TV, da Web, da rádio e do que os poderosos - da política, do jornalismo, da economia, da cultura, do desporto - dizem através deles. Devia ser tão obrigatório como ensinar a compreender Luís de Camões ou Eça de Queirós. Com um povo que deixasse de ir em conversas demagógicas, que soubesse ler as entrelinhas do discurso de quem manda, este atraso de vida, por fim, terminava. Assim, prosseguimos, ignorantes mas serenos... e a votar nos mesmos".
Pedro Tadeu
DN

segunda-feira, julho 19, 2010

Ao contrário de Portugal, lá fora aposta-se no regresso a escolas mais pequenas

"A criação de grandes agrupamentos escolares que irá começar a tomar forma em Portugal no próximo ano lectivo está em queda noutros países, que já viveram a experiência e tiveram maus resultados. Na Finlândia, a pequena dimensão é apontada como uma das marcas genéticas de um sistema de ensino que se tem distinguido pelos seus resultados de excelência.

Em Portugal, para já, os novos agrupamentos, que juntam várias escolas sob uma mesma direcção, terão uma dimensão média de 1700 alunos, in- dicou o secretário de Estado da Educação, João Trocado da Mata. O número limite fixado foi de três mil estudantes.

Em Nova Iorque, o mayor Michael Bloomberg tem vindo a fazer precisamente o oposto. Desde 2002 foram fechados ou estão em processo de encerramento 91 estabelecimentos. Entre estes figuram mais de 20 das grandes escolas públicas secundárias da cidade, que foram substituídas por 200 novas unidades. Nas primeiras chegavam a coabitar mais de três mil alunos. Nas novas escolas, o número máximo vai pouco além dos 400.

Em algumas das grandes escolas que fecharam portas eram menos de 40 por cento os alunos que tinham êxito nos estudos. No conjunto das escolas da cidade, esta percentagem é de 60 por cento, mas entre os estudantes que estão nas novas unidades já subiu para os 69 por cento, revela um estudo financiado pela Fundação Bill e Melinda Gates, divulgado no final do mês passado.

A fundação criada pelo dono da Microsoft tem sido um dos parceiros da administração do mayor Bloomberg na implementação da reforma lançada há oito anos. O estudo, desenvolvido pelo centro de investigação MDRC, abrangeu 21 mil estudantes, dos quais cerca de metade está já a frequentar as novas escolas. Uma das conclusões: entre estes, a taxa de transição ou de conclusão dos estudos é superior em sete pontos à registada entre os alunos inquiridos que frequentam outros estabelecimentos de ensino".

Público

domingo, julho 18, 2010

sexta-feira, julho 16, 2010

Nenhum aluno do 8º ano com mais de 15 anos concluiu o ensino básico

O Ministério da Educação (ME) revelou, esta sexta-feira, que nenhum aluno do 8º ano com mais de 15 anos de idade concluiu o ensino básico ao abrigo do regime excepcional que o Executivo criou este ano lectivo.

«Dos alunos do 8.º ano, maiores de 15 anos, que se auto-propuseram a exames do 9.º ano, informa-se que, apesar de se terem registado algumas notas positivas nos exames nacionais de Língua Portuguesa e Matemática, nenhum destes alunos concluiu o ensino básico por esta via», informou fonte do ME citada pela edição online do i.

quinta-feira, julho 15, 2010

Grito de alma

"Escolhi a minha profissão. Escolhi ser professora. E escolhi assim porque encontrei alma nesta profissão, na relação com os alunos, na relação com as famílias e também na relação com os outros professores. Olhar para cada criança ou jovem como um ser único e estabelecer com ela(e) uma relação que vai para além do vocabulário e das estruturas gramaticais do Inglês que ensino, mas que é fundamental para a sua aprendizagem. Ser procurada pelos alunos, particularmente nos seus momentos maus, nos seus problemas, relacionados ou não com a escola, quando se conquistou a confiança deles. Ajudá-los a resolver os problemas quando é possível, ouvi-los, pelo menos, quando mais não se pode fazer.

Estabelecer uma relação com as famílias como directora de turma. Conhecer, assim, melhor, cada aluno, e conquistar a confiança e criar laços com os pais, fazendo com que haja clima para analisar os problemas dos seus educandos e encontrar estratégias de resolução em que a família, os alunos e os professores entrem, cada um de acordo com as suas responsabilidades e o seu papel. Atendimentos, reuniões de pais e alunos, projectos desenvolvidos para além do horário, da remuneração e do reconhecimento de quem não as/os vive(u), nas horas de alma e com alma. Fazer de cada turma uma família com alunos, mas também com pais e professores, em que a escola é, de facto, uma segunda casa, não apenas nem sobretudo pela quantidade de tempo que se lá passa, mas pela sua qualidade.

Ser professor é ter uma profissão eminentemente relacional, que se constrói na vivência da relação. Não estou a esquecer-me da necessidade do conhecimento científico do professor e da necessidade de ele saber trabalhar esse conhecimento do ponto de vista pedagógico, para que os alunos possam aprender. Estou apenas e tão-só a salientar a importância da dimensão humana e relacional do processo de ensino-aprendizagem e, consequentemente, da profissão docente.

A minha profissão está a perder alma. A escola está a perder alma. Eu estou a perder alma. Cada novo diploma legal (e são tantos) acrescenta mais um tanto de burocracia à profissão, com o argumento do rigor. São fichas e papéis para tudo e... para nada: para as faltas dos alunos, contadas das mais diversas formas e nos mais variados documentos; para informar os pais sobre tudo e mais alguma coisa, com prazos reduzidíssimos; para justificar cada negativa que se dá; para fazer planos de recuperação de cada negativa que se dá; para tomar medidas disciplinares; para as justificar; para...; para...; para... São reuniões atrás de reuniões para tratar de mais burocracias, em que o tempo é sempre mais longo do que o previsto (mas não remunerado) e os assuntos que verdadeiramente interessam, aqueles que têm alma, já não têm tempo de ser abordados. Convencemos os pais dos alunos de que devem passar tempo com os seus filhos, após a escola, e nela permanecemos nós, depois do horário das aulas, em reuniões sem fim, com os filhos à espera, na ama, sozinhos em casa, ou com alguém que não nós. Tudo isto, sem que tenha diminuído o número das outras tarefas. Essas, aquelas em que eu encontro alma, vão perdendo espaço e valor.

Entra-se numa sala de professores e só se ouve: "Já não tenho tempo para preparar aulas como gostava. Agora, reutilizo as coisas que fui fazendo ao longo dos anos.", "Já não consigo tempo para ir às livrarias e nem sequer para ler.", "Não consigo nem um bocadinho para pesquisar na net coisas novas.", "Não tenho tempo para a família e nem para mim." E logo depois, também se ouve: "Não foi para isto que vim para professor." Olha-se à volta e vêem-se colegas de profissão, um pouco mais velhos, sempre dedicados ao trabalho, de corpo e alma, respeitados na escola e a ela fazendo imensa falta, calculando o que perdem com uma reforma antecipada. Querem ir embora enquanto a burocracia não lhes rói a alma e acabam por o fazer, de lágrimas nos olhos, enquanto muitos outros já partiram mesmo.

Por mim, tenho vindo a procurar não perder a alma, aguentando o tal trabalho relacional, invisível, não reconhecido nem remunerado, acumulando-o com o obrigatório, cada vez mais burocrático. Também eu penso, digo e repito cada uma das frases que ouço aos outros. E, por incrível que pareça, até já me apanhei a pensar "Quem me dera ser mais velha!". Na verdade, nunca me quis imaginar na reforma, como muitos destes dedicados professores também não. Mas entre a alma/saúde mental e esta burocratização crescente da escola, então há que salvar o principal. Vejo os meus colegas partirem ou preparem-se para a partida. Quando tal acontecia, em tempos não muito remotos, todos se sentiam nostálgicos e a partida era discreta. Hoje há efusivos parabéns a quem conseguiu e uma inveja (mal) calada de quem tem que ficar.

Estas palavras são as lágrimas que não choro e que transcrevo para a solidão do papel para que ajudem a fortalecer uma alma-professora que luta por si própria, pela sua sobrevivência, e pela escola-alma com verdadeira alma, mesmo alma".

Armanda Zenhas
Educare.pt

quarta-feira, julho 14, 2010

Professores de Matemática nunca têm culpa

"Todos os anos a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) é chamada a comentar os resultados dos exames, sejam eles do 12.º ano ou, mais recentemente, do 9.º ano. Os governos mudam e os resultados dos nossos alunos também. Só a posição da SPM continua cristalizada em frases como "ficamos bastante preocupados" ou "a maneira como está a ser feito o ensino da Matemática não é a mais adequada". No ano passado, também por esta altura, aquando da divulgação dos resultados dos exames do 9.º ano, a situação ainda foi mais caricata. A SPM acusou: "Uma prova tão elementar como esta não serve o progresso do ensino." Sobre a mesma prova a APM (Associação Portuguesa de Matemática) disse: "A prova está, na generalidade, de acordo com as orientações curriculares." Sendo todos professores de Matemática e sendo esta uma ciência considerada como exacta, são difíceis de entender opiniões tão distintas como estas.
Além disso, por mais responsabilidade que tenham os titulares da pasta da Educação, as aulas são da responsabilidade dos professores. Por isso, não se compreende também como é que, ano após ano, os docentes de Matemática se limitam a lamentar os resultados dos alunos e as orientações políticas do sector.
Porque a verdade é só uma: por piores que sejam os ministros e os alunos, alguma responsabilidade têm de ter os professores de Matemática no crónico mau desempenho português nesta disciplina".

João Marcelino
DN