segunda-feira, outubro 25, 2010

Fim de duas 'disciplinas' deixa 5 mil docentes em risco

A extinção das actividades da Área de Projecto e do Estudo Acompanhado, prevista na proposta de Orçamento do Estado (OE), vai fazer com que no próximo ano lectivo o Ministério da Educação precise de menos professores. Segundo as contas dos sindicatos, haverá menos cinco mil horários a concurso, o que se pode traduzir em menos cinco mil professores contratados. E mais cinco mil no desemprego.

quarta-feira, outubro 20, 2010

Em 2011, não haverá concurso de professores

A ministra da Educação, Isabel Alçada, assumiu hoje no Parlamento a impossibilidade de realizar o concurso de professores em 2011 que se havia comprometido com os sindicatos devido à contenção orçamental.

Só 30% dos alunos conclui 12 anos de escolaridade sem chumbar

"Apenas 30 por cento dos alunos portugueses concluem os 12 anos de escolaridade sem chumbar, segundo dados revelados hoje por Joaquim Azevedo, professor da Universidade Católica e membro do Conselho Nacional de Educação (CNE).

Citando dados do mais recente relatório do CNE, que será divulgado na quinta- feira, o investigador adiantou que a cada 109 mil alunos que entram no primeiro ano de escolaridade em Portugal só 32 mil chegam ao 12.º ano em 12 anos.

Numa intervenção na conferência "A Escola de Hoje", em Lisboa, o presidente do Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa (UCP) defendeu a real autonomia das escolas como o caminho para melhorar o ensino em Portugal e evitar o abandono escolar precoce.

O professor e investigador lembrou que a autonomia das escolas já foi "decretada" em Portugal quatro vezes, em 1989, 1992, 1998 e 2002 e que, apesar disso, "tem sido difícil construir um ambiente de autonomia e de liberdade".

CM

segunda-feira, outubro 18, 2010

A frase do dia

"José Sócrates diz que este é um orçamento que defende o Estado Social. E deve ser. Tal como a amputação defende a perna".

João Miranda
http://blasfemias.net/

A "oportunidade"

"A palavra “oportunidade” vem sendo demasiadamente prostituída, de há uns tempos para cá. Refiro-me sobretudo ao modo como é usada e aplicada nos cursos do programa “Novas Oportunidades”, com que lido diariamente e que sem excepção me deixam prostrada, no anseio, que me guia, de concretizar boas práticas profissionais.
O que parecem não perceber os vários responsáveis pela criação e pela organização das “oportunidades” é que esta é uma palavra selectiva: não chama toda a gente. Ora, pelo contrário, toda a gente é chamada às “Novas Oportunidades”, com o aceno luminoso de um salário mensal e de um diploma, ao fim de pouco mais de um ano de comparência à formação. Digo comparência, porque pouco mais é necessário. Passo a explanar alguns dos graves problemas que corrompem um projecto cujo ideal é bonito, mas estropiado pela sua implementação cega:


1. A selecção dos adultos (penso nos EFA e nos RVCC, mas os CEF também cabem aqui) é, geralmente, pouco criteriosa, juntando num mesmo grupo pessoas com níveis de formação assaz distintos, dificilmente conciliáveis. Além disso, a sua formação humana é bastas vezes precária e a disposição para o trabalho, habitualmente, nula. Há dias, houve quem, num arroubo de sabedoria, me aconselhasse a não levar aquilo “tão a sério” (por “aquilo”, referia-se ao cumprimento de horários).

2. Muitos deles estão ali porque foram coagidos pelo IEFP, tendo como única motivação o dinheiro que lhes cai na conta todos os meses, procurando todos os subsídios a que vagamente ouçam poder ter direito. Se conseguirem a certificação no final, é ouro sobre azul. Se a sala estiver equipada de computadores e o curso até for ligado à área tecnológica da informática, então vamos a transformar o espaço de formação num escritório pessoal, de que não podem ser dispensadas as redes sociais nem o MSN. Se o formador pedir trabalho pelo meio, terá de esperar por uma pausa nos contactos de monta que se estabelecem ali, mesmo por quem não conhecia os equipamentos informáticos, mas que depressa chega com deslumbramento ao maravilhoso mundo novo das tecnologias.

3. Os referenciais são abstrusos, incoerentes, irreais e ocos. Além da regular discrepância entre os conteúdos propostos e o tempo de duração do módulo (ora são em demasia para as horas previstas, ora as horas excedem em muito o necessário), os vários módulos repetem pontos uns dos outros, não se percebe uma linha sequencial de matérias nem de nível de dificuldade – e todos têm de ser adaptados aos chamados “temas de vida” e “actividades integradoras”, que limitam confrangedoramente o trabalho de formação.

4. O conceito-chave de “competência”, que norteia todo o programa, está orientado para práticas profissionais, sociais e pessoais que não contemplam a cultura nem o conhecimento – a base sólida de toda a formação.

5. Se existem adultos que não correspondem aos objectivos dos módulos, se não se esforçam nem apresentam trabalho, não podemos pensar numa “não validação”, porque, como me disseram recentemente numa reunião, “não é suposto haver não validações”. Se o formando ultrapassa o limite mínimo de faltas que podia dar, é convidado a assinar algumas horas, na tentativa de que se salve ou permaneça um tempo mais no curso, de modo a não prejudicar as entidades formativas, que são avaliadas em função do número de validações atribuídas e da quantidade de burocracia que fazem nascer. Invariavelmente, são os próprios formandos que acabam por desistir – uns porque percebem que não podem ficar ali sentados sem fazer nada; outros porque depressa detectam o calibre de alguns dos colegas de grupo e não estão para aturar delinquentes.

6. A avaliação dos adultos é feita bastante em função de “reflexões” que têm de redigir com regularidade, juntamente com documentos de “auto-avaliação” – quando poucos têm bases para realizar semelhante exercício ou se interessarem sequer por ele. A lei do menor esforço impera, e é corrente a confissão de “não senti dificuldades”, que isenta o indivíduo de desenvolver o pensamento. Ademais, quase ninguém sabe pensar nem escrever, e o que custa é sabiamente evitado.

7. Nos módulos de Linguagem e Comunicação/CLC, a colaboração nas actividades integradoras resume-se a um “redigir textos”, que, na maior parte dos casos, acaba às costas do formador: as lacunas de expressão e de correcção escrita são tais que é necessário reescrever os textos (ou linhas) entregues pelos formandos, de modo a que se tornem apresentáveis ao exterior.

8. Muitos adultos com o 6.º ano chegam a obter, num período de poucos meses, o diploma do 12.º ano, contando a sua história de vida e fazendo pesquisas na Internet. Raros são os chumbados, findo este percurso, justificando-se, muitas vezes, a certificação, pelos psicólogos e engenheiros envolvidos na avaliação, com o sentimento de “valorização pessoal” que daí advém para os “adultos”.

9. Os formadores são tratados como peças num jogo de xadrez: têm de se desdobrar para chegar a todo o lado e inventar disponibilidade para quem, em muitos casos, não a valoriza. Em múltiplas entidades, não sabemos quando vamos receber, o que frequentemente acontece com um atraso de 4 e 5 meses para com o período de trabalho realizado – porque os subsídios do Estado não chegam e as entidades que gerem vários cursos não têm meios para adiantar pagamentos. Algumas, que o têm, não sentem essa preocupação. Em todos os casos, a prioridade é o pagamento aos ditos “adultos” que, se não recebem no final do mês, boicotam a formação.

10. Os formandos têm sempre razão.

Estas são apenas algumas das dificuldades com que o profissional de educação/formação se vê a braços, se quiser trabalhar e ainda não tiver lugar nas escolas públicas – ou se simplesmente escolher outros percursos de trabalho. Salvaguardo as excepções que existem para todo o panorama descrito, tão mais dignas de menção quanto é negro o quadro com que contrastam – quer entre os formandos, quer entre as entidades formativas.
Em todo o caso, a situação é inegavelmente preocupante, fazendo-nos cúmplices da proliferação, no nosso país, de uma estufa de párias, que não sabem dar valor à aprendizagem e se iludem quanto às suas “competências”, com a subscrição do Estado e uma palmadinha nas costas.

Ainda assim, não deixo de sonhar com o dia em que a palavra “oportunidade” seja limpa e volte a brilhar. Trabalho para isso a cada minuto".

(Autor com reserva de identidade para que possa preservar o seu ganha-pão)


http://joaotilly.weblog.com.pt/arquivo/cat_ensino.html

sábado, outubro 16, 2010

Rankings não dizem se escola é melhor ou pior

"Manuel Esperança, Presidente do Conselho das Escolas e director da Escola José Gomes Ferreira (Lisboa), fala sobre rankings.

CM – As escolas privadas voltam a dominar os rankings. Porquê?

Manuel Esperança – Não podemos comparar escolas públicas com privadas. As públicas, quando querem recuperar alunos com problema a alguma disciplina, precisam de ter crédito horário para dar apoio e muitas não têm. O privado não tem este constrangimento.

– É contra a sua divulgação?

– Não. Penso que é positivo para nos podermos comparar com outras escolas do mesmo concelho ou distrito e dá para tirar ilações a nível do País. Não se pode é dizer que uma escola é melhor ou pior com base nos rankings, mas apenas que obteve melhores resultados nos exames nacionais.

– Porquê essa distinção?

– Para dizer se uma escola é melhor temos de ir buscar outras variáveis, como o estrato social das famílias dos alunos ou a zona onde a escola está implantada.

– A escola que dirige fica sempre bem colocada, este ano em 36.º posto. Qual a razão?

– Os alunos vêm de estratos sociais que permitem isso. Depois tenho bons profissionais e boas condições de trabalho. Os três factores conjugados explicam os bons resultados".

CM

sexta-feira, outubro 15, 2010

Rankings dos exames nacionais

Ranking do Secundário - Aqui
Ranking do Básico - Aqui

quarta-feira, outubro 13, 2010

Entrevista de Maria de Lurdes Rodrigues

"Quis prestar contas ao país. Saldou-as?
Do meu lado, estão, que as prestei.

O sistema está preparado para o fim dos chumbos?
Os chumbos têm vindo a diminuir progressivamente. Sabe-se que esse é que um mecanismo totalmente ineficaz - um aluno que chumba tem elevada probabilidade de não cumprir com êxito o seu percurso escolar e vai acumulando repetências. Qual é a alternativa? Acabar com os chumbos? Não. É instituir outros mecanismos pedagógicos que reforcem o tempo de trabalho e acompanhamento dos alunos.

Ao primeiro sinal de dificuldade?
Foi o que fizemos com os planos de recuperação, dar orientação às escolas para reforçar os tempos de trabalho de todo e qualquer aluno que tenha nota negativa no Natal - porque os alunos não chumbam em Julho. O que é errado é falar-se no fim dos chumbos sem mais. Não é isso que está em cima da mesa. O que deve estar em cima da mesa é qual é o mecanismo alternativo à repetência - e é mais trabalho. Têm de ser dadas condições às escolas e aos professores para que possam, de facto exercer, esse poder de acompanhamento.

Na última conversa que tivemos defendeu que a contestação às suas políticas não custou a maioria absoluta ao PS, antes pelo contrário, deu a vitória ao partido. Os professores podem derrubar ou eleger governos?
Ninguém sabe porque se ganha ou se perde uma eleição, é preciso estudar isso no final de um escrutínio; e como ninguém sabe o que na realidade se passou e o PS ganhou as eleições, o que posso é também ter uma opinião e a minha opinião é que o PS não perdeu as eleições porque tem muito trabalho para mostrar na área da Educação.

O país é governável sem Orçamento?
Na minha opinião, não. Além de que não se consegue prosseguir neste caminho de diminuição do défice e da despesa pública. Um início de novo ano com um orçamento de duodécimos seria fatal para a despesa, para a receita. O país ficaria totalmente desorganizado.

Está preocupada com os efeitos das medidas de austeridade no ensino?
As medidas de austeridade são muito duras com todos, mas não podemos, mesmo nestes momentos de maior aflição, perder de vista os grandes desígnios. Não sabemos como será o futuro, mas há uma certeza que podemos ter: será pior se não continuarmos esforço da qualificação.

A Educação tem de ser prioritária?
Tem de ser. A crise deve ser um momento em que não há hesitações sobre esta matéria.

Onde é que o sistema pode emagrecer?
O esforço da reorganização da rede é um esforço que o país procura fazer desde 1984 - fechar escolas com poucos alunos, integrar escolas de diferentes níveis de ensino.
Só a rede pode emagrecer?
Todos os sistemas públicos têm muito a fazer no que respeita à eficiência. No caso da Educação, o principal recurso, o mais valioso, é o tempo de trabalho dos professores e aí há muito trabalho a fazer, para conseguir com o mesmo tempo, fazer o trabalho de melhor qualidade possível.

O país tem professores a mais?
Os professores são necessários para formar alunos e não para estar nas escolas. Temos um racio confortável. Mas temos muitos alunos a conquistar. Não falaria em professores a mais, mas em alunos a menos. Aquilo que necessitamos é de conquistar o número de alunos que justifique o de docentes.

No livro, escreve que os professores são uma classe homogénea e indiferenciada. Essa classe tem sido um obstáculo à melhoria dos resultados escolares?
Tem, claro, porque sistemas que não promovem a diferenciação são pouco competitivos. Portanto, as possibilidade de desenvolvimento são mais limitadas. Essa ideia de que a cultura de mérito, mais competitiva, se opõe a uma cultura de solidariedade, é errada; pode acontecer, mas não acontece obrigatoriamente.

Receia que o agravamento da crise possa aumentar o abandono escolar?
Espero que não, espero que as medidas de apoio social às famílias possam efectivamente ajudar a manter o esforço na educação.

Cortes nessa área serão um risco?
Sim, mas não estão previstos cortes na Acção Social Escolar. Pelo contrário, é o momento de apoiar todas as famílias cujos adultos caiam em situação de desemprego ou de maior precariedade.

Tem conversado com a sua sucessora?
(risos) Tenho conversado com muitas pessoas, sim".

JN

sábado, outubro 09, 2010

Até quando os portugueses vão tolerar situações como esta?

"De acordo com as explicações dadas ao início da tarde pelo Ministro das Finanças, a norma que proíbe a acumulação de salários com pensões suportados pelo Estado só se aplicará às situações futuras.

Ontem à noite, o Ministério das Finanças tinha garantido que a proibição iria abranger todos os que estivessem a acumular salários e pensões. Mas hoje, e depois de uma análise “legal e de carácter constitucional”, o Governo acabou por recuar na aplicação retroactiva da norma.

Só em casos excepcionais é permitido ao aposentados trabalhar nos organismos e empresas públicas e com autorização do primeiro-ministro, por proposta do ministro que tutela o serviço. Na lei em vigor é possível acumular o salário com um terço da pensão ou o contrário, mas na proposta que agora está em cima da mesa os aposentados têm que prescindir da pensão enquanto estiverem a desempenhar funções pagas pelo Estado."

Público

sexta-feira, outubro 08, 2010

quarta-feira, outubro 06, 2010

O direito das crianças

Alberto Gonçalves
Sábado

terça-feira, outubro 05, 2010

Sacrifícios para "todos"

"O"i" fez as contas e concluiu que o esforço de mil milhões de euros - sem contar com as reduções de benefícios fiscais - exigido pelo aumento de impostos anunciado por Sócrates será equitativamente dividido: os consumidores suportarão 93% e os bancos... 7%.

Só que os bancos acham 7% muito. Faria de Oliveira, presidente da CGD, já avisou que "é evidente" que os bancos repercutirão nos clientes os custos da nova taxa sobre o sector financeiro (se esta alguma vez vier, claro, a consumar-se). E, como seria de esperar, lá sairão os 7% igualmente do bolso dos consumidores.

O comentário a mais ingénuo, ou mais bem humorado, ao "aviso" de Faria de Oliveira foi decerto o do presidente da SEFIN que apelou à banca (cuja ganância e falta de escrúpulos está, como se sabe, na origem da crise) para que se preocupe com o interesse nacional, não se furtando a ajudar o Estado que, antes, nela enterrou em ajudas milhões dos contribuintes (no caso português, os 4,5 mil milhões metidos no BPP e BPN chegariam agora para, sem aumento de impostos, baixar o défice de 7,3% para 4,6%).

Ora a ajuda dos bancos ao Estado funciona assim: financiam-se no BCE, que está impedido de emprestar directamente aos Estados, a taxas de 1% e, depois, emprestam esse mesmo dinheiro ao Estado (só até Julho foram 12,9 mil milhões de euros) a 3% e 6%. Com amigos destes a ajudar, para que precisa o interesse nacional de inimigos?"

Manuel António Pina
JN

domingo, outubro 03, 2010

Frei Fernando Ventura - excelente testemunho sobre a situação que se vive no país

Só os temos a eles para nos salvar

"Nem por uma vez, uma vezinha que fosse, ouvimos o primeiro-ministro, o ministro das Finanças ou outro qualquer representante governamental fazer o acto de contrição que se impunha: assumir que a culpa deste estado de coisas não é só da conjuntura, não é só de uma crise sem precendentes nas últimas décadas, mas que também é deles, sobretudo deles, que ajuizaram mal o impacto e o timing das medidas de restrição impostas aos portugueses, que assobiaram para o ar quando meio mundo os prevenira (mas nós não, nós pensávamos ser possível aguentar o barco sem salpicos de água, mesmo quando todos os chamados países periféricos recolhiam as velas e agarravam-se aos baldes).

A culpa, dizia, é deles, que adoptaram uma política autista, salvaguardada em estudos internacionais de circunstância, moldados ao conceito que mais interessava propagandear.

O ar combalido com que José Sócrates e Teixeira dos Santos surgiram perante as câmaras de televisão não condiz com o perfil de homens informados e inteligentes, atributos que até os figadais adversários lhes reconhecem. Pode ter-lhes doído realmente serem portadores de uma pequena tragédia colectiva, mas nem um nem outro devem demitir-se da quota-parte de responsabilidade no naufrágio. Teixeira dos Santos dormiu mal, José Sócrates sentiu um aperto no coração. Mas nenhum deles exibiu o mais pequeno sinal de arrependimento. Porque na hora de expiar culpas, é sempre mais cómodo atacar os mercados, os especuladores, as agências de rating, os bancos.

Os políticos, não. Porque os políticos são emissários divinos que agem com firmeza, imbuídos de um espírito de sacrifício que só eles assimilam. Eles exigem que as pessoas compreendam, mesmo que lhes custe. Mas as pessoas, essa entidade universal que eles usam para encher a boca de intenções, não querem aceitar. Não querem compreender.

Porque as pessoas, as que votaram e não votaram neles, sabem que aqueles que nos conduziram a este estado comatoso serão os mesmos que nos vão guiar no futuro próximo.

E aí reside a suprema perversão: mesmo que nos custe, só os temos a eles para nos salvar".

Pedro Ivo Carvalho
JN

quinta-feira, setembro 30, 2010

Emigre ou revolte-se

"Os advogados da política de terra queimada podem finalmente festejar. O governo deu-lhes ouvidos e prepara-se para rebentar com qualquer possibilidade da economia recuperar nos próximos anos.

Os funcionários públicos, escolhidos por tanta gente que nunca hesitou em pendurar-se no Estado como bode expiatório da incompetência quem governou este País durante tantos anos, irão finalmente ser sacrificados para acalmar a fúria desse novo Deus que são os mercados financeiros. Mas basta olhar para a Irlanda para saber que os especuladores, os únicos beneficiados por esta crise, não se irão comover. Até porque sabem o que nos vai acontecer.

Mas não serão apenas os funcionários públicos. São os reformados, que verão as suas miseráveis pensões congeladas. Serão todos os consumidores, que verão os preços subir por causa do aumento do IVA. Serão os mais pobres entre os mais pobres, que vão sentir mais um corte no quase simbólico rendimento mínimo, aquele que os remediados maldizem até ao dia em que precisam dele. E, com o que aí vem, tantos irão precisar. Serão todos os contribuintes, que ficarão a pagar o fundo de pensões descapitalizado da PT.

E é, acima de tudo, toda a economia. Menos dinheiro disponível, preços mais altos. Mais crise sobre a crise. Empresas que fecharão. O desemprego que inevitavelmente irá aumentar. Menos receitas fiscais, mais despesas sociais. O filme é simples e todos o conhecem: a partir do momento em que aceitámos saltar para este abismo a queda será estrondosa.

O mais extraordinário é que tudo isto é feito para garantir o financiamento da nossa economia. Financiamento que a banca nos garante pedindo emprestado o nosso dinheiro, o dinheiro da Europa, a um por cento, para depois nos voltar a emprestar a seis por cento. Apenas porque a União inventou o crime prefeito: impede-se a si própria de ajudar os Estados membros para dar a ganhar a quem se alimenta da nossa desgraça. Todos estes sacrifícios não são para melhorar as nossas vidas. São para alimentar a mesma banca que nos obrigou a enterrarmo-nos para a salvar da sua própria ganância.

Almeida Santos disse: sorte do País que é governado por quem tem a coragem de tomar medidas impopulares. Eu respondo: azar do País que é governado por quem nunca tem a coragem de governar pelo povo, com o povo e para o povo. Medidas impopulares têm tomado todos. As difíceis, que tocam no poder que realmente decide os nossos destinos, é que nunca vêm. Mais uma vez vamos pagar a crise que outros causaram. Mais uma vez serão eles a lucrar com ela. Restam-nos duas possibilidades: ou emigramos ou nos revoltamos".

Daniel Oliveira
Expresso Online

Pergunta pertinente

Alguém ouviu José Sócrates assumir alguma responsabilidade pelo estado a que este país chegou?

segunda-feira, setembro 27, 2010

Escola caviar

"Acompanhar a atual ministra da Educação é o mesmo que entrar numa montanha russa emocional. Isabel Alçada consegue provocar risadas intermináveis e iras homéricas. Esta terça-feira, por exemplo, foi mesmo o 'carrossel Alçada'. Ao almoço, engasguei-me a rir enquanto ouvia a nossa ministra numa cerimónia engomadinha: o tom afetado que Isabel Alçada colocava na palavra "carráiras" era delirante. Entre as gargalhadas, comecei a pensar em algumas perguntas ululantes: então ninguém faz uma rábula com esta ministra? Ou será que o tom afetado só tem graça quando o alvo da paródia é uma filha de um capitalista anafado, uma beata católica ou uma simples senhora da 'direita social'? Se Alçada fosse uma ministra do CDS, já teríamos por aí um pagode com as "carráiras"?

Ao jantar, a risada deu lugar ao ranger de dentes. Uma amiga mostrou-me um vídeo onde podemos ver a dr.ª Alçada a revelar um enjoativo paternalismo em relação aos alunos do ensino público e, pior, em relação aos pais e professores. Se colocassem um crucifixo atrás da ministra, aquele vídeo seria um peça vintage do Estado Novo. Enquanto consumia a minha neura, comecei a imaginar outro vídeo. Nesse vídeo redentor, alguém tinha a coragem de perguntar o seguinte à senhora ministra: caríssima, onde é que colocou os seus filhos e/ou netos a estudar? Na escola pública que tanto defende ou no Liceu Francês? E, depois, esta pergunta seria estendida ao primeiro-ministro: V. Exa. tem os seus filhos na idílica escola pública ou num pérfido colégio privado?

Meus amigos, o problema, obviamente, não está na colocação das crianças e dos adolescentes nos liceus franceses desta vida. O problema está, isso sim, na hipocrisia da esquerda caviar. De manhã, os nossos progressistas metem os seus filhotes no colégio privado (ou naqueles liceus públicos que, misteriosamente, estão sempre nas mãos da "gente de bem"), e, depois, à tarde, defendem a escola pública e cantam loas ao eduquês. Pior: estes progressistas-de-limusina atacam aqueles que querem dar aos mais pobres a possibilidade de colocaram os seus filhos nos colégios privados (ou naqueles liceus públicos que, não sei porquê, são sempre monopolizados pelos bem-nascidos). Na retórica, esta esquerda continua a defender o ensino ultracentralizado e dominado pelo facilitismo, mas, na prática, reconhece as virtudes de um ensino descentralizado e sem contacto com o ministério do eduquês. No seu dia-a-dia doméstico, a esquerda caviar coloca os seus filhos nos colégios onde o rigor do 'antigamente' ainda existe, mas, no seu dia-a-dia político, utiliza a escola pública para extirpar o 'antigamente' dos hábitos dos mais pobres. Ou seja, as crias progressistas são educadas à moda antiga, mas os filhos do povão são ensinados de forma progressista. Bravo. Os resultados desta hipocrisia estão aí: Portugal é uma sociedade estática, aristocrática, sem mobilidade social. Por outras palavras, a esquerda caviar esticou a sociedade salazarista até ao interior desta sociedade - nominalmente - democrática.

Meus amigos, esta esquerda é a principal inimiga dos filhos dos mais pobres. Dezenas de amigos meus 'perderam-se', porque a escola das doutoras Alçadas lhes destruiu o futuro logo à nascença. Mas, claro, não se pode falar disto. Porque o burro sou eu. Porque o 'fascista' sou eu. Porque o 'neoliberal' sou eu".

Henrique Raposo
Expresso Online