quarta-feira, outubro 13, 2010

Entrevista de Maria de Lurdes Rodrigues

"Quis prestar contas ao país. Saldou-as?
Do meu lado, estão, que as prestei.

O sistema está preparado para o fim dos chumbos?
Os chumbos têm vindo a diminuir progressivamente. Sabe-se que esse é que um mecanismo totalmente ineficaz - um aluno que chumba tem elevada probabilidade de não cumprir com êxito o seu percurso escolar e vai acumulando repetências. Qual é a alternativa? Acabar com os chumbos? Não. É instituir outros mecanismos pedagógicos que reforcem o tempo de trabalho e acompanhamento dos alunos.

Ao primeiro sinal de dificuldade?
Foi o que fizemos com os planos de recuperação, dar orientação às escolas para reforçar os tempos de trabalho de todo e qualquer aluno que tenha nota negativa no Natal - porque os alunos não chumbam em Julho. O que é errado é falar-se no fim dos chumbos sem mais. Não é isso que está em cima da mesa. O que deve estar em cima da mesa é qual é o mecanismo alternativo à repetência - e é mais trabalho. Têm de ser dadas condições às escolas e aos professores para que possam, de facto exercer, esse poder de acompanhamento.

Na última conversa que tivemos defendeu que a contestação às suas políticas não custou a maioria absoluta ao PS, antes pelo contrário, deu a vitória ao partido. Os professores podem derrubar ou eleger governos?
Ninguém sabe porque se ganha ou se perde uma eleição, é preciso estudar isso no final de um escrutínio; e como ninguém sabe o que na realidade se passou e o PS ganhou as eleições, o que posso é também ter uma opinião e a minha opinião é que o PS não perdeu as eleições porque tem muito trabalho para mostrar na área da Educação.

O país é governável sem Orçamento?
Na minha opinião, não. Além de que não se consegue prosseguir neste caminho de diminuição do défice e da despesa pública. Um início de novo ano com um orçamento de duodécimos seria fatal para a despesa, para a receita. O país ficaria totalmente desorganizado.

Está preocupada com os efeitos das medidas de austeridade no ensino?
As medidas de austeridade são muito duras com todos, mas não podemos, mesmo nestes momentos de maior aflição, perder de vista os grandes desígnios. Não sabemos como será o futuro, mas há uma certeza que podemos ter: será pior se não continuarmos esforço da qualificação.

A Educação tem de ser prioritária?
Tem de ser. A crise deve ser um momento em que não há hesitações sobre esta matéria.

Onde é que o sistema pode emagrecer?
O esforço da reorganização da rede é um esforço que o país procura fazer desde 1984 - fechar escolas com poucos alunos, integrar escolas de diferentes níveis de ensino.
Só a rede pode emagrecer?
Todos os sistemas públicos têm muito a fazer no que respeita à eficiência. No caso da Educação, o principal recurso, o mais valioso, é o tempo de trabalho dos professores e aí há muito trabalho a fazer, para conseguir com o mesmo tempo, fazer o trabalho de melhor qualidade possível.

O país tem professores a mais?
Os professores são necessários para formar alunos e não para estar nas escolas. Temos um racio confortável. Mas temos muitos alunos a conquistar. Não falaria em professores a mais, mas em alunos a menos. Aquilo que necessitamos é de conquistar o número de alunos que justifique o de docentes.

No livro, escreve que os professores são uma classe homogénea e indiferenciada. Essa classe tem sido um obstáculo à melhoria dos resultados escolares?
Tem, claro, porque sistemas que não promovem a diferenciação são pouco competitivos. Portanto, as possibilidade de desenvolvimento são mais limitadas. Essa ideia de que a cultura de mérito, mais competitiva, se opõe a uma cultura de solidariedade, é errada; pode acontecer, mas não acontece obrigatoriamente.

Receia que o agravamento da crise possa aumentar o abandono escolar?
Espero que não, espero que as medidas de apoio social às famílias possam efectivamente ajudar a manter o esforço na educação.

Cortes nessa área serão um risco?
Sim, mas não estão previstos cortes na Acção Social Escolar. Pelo contrário, é o momento de apoiar todas as famílias cujos adultos caiam em situação de desemprego ou de maior precariedade.

Tem conversado com a sua sucessora?
(risos) Tenho conversado com muitas pessoas, sim".

JN

sábado, outubro 09, 2010

Até quando os portugueses vão tolerar situações como esta?

"De acordo com as explicações dadas ao início da tarde pelo Ministro das Finanças, a norma que proíbe a acumulação de salários com pensões suportados pelo Estado só se aplicará às situações futuras.

Ontem à noite, o Ministério das Finanças tinha garantido que a proibição iria abranger todos os que estivessem a acumular salários e pensões. Mas hoje, e depois de uma análise “legal e de carácter constitucional”, o Governo acabou por recuar na aplicação retroactiva da norma.

Só em casos excepcionais é permitido ao aposentados trabalhar nos organismos e empresas públicas e com autorização do primeiro-ministro, por proposta do ministro que tutela o serviço. Na lei em vigor é possível acumular o salário com um terço da pensão ou o contrário, mas na proposta que agora está em cima da mesa os aposentados têm que prescindir da pensão enquanto estiverem a desempenhar funções pagas pelo Estado."

Público

sexta-feira, outubro 08, 2010

quarta-feira, outubro 06, 2010

O direito das crianças

Alberto Gonçalves
Sábado

terça-feira, outubro 05, 2010

Sacrifícios para "todos"

"O"i" fez as contas e concluiu que o esforço de mil milhões de euros - sem contar com as reduções de benefícios fiscais - exigido pelo aumento de impostos anunciado por Sócrates será equitativamente dividido: os consumidores suportarão 93% e os bancos... 7%.

Só que os bancos acham 7% muito. Faria de Oliveira, presidente da CGD, já avisou que "é evidente" que os bancos repercutirão nos clientes os custos da nova taxa sobre o sector financeiro (se esta alguma vez vier, claro, a consumar-se). E, como seria de esperar, lá sairão os 7% igualmente do bolso dos consumidores.

O comentário a mais ingénuo, ou mais bem humorado, ao "aviso" de Faria de Oliveira foi decerto o do presidente da SEFIN que apelou à banca (cuja ganância e falta de escrúpulos está, como se sabe, na origem da crise) para que se preocupe com o interesse nacional, não se furtando a ajudar o Estado que, antes, nela enterrou em ajudas milhões dos contribuintes (no caso português, os 4,5 mil milhões metidos no BPP e BPN chegariam agora para, sem aumento de impostos, baixar o défice de 7,3% para 4,6%).

Ora a ajuda dos bancos ao Estado funciona assim: financiam-se no BCE, que está impedido de emprestar directamente aos Estados, a taxas de 1% e, depois, emprestam esse mesmo dinheiro ao Estado (só até Julho foram 12,9 mil milhões de euros) a 3% e 6%. Com amigos destes a ajudar, para que precisa o interesse nacional de inimigos?"

Manuel António Pina
JN

domingo, outubro 03, 2010

Frei Fernando Ventura - excelente testemunho sobre a situação que se vive no país

Só os temos a eles para nos salvar

"Nem por uma vez, uma vezinha que fosse, ouvimos o primeiro-ministro, o ministro das Finanças ou outro qualquer representante governamental fazer o acto de contrição que se impunha: assumir que a culpa deste estado de coisas não é só da conjuntura, não é só de uma crise sem precendentes nas últimas décadas, mas que também é deles, sobretudo deles, que ajuizaram mal o impacto e o timing das medidas de restrição impostas aos portugueses, que assobiaram para o ar quando meio mundo os prevenira (mas nós não, nós pensávamos ser possível aguentar o barco sem salpicos de água, mesmo quando todos os chamados países periféricos recolhiam as velas e agarravam-se aos baldes).

A culpa, dizia, é deles, que adoptaram uma política autista, salvaguardada em estudos internacionais de circunstância, moldados ao conceito que mais interessava propagandear.

O ar combalido com que José Sócrates e Teixeira dos Santos surgiram perante as câmaras de televisão não condiz com o perfil de homens informados e inteligentes, atributos que até os figadais adversários lhes reconhecem. Pode ter-lhes doído realmente serem portadores de uma pequena tragédia colectiva, mas nem um nem outro devem demitir-se da quota-parte de responsabilidade no naufrágio. Teixeira dos Santos dormiu mal, José Sócrates sentiu um aperto no coração. Mas nenhum deles exibiu o mais pequeno sinal de arrependimento. Porque na hora de expiar culpas, é sempre mais cómodo atacar os mercados, os especuladores, as agências de rating, os bancos.

Os políticos, não. Porque os políticos são emissários divinos que agem com firmeza, imbuídos de um espírito de sacrifício que só eles assimilam. Eles exigem que as pessoas compreendam, mesmo que lhes custe. Mas as pessoas, essa entidade universal que eles usam para encher a boca de intenções, não querem aceitar. Não querem compreender.

Porque as pessoas, as que votaram e não votaram neles, sabem que aqueles que nos conduziram a este estado comatoso serão os mesmos que nos vão guiar no futuro próximo.

E aí reside a suprema perversão: mesmo que nos custe, só os temos a eles para nos salvar".

Pedro Ivo Carvalho
JN

quinta-feira, setembro 30, 2010

Emigre ou revolte-se

"Os advogados da política de terra queimada podem finalmente festejar. O governo deu-lhes ouvidos e prepara-se para rebentar com qualquer possibilidade da economia recuperar nos próximos anos.

Os funcionários públicos, escolhidos por tanta gente que nunca hesitou em pendurar-se no Estado como bode expiatório da incompetência quem governou este País durante tantos anos, irão finalmente ser sacrificados para acalmar a fúria desse novo Deus que são os mercados financeiros. Mas basta olhar para a Irlanda para saber que os especuladores, os únicos beneficiados por esta crise, não se irão comover. Até porque sabem o que nos vai acontecer.

Mas não serão apenas os funcionários públicos. São os reformados, que verão as suas miseráveis pensões congeladas. Serão todos os consumidores, que verão os preços subir por causa do aumento do IVA. Serão os mais pobres entre os mais pobres, que vão sentir mais um corte no quase simbólico rendimento mínimo, aquele que os remediados maldizem até ao dia em que precisam dele. E, com o que aí vem, tantos irão precisar. Serão todos os contribuintes, que ficarão a pagar o fundo de pensões descapitalizado da PT.

E é, acima de tudo, toda a economia. Menos dinheiro disponível, preços mais altos. Mais crise sobre a crise. Empresas que fecharão. O desemprego que inevitavelmente irá aumentar. Menos receitas fiscais, mais despesas sociais. O filme é simples e todos o conhecem: a partir do momento em que aceitámos saltar para este abismo a queda será estrondosa.

O mais extraordinário é que tudo isto é feito para garantir o financiamento da nossa economia. Financiamento que a banca nos garante pedindo emprestado o nosso dinheiro, o dinheiro da Europa, a um por cento, para depois nos voltar a emprestar a seis por cento. Apenas porque a União inventou o crime prefeito: impede-se a si própria de ajudar os Estados membros para dar a ganhar a quem se alimenta da nossa desgraça. Todos estes sacrifícios não são para melhorar as nossas vidas. São para alimentar a mesma banca que nos obrigou a enterrarmo-nos para a salvar da sua própria ganância.

Almeida Santos disse: sorte do País que é governado por quem tem a coragem de tomar medidas impopulares. Eu respondo: azar do País que é governado por quem nunca tem a coragem de governar pelo povo, com o povo e para o povo. Medidas impopulares têm tomado todos. As difíceis, que tocam no poder que realmente decide os nossos destinos, é que nunca vêm. Mais uma vez vamos pagar a crise que outros causaram. Mais uma vez serão eles a lucrar com ela. Restam-nos duas possibilidades: ou emigramos ou nos revoltamos".

Daniel Oliveira
Expresso Online

Pergunta pertinente

Alguém ouviu José Sócrates assumir alguma responsabilidade pelo estado a que este país chegou?

segunda-feira, setembro 27, 2010

Escola caviar

"Acompanhar a atual ministra da Educação é o mesmo que entrar numa montanha russa emocional. Isabel Alçada consegue provocar risadas intermináveis e iras homéricas. Esta terça-feira, por exemplo, foi mesmo o 'carrossel Alçada'. Ao almoço, engasguei-me a rir enquanto ouvia a nossa ministra numa cerimónia engomadinha: o tom afetado que Isabel Alçada colocava na palavra "carráiras" era delirante. Entre as gargalhadas, comecei a pensar em algumas perguntas ululantes: então ninguém faz uma rábula com esta ministra? Ou será que o tom afetado só tem graça quando o alvo da paródia é uma filha de um capitalista anafado, uma beata católica ou uma simples senhora da 'direita social'? Se Alçada fosse uma ministra do CDS, já teríamos por aí um pagode com as "carráiras"?

Ao jantar, a risada deu lugar ao ranger de dentes. Uma amiga mostrou-me um vídeo onde podemos ver a dr.ª Alçada a revelar um enjoativo paternalismo em relação aos alunos do ensino público e, pior, em relação aos pais e professores. Se colocassem um crucifixo atrás da ministra, aquele vídeo seria um peça vintage do Estado Novo. Enquanto consumia a minha neura, comecei a imaginar outro vídeo. Nesse vídeo redentor, alguém tinha a coragem de perguntar o seguinte à senhora ministra: caríssima, onde é que colocou os seus filhos e/ou netos a estudar? Na escola pública que tanto defende ou no Liceu Francês? E, depois, esta pergunta seria estendida ao primeiro-ministro: V. Exa. tem os seus filhos na idílica escola pública ou num pérfido colégio privado?

Meus amigos, o problema, obviamente, não está na colocação das crianças e dos adolescentes nos liceus franceses desta vida. O problema está, isso sim, na hipocrisia da esquerda caviar. De manhã, os nossos progressistas metem os seus filhotes no colégio privado (ou naqueles liceus públicos que, misteriosamente, estão sempre nas mãos da "gente de bem"), e, depois, à tarde, defendem a escola pública e cantam loas ao eduquês. Pior: estes progressistas-de-limusina atacam aqueles que querem dar aos mais pobres a possibilidade de colocaram os seus filhos nos colégios privados (ou naqueles liceus públicos que, não sei porquê, são sempre monopolizados pelos bem-nascidos). Na retórica, esta esquerda continua a defender o ensino ultracentralizado e dominado pelo facilitismo, mas, na prática, reconhece as virtudes de um ensino descentralizado e sem contacto com o ministério do eduquês. No seu dia-a-dia doméstico, a esquerda caviar coloca os seus filhos nos colégios onde o rigor do 'antigamente' ainda existe, mas, no seu dia-a-dia político, utiliza a escola pública para extirpar o 'antigamente' dos hábitos dos mais pobres. Ou seja, as crias progressistas são educadas à moda antiga, mas os filhos do povão são ensinados de forma progressista. Bravo. Os resultados desta hipocrisia estão aí: Portugal é uma sociedade estática, aristocrática, sem mobilidade social. Por outras palavras, a esquerda caviar esticou a sociedade salazarista até ao interior desta sociedade - nominalmente - democrática.

Meus amigos, esta esquerda é a principal inimiga dos filhos dos mais pobres. Dezenas de amigos meus 'perderam-se', porque a escola das doutoras Alçadas lhes destruiu o futuro logo à nascença. Mas, claro, não se pode falar disto. Porque o burro sou eu. Porque o 'fascista' sou eu. Porque o 'neoliberal' sou eu".

Henrique Raposo
Expresso Online

domingo, setembro 26, 2010

Falta de funcionários nas escolas perto de “ser caótica”

"A falta de funcionários nas escolas foi sempre um problema presente mas quer pais, quer professores avisam que este ano a situação está perto de "ser caótica". As queixas vindas de todo o país não param de chegar aos sindicatos e associações. "Se ninguém tomar medidas, não vamos conseguir controlar os pais", avisa Albino Almeida, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap). Albino Almeida acrescenta que não são só auxiliares de acção educativa que estão em falta nas escolas duas semanas depois do início do ano lectivo, mas também professores (o próprio ministério anunciou que estão ainda 1100 horários por preencher) e psicólogos.

No agrupamento de escolas Rua Miradouro de Alfazima, no Monte da Caparica, por exemplo, os pais dos cerca de 400 alunos boicotaram ontem as aulas em protesto contra a falta de funcionários, garantindo que os seus filhos só voltam à escola até a situação se resolver. "Queremos apenas que seja cumprido o que foi prometido, que entrem ao serviço os funcionários suficientes para garantir a segurança e higiene dos alunos", reagiu à Lusa Susana Gouveia, da comissão instaladora da comissão de pais e encarregados de educação.

O caso do Monte da Caparica é um dos muitos pelo país que estão a preocupar pais e professores. A FNE (Federação Nacional de Educação) também já avisou que há professores a fazer as funções de auxiliares ou assistentes operacionais, alertando para o caso mais preocupante das crianças com Necessidades Educativas Especiais (NEE). "É um problema crónico, agravado este ano, a situação é praticamente caótica", admitiu Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof. A Confap manifestou-se, também, "muito preocupada" por este ano a contratação estar "muito dependente da contenção orçamental" e avisou: "Estamos inundados de problemas".

Segundo adiantava na sexta-feira a Lusa, citando fontes do sector, o rácio de um funcionário para duas turmas ou 48 alunos não está a ser cumprido em muitas escolas e mesmo este era já considerado insuficiente por pais e professores.

A FNE, liderada por João Dias da Silva, exigiu, entretanto, a afectação de mais recursos humanos e materiais para que as escolas consigam cumprir as metas educativas estipuladas pelo Ministério da Educação até 2015. A FNE critica a "obsessão do Ministério pelos resultados educativos" e não com os "meios que são colocados à disposição de alunos, professores e escolas.

Fenprof preocupada com colocações
A Federação Nacional de Professores (Fenprof) esteve ontem reunida com a Direcção-geral dos Recursos Humanos da Educação, que já confirmou existirem a falta de cerca de 1.100 professores para preencherem horários sem candidatos. A federação que congrega o maior número de professores alerta para a verdadeira opacidade com que decorre o processo de colocação através da designada "bolsa de recrutamento" e para a falta de professores em muitas escolas".

Diário Económico

sábado, setembro 25, 2010

Oportunidades simplex

"O Expresso contou na semana passada a admirável história de Tomás Bacelos que, sem ter feito o 12º ano, entrou na Universidade de Aveiro com a nota máxima a nível nacional. Mais do que os 20 valores no exame de acesso, o que distingue o caso de Tomás é o seu percurso académico. Ele não completou, como os seus colegas do ensino regular, os 12 anos de escolaridade. Quando os chumbos começaram a suceder-se no Secundário, procurou uma via rápida de acesso à Universidade e encontrou-a: chama-se Novas Oportunidades. Em escassos meses obteve a equivalência ao 12º ano. Depois foi só apresentar-se ao tal exame de ingresso no curso que escolheu.
Tomás, não cometeu nenhuma irregularidade. Tem, aliás, o mérito de ser muito bom a Inglês, a avaliar pela nota da única prova que teve de fazer para chegar ao Ensino Superior, enquanto a esmagadora maioria dos outros concorrentes se maçavam com exames a várias disciplinas durante anos de estudo. A maioria, não todos. Soube-se agora que a oportunidade simplex foi descoberta por muitos - nada menos do que 530 (ver página 22). Um autêntico mercado paralelo gerador de flagrante injustiça e de concorrência desleal. Mais um convinte à desmotivação dos jovens que não pensam apenas em "safar-se" e ainda se dão ao trabalho de aprender".

Fernando Madrinha
Expresso

sexta-feira, setembro 24, 2010

Horários escolares vão ser investigados

"A Inspecção-Geral da Educação (IGE) vai investigar a constituição das turmas e a elaboração dos horários nas escolas do País. A averiguação é feita habitualmente no início do ano lectivo mas este ano a Fenprof já entrou ao organismo uma lista de irregularidades encontradas em vários estabelecimentos.

Há escolas em que as turmas têm mais alunos do que o número máximo (28) permitido ou mais do que dois alunos com necessidades educativas especiais, diz o secretário-geral da Fenprof. "Como sabemos que a IGE faz sempre nesta altura o levantamento das falhas para regularizar as situações quisemos alertar para alguns casos que não estão a respeitar a lei", diz Mário Nogueira.

Embora não saiba quantas situações irregulares denunciaram no dossier entregue ontem ao inspector-geral da Educação, Mário Nogueira adianta que "são muitas" e que "continuam a chegar mais queixas". No entanto, acredita que as situações só vão estar totalmente resolvidas no final do 1.º período.

O número de alunos por turma é uma das falhas mais apontadas. "Sabemos que há disciplinas que têm 34 alunos, porque juntam várias turmas. Outras têm mais de dois alunos com necessidades educativas especiais, o que representa verdadeiras irregularidades", defende o sindicalista. E nestes casos, Mário Nogueira reconhece que "há escolas que receberam indicações das direcções regionais de educação para fazer as turmas assim".

Do lado dos professores, os horários são o maior problema. "O problema coloca-se nos complementos individuais e não na componente lectiva dos docentes. O que se passa é que as escolas colocam sobre os professores mais tarefas do que aquelas que a lei prevê", explica o dirigente da Fenprof.

Os mega-agrupamentos não foram esquecidos e a Fenprof aponta situações, como duas escolas no Algarve, em que os professores fazem 30 quilómetros entre os dois estabelecimentos que pertencem ao mesmo agrupamento. Uma situação, lembra Mário Nogueira, que a ministra da Educação garantiu que não iria acontecer.

Apesar de ter apontado escolas em que a lei não está a ser cumprida, o dirigente sindical, garante que "a Fenprof não quer que a escola seja punida, apenas quer a lei seja respeitada". Ao DN, a IGE confirmou que tomou "boa nota das questões apresentadas", mas não confirmou se vai investigar os casos concretos denunciados pelo sindicato".

CM

domingo, setembro 19, 2010

Oportunidades ganhas e perdidas

"Há histórias que valem por mil ideias. A adaptação do ditado popular aplica-se ao caso, ontem relatado pelo Expresso, de um rapaz que acaba de conseguir entrada no ensino superior público com nota de louvor, depois de ter feito apenas o 9.º ano de escolaridade, completando o 12.º por recurso ao programa Novas Oportunidades. Nos últimos anos, muito se escreveu sobre o programa criado - e feito bandeira - pelo Governo de José Sócrates. Mas ninguém tinha dito ainda, contando por experiência própria, que os benefícios que retirou do dito diploma acabam por ser injustos face aos restantes candidatos ao superior. O que está a gerar já uma onda de contestação de várias associações de estudantes universitários do País, que consideram indigno que se possa fazer equivaler quem completa o 12.º ano ao longo de quatro anos, e uma bateria de avaliações, a quem o faz num ano e meio e bastando-lhe apenas um exame.

Chegados aqui, convém frisar o mérito do programa. Não fosse o Novas Oportunidades, muitos alunos provavelmente não regressariam aos estudos abandonados cedo de mais e muitos adultos não ganhariam coragem de voltar à escola. Assim, com o estímulo de ter um diploma na mão, e com menor esforço, acabam por voltar. Milhares de portugueses, sublinhe-se e registe-se, tiveram a oportunidade de aprender alguma coisa, muitos deles até ganharam estímulo para continuar e ir mais além. Isso, como é óbvio, é de valor inestimável.

Nada disto, porém, retira injustiça ao que se passou neste caso (a que se juntam muitos mais, não se sabe). Este aluno fez um só exame, tirou nota máxima e entrou no superior, sendo considerado o melhor aluno do País. O estímulo positivo para ele é negativo para centenas que estudaram anos e não entraram na faculdade.

O que está mal não é pois a ideia, bastante meritória, é o modelo. Nada pode ser concebido em função das estatísticas, da quantidade, mas sim da qualidade. E por muito que os números da escolaridade nacional se tornem muito mais positivos com programas como este, o que verdadeiramente importa é a formação e a preparação dada aos alunos. Não basta distribuir computadores ou diplomas. É preciso ensinar como os usar".

João Marcelino
DN

sexta-feira, setembro 17, 2010

Isabel no País das Maravilhas

"A ministra da Educação sacudiu a comunidade educativa com um suplemento de alma em forma de alocução vídeo que promete mudar o curso dos processos de aprendizagem em Portugal. Assim uma espécie de "se é pai, aluno ou professor, não esteja ansioso, deprimido ou irritado agora que a escola vai começar, porque há um sem-número de coisas giras para saber e fazer durante este ano lectivo". Querem saber quais? Isabel Alçada consegue sintetizar algumas em apenas 4,53 minutos de homilia.

Você que é pai, professor ou aluno sabia, por exemplo, que estudar é um "desporto do cérebro"? Mas é, porque a garbosa ministra da Educação já falou "com muitos meninos sobre isto". Falou porque ela gosta muito de ir às escolas falar com os meninos. É ela que o diz.

A vós, os da comunidade educativa, alguma vez vos passou pela lembrança que "o dia tem 24 horas e essas horas podem ser usadas de várias maneiras"? Ah, pois é, por esta é que vocês não esperavam.

E os pais, mesmo os mais informados, que lêem um jornal desportivo por dia, vêem o "Opinião Pública", da Sic-Notícias, e até têm Facebook no escritório, sabiam que os meninos têm de "dormir bem" e tomar o pequeno--almoço para melhorar o rendimento escolar? Vá, toca de proibir a ganapada de ver o "5 para a meia-noite" e de os obrigar a tragar o pãozinho e a frutinha matinais ou, em alternativa, os cereais com leite meio-gordo.

Mas se dúvidas houvesse quanto à bondade e eficácia comunicacional desta intervenção paternalista e completamente deslocada da realidade, depressa se dissiparam com a tirada final de Isabel Alçada: "Quem estuda e quem obtém boas notas e bons resultados está a beneficiar-se e ele próprio" e a contribuir, em larga medida, para a felicidade não só dos pais, mas também dos professores. Em última análise, de acordo com o prognóstico pouco reservado de Isabel Alçada, para a felicidade de todos os portugueses.

Não tomo Isabel Alçada como uma mulher pouco inteligente ou desinformada sobre o panorama escolar. Mas o que ela conseguiu com esta mensagem surrealista foi apenas ridicularizar a figura institucional de ministra da Educação e tornar uma coisa séria, como o ano escolar e os vários problemas a ele associados, num caricatural vídeo do Youtube a que os alunos portugueses provavelmente vão assistir no intervalo de um videoclip da Lady Gaga e de um golo esquisito da liga de futebol turca.

No afã de ser pedagógica e ter graça, Isabel Alçada apenas conseguiu transformar a escola portuguesa numa anedota".

Pedro Ivo Carvalho
JN

quinta-feira, setembro 16, 2010

Desporto cerebral

"A ministra da Educação é uma pessoa que não está a leste do sector. Tem um passado profissional que lhe dá um valor e um conhecimento específicos da área que tutela.
Isabel Alçada está ligada à arquitectura do ensino democrático saído da revolução de 1974 e a muitos aspectos positivos de uma visão mais ampla do processo educativo. Quando iniciou funções, teve o grande mérito político de descomprimir a tensão entre professores e Governo e lançar as bases de um diálogo mais construtivo. Daí para cá, tem tido altos e baixos.

Fechou escolas, agravando a desprotecção de populações já muito abandonadas por este ‘estado social’ que o PS tanto diz defender, aprovou ‘aumentos’ ofensivos para o apoio social escolar, mas não teve, até hoje, um momento ridículo como o que perpassa do vídeo de boas-vindas que o Ministério da Educação pôs no site. Gastar tempo e recursos públicos para gravar um vídeo a dizer que estudar "é o desporto do cérebro" e que uma boa parte do dia é "mêmo só para estudar" é ‘mêmo’ de um ridículo atroz. Podia ter aproveitado, por exemplo, para pedir desculpa aos portugueses que dependem do apoio social escolar para comprar os livros dos filhos por este, em alguns casos, ter aumentado apenas 3o ou 50 cêntimos. Isso é que era ‘mêmo fixe’".

Eduardo Dâmaso
CM

quarta-feira, setembro 15, 2010

Em Portugal gostamos de ser diferentes

"Na Finlândia, só três por cento dos estabelecimentos têm mais de 600 alunos
Ao contrário de Portugal, lá fora aposta-se no regresso a escolas mais pequenas

Em Nova Iorque, a taxa de sucesso entre os alunos que foram transferidos para escolas mais pequenas é superior à dos que permanecem nos velhos estabelecimentos.

Os primeiros grandes agrupamentos nascem no próximo ano lectivo (Rui Gaudêncio (arquivo)
A criação de grandes agrupamentos escolares que irá começar a tomar forma em Portugal no próximo ano lectivo está em queda noutros países, que já viveram a experiência e tiveram maus resultados. Na Finlândia, a pequena dimensão é apontada como uma das marcas genéticas de um sistema de ensino que se tem distinguido pelos seus resultados de excelência.

Em Portugal, para já, os novos agrupamentos, que juntam várias escolas sob uma mesma direcção, terão uma dimensão média de 1700 alunos, indicou o secretário de Estado da Educação, João Trocado da Mata. O número limite fixado foi de três mil estudantes.

Em Nova Iorque, o mayor Michael Bloomberg tem vindo a fazer precisamente o oposto. Desde 2002 foram fechados ou estão em processo de encerramento 91 estabelecimentos. Entre estes figuram mais de 20 das grandes escolas públicas secundárias da cidade, que foram substituídas por 200 novas unidades. Nas primeiras chegavam a coabitar mais de três mil alunos. Nas novas escolas, o número máximo vai pouco além dos 400.

Em algumas das grandes escolas que fecharam portas eram menos de 40 por cento os alunos que tinham êxito nos estudos. No conjunto das escolas da cidade, esta percentagem é de 60 por cento, mas entre os estudantes que estão nas novas unidades já subiu para os 69 por cento, revela um estudo financiado pela Fundação Bill e Melinda Gates, divulgado no final do mês passado.

A fundação criada pelo dono da Microsoft tem sido um dos parceiros da administração do mayor Bloomberg na implementação da reforma lançada há oito anos. O estudo, desenvolvido pelo centro de investigação MDRC, abrangeu 21 mil estudantes, dos quais cerca de metade está já a frequentar as novas escolas. Uma das conclusões: entre estes, a taxa de transição ou de conclusão dos estudos é superior em sete pontos à registada entre os alunos inquiridos que frequentam outros estabelecimentos de ensino.

Uma escala mais humana

Até 2014 terão passado à história dez por cento dos estabelecimentos com piores resultados. O objectivo fixado por Bloomberg duplica a meta estabelecida pela administração de Obama, que no ano passado desafiou os estados a fecharem cinco por cento das suas escolas mais fracas. No âmbito do novo programa Race to the top, lançado para combater o insucesso escolar, aos estados com melhores estratégias e resultados serão garantidos mais fundos para a educação.

Mas o objectivo não é só fechar as escolas com milhares de alunos e substituí-las por unidades com uma dimensão mais humana – embora este enfoque na “personalização” seja considerado vital. A mudança de escala está também a ser acompanhada pela implementação de novos currículos, pela fixação de um corpo docente mais qualificado e por uma maior autonomia das escolas.

Esta aposta em escolas mais pequenas, mais bem qualificadas e com maior autonomia faz também parte das prioridades do novo primeiro-ministro conservador britânico, David Cameron, o que, a ser levado por diante, constituirá uma profunda inversão da tendência registada na última década no Reino Unido. O número de escolas com mais de dois mil estudantes quase quadruplicou e cerca de 55 por cento das secundárias têm mais de 900 alunos.

Com esta dimensão, a função dos docentes passou frequentemente a ser mais a de “apagar fogos” do que a de ensinar, constata-se num documento elaborado pela organização de professores Teach First.

Aumentar permite poupar

Um estudo elaborado há uns anos pelo EPPI-Centre, de Londres, com base nas experiências dos países da OCDE, concluía que os alunos tendem a sentir-se menos motivados nas escolas maiores e que os professores se sentem menos felizes com o ambiente vivido nestas".

http://blasfemias.net/2010/09/14/a-professorinha-dos-portugueses/#comments

terça-feira, setembro 14, 2010

Ministra da Educação não garante concurso extraordinário de professores

"Vai ser aberto um concurso extraordinário para integrar os contratados nos quadros?

Ainda está de pé. Nas negociações sindicais abrimos essa hipótese, mas temos que analisar e ver se vai ser possível. Ainda não está fechado [com o Ministério das Finanças] e não há um compromisso [governamental]. Vamos ver se será realizado.

Não são necessários mais quadros nas escolas?

Anualmente há colocação de professores em horários completos e outros em incompletos. É nesse movimento de necessidades permanentes do sistema que encaramos a abertura do concurso.

Por que são professores necessários ao sistema?

Tem que ser feita essa avaliação. Se se vê que, ano após ano, há colocação de professores, é porque são necessários, tal como os que têm horários incompletos. Temos que ver as necessidades do sistema.

E essas é que podem determinar a abertura de concurso?

Exactamente".

Público

segunda-feira, setembro 13, 2010

domingo, setembro 12, 2010

A educação tem de ser prioridade

"A aposta na educação e na qualificação dos nossos jovens, nomeadamente com o incentivo à frequência do ensino superior, tem de ser a mãe de todas as prioridades. Como se viu ainda esta semana, de acordo com os dados de um relatório da OCDE, Portugal ocupa o 16.º lugar no ranking de investimento anual por aluno. Apesar da satisfação manifestada pela ministra da Educação (é um facto que há sempre quem esteja pior do que nós), a verdade é que na comparação do investimento em termos de percentagem do PIB, Portugal está quase 1% abaixo da média dos países desta organização.

Serve esta análise para dizer que, no que respeita ao investimento a fazer, há ainda uma margem de obrigação do Estado para cumprir as metas da OCDE. Porém, há que ter a noção plena de que o objectivo tem de ser qualitativo e não apenas estatístico. Ou seja, não serve de nada ao desenvolvimento do País dizer que a taxa de entrada no ensino superior é das mais elevadas da Europa, se a esta realidade não estiver associada uma outra: a da qualidade e a das necessidades do mercado.

Ao Estado tem pois que competir, por um lado, a homologação de cursos superiores de qualidade mantendo um elevado padrão de exigência ao nível do ensino. E por outro, perceber que áreas estão mais carenciadas de técnicos especializados, capazes de exportar conhecimento e habilitações que estejam à altura das mais prestigiadas escolas internacionais. Aos estudantes compete perceber a outra face da realidade. Quando se opta por um determinado curso, a escolha faz-se sempre em função ou do sonho ou das saídas profissionais. O ideal é poder conjugar estes dois critérios. Mas na impossibilidade de o fazer há que escolher um destes dois caminhos: ou ser pragmático e optar pelas garantias oferecidas pelo mercado de trabalho ou assumir os riscos da opção pelo ideal".

Editorial
DN