segunda-feira, maio 14, 2007

A Matemática em análise

Entrevista com João Queiró, professor do Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia de Coimbra.


Diário de Coimbra – A Matemática é daquelas áreas que as pessoas quase parecem ter orgulho em dizer que não gostam ou não percebem.
João Filipe Queiró – É um cliché associado à Matemática dizer isso. Mas eu nunca encontrei ninguém que o afirmasse explicitamente. Coisa diferente é saber se as pessoas têm grande gosto pela Matemática, ou se tiveram grande sucesso. Não acho que a Matemática tenha um lugar especial nos problemas do sistema educativo.
DC – É das disciplinas onde, todos os anos, há piores resultados.
JFQ – Mas tratar a Matemática à parte, como se fosse um assunto extraterrestre, tem o efeito de esconder que vários dos problemas que se prendem com a disciplina resultam de problemas gerais do sistema educativo. A especificidade da Matemática é ser a construção de um edifício. É o seu carácter sequencial, cumulativo.
DC – Ou seja, exige um esforço diário do aluno.
JFQ – Todas exigem, mas este carácter cumulativo é mais pronunciado na Matemática do que noutras disciplinas. Uma falha localizada, num certo capítulo da História ou da Geografia, ou de uma disciplina de Ciências Naturais, não prejudica tanto o edifício.
DC – Esse mal resulta de uma postura cultural, de evitar o que é difícil e dá trabalho, ou também se pode apontar o dedo ao ensino: aos professores?
JFQ – Há quem o diga, que é uma questão cultural, se ca-lhar até genética. Mas é especulativo ir por esse caminho. Prefiro falar de aspectos sobre os quais se poderia intervir. E eu ponho à cabeça o ambiente geral no qual a escola está imersa. A indisciplina escolar é um fenómeno grave, que todos os professores observam nas escolas portuguesas, ao qual não é dado o devido relevo, e que é tudo menos conducente a um estudo e uma aprendizagem serenas.
DC – Mas isso para todas as disciplinas.
JFQ – Eu prefiro concentrar--me nos problemas gerais, para não dizer que a Matemática é um problema específico. A indisciplina, dizia, resulta da desvalorização do conhecimento que há em Portugal. Há estudos que sugerem que os portugueses não sabem muito eque não querem saber muito. Depois, a timidez educativa em Portugal, a dúvida que já se estendeu aos próprios professores sobre o interesse disto tudo... Porquê tentar impor seja o que for? Ensinar qualquer coisa é uma imposição.
DC – Concorda com a teoria de que não se deve ser demasiado exaustivo nas avaliações, porque o estudante tem de ter gosto para aprender?
JFQ – Há que perceber que a escola, com o que significa de pôr duas ou três dezenas de jovens numa sala, com um adulto a falar de assuntos que não são da experiência directa desses jovens, tem algo de anti-natural. Uma criança “posta à solta”, se lhe derem a escolher entre um campo com uma bola, e uma sala onde vai estar sentada uma hora a ouvir um adulto, essa criança não hesita.
DC – Mas a vida é assim. As crianças têm de aprender coisas de que não gostam.
JFQ – Essa frase é chave. A vida é assim, é feita de constrangimentos, de coisas que, de vez em quando, nós fazemos contrariados. Mas há algum pensamento que, face às dificuldades escolares, acha que a questão do gosto e das tendências da criança deve prevalecer sobre o resto. O que é muito mau.
DC – Não será perverso?
JFQ – Pode ser muito perverso. Mesmo que fique na sala de aula, pode representar que a criança não aprenda. Muitas vezes, estas coisas, de dizer que o aluno deve chegar lá por si, parecem plausíveis, mas, depois, a aplicação disso na prática tem efeitos terríveis, de uma enorme dissolução de ambientes de aprendizagem. Outra dificuldade grande são os professores. Coexistem os bem formados, em boas universidades, sérias, com outros, formados por instituições que não têm os mesmos padrões. Um problema que existe, seguramente, há 20 anos em Portugal é a falta de vigilância e controlo do ensino superior. No caso dos professores, o principal empregador é o Ministério da Educação, que recruta pela nota de licenciatura. Se a faculdade de dar a nota se entrega a ins-tituições não credíveis, isto tem os efeitos que se pode imaginar e que aconteceram. Ao longo dos anos 90, e princípios já desta década, o Estado contratou muitos professores com uma formação deficiente.
DC – Daí que se venha, agora, propor um exame de acesso à carreira.
JFQ – Não só. Também esta agência de acreditação e avaliação do ensino superior, que vem regular a qualidade de todos os cursos.
DC – Mas deve, ou não, apontar-se o dedo ao ensino, pelo insucesso na Matemática?
JFQ – Há más orientações nos programas e nas metodologias para os cumprir. Um constituinte essencial da Matemática é o rigor: do raciocínio, da prova, da dedução. E isso tem sido progressivamente desvalorizado, o que tem um efeito dissolvente, porque a Matemática não é uma lista de factos desconexos.
DC – Por a Matemática ser assim, não se justificaria torná-la obrigatória em todos os currículos escolares e não apenas nos ramos ditos científicos?
JFQ – Essa pergunta leva a uma questão política muito difícil: de saber quais são as disciplinas que todos devem estudar e até onde. Isto tem provocado enormes tensões no sistema educativo português. Há quem sustente que no secundário toda a gente deve ter Matemática. E há quem ache que isso má ideia, até porque há muitos alunos que escolhem a sua via pelo simples facto de não haver lá Matemática.
DC – Não faria sentido, por isso mesmo, insistir na disciplina até ao final do secundário? Para que as escolhas no ensino superior não fossem de recurso e dessem mais saídas profissionais.
JFQ – Há uma quebra global nacional de procura dos cursos de ciências e engenharias, porque a base de recrutamento para esses cursos é, normalmente, a Matemática, a Física e a Química. Há instituições de ensino superior em Portugal, que, por causa disto, retiram a Matemática das disciplinas de acesso. De novo, Estado e governos vêem a situação e não fazem nada. Isto anda ao deus--dará, para ver quem é o mais esperto. Quem sai prejudicado, em primeiro lugar, é o país. Em segundo, as instituições que tentam ser sérias.


Entrevista publicada no Diário de Coimbra

sexta-feira, maio 11, 2007

O Plano de Acção para a Matemática

Maria de Lurdes afirma que o balanço do funcionamento do Plano de Acção para a Matemática é “muito positivo” ainda que, segundo ela, os exames deste ano sejam o momento ideal para dissipar dúvidas quanto à sua eficácia.
Não sei porquê tenho um leve pressentimento que os resultados vão ser melhores do que foram no ano transacto. Não porque os alunos tenham adquirido mais competências matemáticas mas antes porque o grau de dificuldade dos exames vai ser bem menos exigente. De qualquer forma, precavendo-se, a ministra já vai dizendo que caso os resultados não sofram uma evolução positiva a culpa deverá ser atribuída às escolas e aos professores. Ficamos assim a saber que bastam apenas meia dúzia de meses de implementação do dito Plano para que a “socióloga” consiga ver os rostos do eventual fracasso. Fantástico!

terça-feira, maio 08, 2007

As eleições para os Conselhos Executivos

Por estes dias, as eleições para os Conselhos Executivos vão-se suceder por esse país fora. Na minha escola, à semelhança de tantas outras (provavelmente a maioria), a escolha será limitada a uma única lista, constituída pelos elementos da actual gestão. Quer isto dizer que os mesmos irão manter-se no poder por falta de outros interessados em gerir os destinos da escola.
Apesar do excesso de afazeres, do stress acumulado, da falta de reconhecimento pelo trabalho desenvolvido, e de outras contrariedades que os levam constantemente a amaldiçoar o dia em que se candidataram, o que é certo é que quando chega a altura de se poderem afastar, esta malta, por norma, recandidata-se. Um gesto de profundo masoquismo que muitos anos de docência ainda não conseguiram perceber

Sondagem

sexta-feira, maio 04, 2007

Antes e depois

O texto que se segue, é absolutamente demolidor e revelador da hipocrisia e da falta de escrúpulos de que padece a nossa classe política:


"Um dos elementos fundamentais da retórica do primeiro-ministro é que "antes" não se fazia nada, não se decidia nada, a oposição defendia sempre o contrário de hoje; "agora" decide-se tudo, faz-se tudo, sempre com um "rumo" certo e seguro que o PS sempre teve. Quando ouço isto, só há uma pergunta que acho que deveria ser obrigatório fazer: naquele preciso momento do "antes" quais eram as posições que o PS e José Sócrates defendiam sobre a matéria respectiva? Para se reconstruir honestamente o mundo do "antes" é vital saber o que é que eles defendiam "antes". E aqui a resposta é simples: o PS e José Sócrates defendiam o contrário de "agora", sendo que o "agora" é muito mais parecido com o que os outros defendiam "antes". "Antes" era a "obsessão do défice", "agora" é o "rigor orçamental"; "antes" era o "discurso da tanga", "agora" é "um momento muito difícil"; "antes" era colocar os números antes das pessoas, "agora" é a irresponsabilidade de colocar as pessoas antes dos números, na saúde, na segurança social, na administração pública. Esta retórica política é uma das coisas que mais desprestigiam a política em democracia. PSD e PS pagam um preço significativo por essa retórica, mas o actual primeiro-ministro é de uma desfaçatez acima do comum nesta forma de mentira".

Pacheco Pereira
Revista "Sábado"

quinta-feira, maio 03, 2007

RAP no HQMC

Ricardo Araújo Pereira em início de carreira quando ainda não sonhava com os Gato Fedorento. De chorar a rir!

quarta-feira, maio 02, 2007

O Programa Novas Oportunidades

Segundo dados hoje apresentados pelos ministros do Trabalho e da Segurança Social e da Educação, o Programa Novas Oportunidades tem tido uma assinalável procura. 250.774 aderiram a este Programa, sendo que 176.176 para concluir a sua formação ao nível do ensino básico e 74.598 para terminar a sua formação ao nível do ensino secundário.

Sobre este tema convém ler este testemunho:

“A minha mãe de 48 anos obteve desta forma a equivalência ao 9º ano: inscreveu-se num Centro de validação; elaborou um portfólio sobre o seu percurso de vida (com fotografias minhas e dos meus irmãos incluídas!); teve 5 aulas com um professor de português; escreveu um pequeno texto de 2 folhas A4 sobre cidadania a partir da leitura de uns textos disponibilizados; aprendeu a enviar e receber mails, e resolveu em casa uma ficha de exercícios de matemática e aritmética (que foi resolvida pelos filhos). Resultado? Em 4 meses passou do 5º ano ao 9º, com certificado e tudo. Aprendeu algo novo? Tornou-se mais competente? Tem mais sabedoria? Tem conhecimentos, ainda que parcos, das matérias ao nível do 9º ano? Nenhumas! Mas na estatística já consta! Novas Oportunidades? Sim, para os donos do Centro de validação! O povo continua inculto como sempre....Santa ilusão!”

Como este exemplo haverá milhares. Eu próprio conheço alguns casos. Uma coisa é certa: com todo este facilitismo, dentro de pouco anos seremos imbatíveis nas estatísticas internacionais em matéria de sucesso escolar. Mesmo que isso não signifique um acréscimo de qualidade na qualificação das pessoas. Mas desde quando está José Sócrates preocupado com tão mísero pormenor?!

O Postal de José Sócrates

Ouçam que vale a pena.

terça-feira, maio 01, 2007

PGR cumpre a sua obrigação

A PGR vai mandar abrir uma investigação à Universidade Independente. Em princípio trata-se de uma boa notícia, isto se a investigação não se centrar exclusivamente nas irregularidades da UNI, mas também no percurso escolar do 1º ministro naquele estabelecimento de ensino que é aquilo que os portugueses, acima de tudo, desejam ver clarificado. Se for apenas uma manobra de diversão para enganar papalvos mais vale ficarem quietos. É que as suspeitas de que não vamos ter uma investigação séria, independente e imparcial, são muitas, pois fica a ideia de que ela só avança por pressão da opinião pública e não por particular interesse da PGR em ver a questão esclarecida. Veremos se o nosso sistema judicial terá a independência e a coragem suficiente para, caso isso se justifique, levar o processo até às últimas consequências. Eu tenho dúvidas, mas nada como esperar para ver.

O ensino superior

"A recente polémica em torno das habilitações do Primeiro Ministro deverá ter pelo menos o condão de relançar a discussão sobre o ensino superior em Portugal.
Parece evidente que as coisas não podem continuar como estão e que se exige um esforço sério de depuração e realinhamento do sistema.
Existe hoje um número considerável de instituições de ensino superior, entre públicas e privadas, e uma maranha incontável e por vezes indiscernível de cursos e licenciaturas.
Às licenciaturas tradicionais, cuja epistemologia e corpus conceptual e doutrinário resultam inquestionavelmente consolidados pela sua perenidade no panteão dos estudos universitários, veio somar-se um conjunto de outros cursos que, daqueles visando diferenciar-se por mor da competitividade no sector, não correspondem verdadeiramente a novas áreas do saber, justificadamente credoras de tratamento autónomo, mas muitas vezes a meras declinações bastardas dos saberes tradicionais ou aos mesmos saberes travestidos com novas roupagens.
Non nova sed nove.
Não se nega a dinâmica do conhecimento nem se pretende evidentemente regressar ao medievo trivium ou quadrivium, mas tão só alertar para a sua excessiva proliferação e, em muitos casos, ausência de densificação doutrinária.
A massificação do ensino superior – um bem se apenas submetida ao crivo estatístico –acarretou a inevitável perda de qualidade, assacável de resto aos demais graus de ensino que, também por isso, não cumprem a sua função preparatória no acesso aos patamares de ensino que lhe sobrevêm.
A escola e o saber – embora quanto este a sua aquisição se não reconduza ao ensino meramente formal – devem ser acessíveis a todos no respeito pela mais escrupulosa igualdade de oportunidades, em particular no que toca à formação qualificante de base, verdadeiro viático para vida.
Não só para o exercício de uma profissão, forma costumeira e socialmente útil de a ganhar, mas como elemento fundamental da formação integral do homem e do cidadão.
O direito ao ensino é indissociável da obrigação de aprender e esta não resiste ao facilistismo excessivo, onde deveria pontuar a exigência e o rigor, nem a pseudo pedagogias lúdico-subversivas, pois o saber e a aprendizagem são sobretudo um caminho que nunca acaba e que exige disciplina, esforço e sacrifício.
Não espanta por isso que vá declinando a qualidade média das sucessivas gerações de alunos e docentes, pois que a excelência e a mediocridade, existindo hoje e sempre, vicejarão imunes à degenerescência geral, com elas porém se não bastando o progresso e o bem comum de uma sociedade e que repousam em boa medida nas aptidões médias dos seus cidadãos.
A corrida aos cursos superiores e a proliferação de estabelecimentos de ensino, que já de si levanta delicadas questões ao nível do equilíbrio geral do mercado de trabalho desfalcado das qualificações intermédias, provocou igualmente o incremento generalizado da busca dos graus académicos pós-licenciatura, conduzindo à sua vulgarização e, destarte, à perda do seu prestígio académico e social.
Os docentes, por seu turno, vêm sendo sucessivamente tolhidos no seu labor científico, presa de um conjunto de tarefas burocráticas e de gestão que extravasam em muito o seu escopo funcional, o que, além de atentar contra os seus direitos enquanto trabalhadores, constitui um inegável desperdício de recursos e inábil mecanismo de divisão do trabalho.
A bizarra e inconstitucional privação do direito ao subsídio de desemprego, pelo menos no que tange aos docentes do ensino superior público, reforçando a precariedade do vínculo laboral convida à dispersão e ao pluriemprego, diminuindo o sentimento de pertença à instituição académica indispensável a uma contribuição leal e dedicada.
O financiamento do ensino superior público tem sido por outro lado objecto de sucessivos cortes.
A subvenção pública às universidades em função do número de alunos – solução fácil e cómoda sob o manto insuspeito da objectividade – remete ao olvido questões essenciais destinadas a garantir a sustentabilidade do sistema.
Um regime de propinas mais aproximado do custo real de funcionamento dos cursos, apoiando naturalmente através dos mecanismos da acção social escolar quem mereça e não possa suportá-las ou encontrando formas mais imaginativas de diferir o seu custo.
Um financiamento que atenda ainda às especificidades da gestão de cada universidade e que tenha em conta a qualidade relativa dos serviços prestados – avaliando e fiscalizando o funcionamento dos cursos e premiando os melhores desempenhos.
Um esforço sério de orientação vocacional dos alunos dos graus de ensino pré-universitário por forma a ajustar a oferta formativa à procura existente e às exigências do mundo do trabalho, respeitando-se porém, pelo menos no ensino superior público, a universalidade dos saberes, de todos os saberes, cuja preservação não pode ser funcionalizada nem andar a reboque dos meros ditames do mercado de trabalho.
Assim, respeitando a autonomia universitária e a liberdade de aprender e ensinar não se prive ainda o Estado de regular, controlar e fiscalizar adequadamente o sistema de ensino superior, público e privado, actuando doravante a tempo e com justeza.
Falhada a profilaxia que a cura se revele ao menos rápida e certeira".

Rui Pedroto
*Jurista/Gestor
"O Primeiro de Janeiro"

segunda-feira, abril 30, 2007

Bobby McFerrin - Ave Maria

Fantástico!

O ensino do nosso descontentamento

"Em Lisboa, sem Física, uma escola pública preencheu todas as 135 vagas em Engenharia Civil, outra, exigindo Física e Matemática, ficou com 15% de vagas por preencher. A frágil qualidade do ensino superior de engenharia assenta em incompetências e compadrios, como se ilustra com casos paradigmáticos, que urge eliminar. Acesso facilitista à Engenharia

• A admissão a Civil, Electrotécnica ou Mecânica deve exigir, ao menos, nota de 9,5 na prova de Física. Os exames têm, porém, tido média em torno de 8, o que reduz muito a ocupação das vagas disponíveis e o subsídio estatal. Qual a solução adoptada pela maioria das Escolas? Não exigir a prova de Física!

A manobra é rentável: por exemplo, em Lisboa, sem a exigência da Física, uma escola pública preencheu todas as 135 vagas em Engenharia Civil, enquanto outra, exigindo Física e Matemática, ficou com 15% de vagas por preencher, teve um corte de 15% no orçamento, prejuízos de planeamento e transmitiu uma imagem de insucesso. Estes procedimentos são intoleráveis e requerem intervenção. Complementarmente é indispensável recuperar o aprendizado da Física, alicerce básico da Engenharia.

Médias mentirosas no acesso à Universidade
Outro truque é facilitado pela regra oficial de cálculo da média na selecção dos “melhores” alunos:

• O peso da classificação do ensino secundário não inferior a 50% e o das provas de ingresso não inferior a 35 %.

As notas do “secundário”, sabe-se, são mais altas do que as das provas de ingresso. Logo, várias Escolas atribuem 60% ao “secundário”, em vez dos 50% atribuídos pelas Escolas de maior rigor, e “derrotam” a concorrência, conseguindo melhores médias aparentes e mais alunos sem que a habilidade transpareça.

A comparação qualitativa entre Escolas, através da média de entrada mais baixa, isto é, do “último admitido”, é outro logro: se uma Escola admite 120 alunos e outra 35, compara-se o 35º classificado da segunda com o 120º da primeira! Se uma Escola exige Física e a outra Desenho faz algum sentido comparar as médias respectivas?

Mais (investigação) é menos?
O novo “eduquês” inclui um mestrado de 2º ciclo (nome dado aos 4º e 5º anos, pós licenciatura de 3 anos) que requer 42 unidades de investigação e um mestrado integrado com 5 anos corridos (embora kafkianamente exija diploma ao fim de 3) que apenas exige 30 créditos de investigação. Como autoriza o ministério um ou outro?

A Direcção Geral pediu um parecer a dois académicos da química da Universidade do Porto, um deles proeminente na Ordem dos Engenheiros, e a um terceiro de área não tecnológica. O parecer é desastroso, muito pior do que o Ensino que subjuga:

• “Projecto” não deve ser ensinado nas Universidades, onde o ensino não curricular deve ser “de natureza científica”. O erro é tal que dispensa análise.

• Mestrados integrados (os tais com menos investigação) são, transcreve-se, de apoiar apenas nas Escolas que desenvolvem nessas áreas de engenharia ... investigação...em unidades ... com Muito Bom ou Excelente.

Aos outros mestrados, os de 2º ciclo, que exigem mais 40% de investigação ... não é pedida essa qualidade. Com este incompetente parecer, a Direcção Geral (DG) vem introduzir graves iniquidades na engenharia nacional.

Amigos só precisam de “Bom”?
Definido o critério acima descrito, critério que a lei não comporta, a DG aplica-o, ou não, conforme a arbitrariedade que lhe é consentida. Houve cursos sem Muito Bom que foram aprovados. Houve cursos sem unidade de investigação que foram aprovados. Sem que se entenda e sem que o Ministro responda aos recursos apresentados pelos rejeitados.

Engenharia Civil para Biólogos?
Para terminar com humor em alta, diz-se que está quase aprovado um mestrado integrado de engenharia civil, associado ao trivial “Bom”, porque terá colaboradores num Centro de Departamento de Zoologia que uma Comissão de Biólogos classificou de “Muito Bom”. Será possível?

A alegada baixa qualidade das Escolas Públicas de Engenharia vai ser sujeita a uma Agência de Acreditação, com avaliadores estrangeiros, criação favorita do ministro e de avulsos académicos, em geral sem experiência profissional.

Os factos justificam outra proposta: que seja criada uma Agência de Acreditação para decidir quem pode exercer funções públicas adstritas ao Ensino, incluindo as de Director Geral e superiores".

Manuel Gonçalves da Silva, Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UNL emembro do painel Ciência e Sociedade

sexta-feira, abril 27, 2007

Entrevista da ministra da educação

A entrevista de Maria de Lurdes, esta semana à “Visão”, deu-nos a conhecer uma pessoa generosa e solidária, facetas até aqui desconhecidas.
De entre os vários assuntos focados, ficámos a saber que as necessidades das escolas apenas pediam 10% de professores titulares e que só a enorme generosidade da ministra permitiu que esse número chegasse aos 30%. Esta atitude revela-nos que, contrariamente ao que pensávamos, estamos, afinal, perante uma pessoa com uma grande nobreza de carácter que se preocupa com os professores e tudo faz para não os prejudicar. Enternecedor!
Sobre a polémica à volta do diploma de José Sócrates, a ministra não consegue descortinar qualquer anormalidade. Nem quanto às quatro cadeiras dadas por um só professor (ela própria já o havia feito no seu último ano de ensino, ainda que a alunos de anos diferentes), nem quanto às aparentes facilidades concedidas ao 1º ministro. Na sua opinião,”a vida quotidiana das universidades faz-se de boas vontades para resolver problemas concretos dos alunos”. Logo, se houve alguns favores a José Sócrates, a Universidade não fez mais do que a sua obrigação. Sublime!

quarta-feira, abril 25, 2007

Concurso de acesso a professor titular

O ME disponibiliza aqui uma breve apresentação em powerpoint sobre o concurso de acesso a professor titular.

Venha mais uma

Um relatório da Assembleia da República sobre violência nas escolas recomenda a criação de uma comissão de segurança em cada estabelecimento de ensino, constituída por representantes de alunos, professores, pais, pessoal auxiliar e forças de segurança. Surpresa? Absolutamente nenhuma. Ou não estivéssemos nós, em Portugal, habituados a ver nascer, por tudo e por nada, grupos de trabalho, comissões e afins. Quem propõe uma medida destas é porque efectivamente desconhece a realidade das nossas escolas – a quantidade de órgãos que por lá vamos tendo e que dão origem a uma catrefada de reuniões, sendo que da maioria não se obtém qualquer retorno positivo - e julga que é com mais uma comissão que irá pôr cobro ao problema da violência. Pois sim! Se esta recomendação tiver a concordância do ME será mais uma experiência, a juntar a tantas outras, que têm sido feitas nas nossas escolas, com os resultados práticos que todos nós conhecemos.

domingo, abril 22, 2007

Thomas Dybdahl

Um norueguês que merece ser ouvido.

sexta-feira, abril 20, 2007

Toma e embrulha


Depois de o Governo lançar uma lamentável campanha publicitária ao Programa Novas Oportunidades, vem agora o Bloco de Esquerda contrapor com uma outra, em que procura mostrar o destino dos que não conseguem obter um emprego de acordo com as suas qualificações. Esta iniciativa do BE é francamente oportuna, pois pretende chamar a atenção para o verdadeiro drama de todos aqueles, que apostando na sua educação, não conseguem arranjar trabalho ou quando o conseguem, auferem ordenados próximos das profissões que são ridicularizadas na campanha do ME. Subscrevo-a inteiramente e creio bem que, desta vez, os bloquistas acertaram na mouche.

quinta-feira, abril 19, 2007

O Conselho de Escolas

O Conselho de Escolas, o novo orgão consultivo do Ministério da Educação constituído por representantes dos Conselhos Executivos de todo o país, deverá começar a funcionar até Junho. Na minha opinião, só gente submissa e seguidista (os eternos yes-man) estará disponível para pertencer a um orgão destes. Infelizmente é o que não falta por aí: já estou a ver alguns presidentes de executivos cheios de vento por pertencerem ao grupo dos escolhidos, quando é facilmente perceptivel que esta é mais uma manobra de diversão da tutela para dar a ideia que tem em conta a opinião dos professores. Quem acredita que isto poderá significar um reforço da participação das escolas na definição da política educativa bem pode esperar sentado. O ME irá continuar a decidir como bem entende, sem ouvir ninguém, e muito menos seguindo os conselhos destes senhores.

quarta-feira, abril 18, 2007

Intervenção do Primeiro Ministro, José Sócrates na cerimónia

Todos devem estar lembrados do elogio de Luís Arouca, relativamente aos dotes linguísticos de José Sócrates na língua inglesa. Este vídeo vem desmentir as palavras do reitor. Porventura, referia-se a outro aluno.

Mais um fax de José Sócrates


sexta-feira, abril 13, 2007

O novo estatuto do aluno

De acordo com o novo estatuto do estudante do ensino não superior, ontem aprovado em Conselho de Ministro, ficámos a saber que acabam as reprovações automáticas para os alunos que excedam o número estipulado de faltas injustificadas. Melhor do que isso, permite-se, a partir de agora, que estes alunos sejam aprovados num exame a realizar no final do ano escolar. Esta preocupação de não descriminar ninguém merece o meu apreço. É sem dúvida espectacular um gajo poder baldar-se bué e, ainda por cima, ter a possibilidade de não reprovar. Imagino qual terá sido a fonte inspiradora de tal medida. Evidentemente, o percurso escolar do nosso primeiro-ministro. Se José Sócrates conseguiu tirar um curso sem meter o rabinho nas aulas porque é que não se dá a possibilidade a todos os alunos de fazerem o mesmo? Há que reconhecer que poucos se lembrariam de um tal expediente para combater o abandono escolar. A ministra da educação consegue, mais uma vez, tirar um coelho da cartola. Bem hajas, Maria de Lurdes!

segunda-feira, abril 09, 2007

Superescola

"Onde estão as melhores escolas do mundo? Claro! Está certo! Em… Portugal…
Ora vejamos com atenção o exemplo de uma vulgar turma do 7º ano de escolaridade, ou seja, ensino básico.
Ah, é verdade, ensino básico é para toda a gente, melhor dizendo, para os filhos de toda a gente!

DISCIPLINAS / ÁREAS CURRICULARES NÃO DISCIPLINARES
1. Língua Portuguesa
2.História
3.Língua Estrangeira I — Inglês
4.Língua Estrangeira II — Francês
5.Matemática
6.Ciências Naturais
7.Físico-Químicas
8.Geografia
9.Educação Física
10.Educação Visual
11.Tapeçaria
12.Educação Visual e Tecnológica
13.Educação Moral R.C.
14.Estudo Acompanhado
15.Área Projecto
16.Formação Cívica

É ISSO – CONTARAM BEM – SÂO 16 (dezasseis)
Carga horária = 36 tempos lectivos

Não é o máximo ensinar isto tudo aos filhos de toda esta gente? De todo o Portugal?
Somos demais, mesmo bons!

MAS NÃO FICAMOS POR AQUI !!!!

A Escola integra ainda:
Alunos com diferentes tipologias e graus de deficiência, apesar dos professores não terem formação para isso; alunos com Necessidades Educativas de Carácter Prolongado de toda a espécie e feitio, apesar dos professores não terem formação para isso; alunos oriundos de outros países que, por vezes não falam um “cu” de Português, ou melhor, nem sequer sabem o que quer dizer “cu”; tem ainda o dever de criar outras estratégias para superar dificuldades dos alunos com:
Currículos Alternativos
Percursos Escolares Próprios
Percursos Curriculares Alternativos
Cursos de Educação e Formação

Para além destes não se pode esquecer dos outros alunos, sem atestados-médicos, mas que também têm enormes dificuldades de aprendizagem.

MAS AINDA HÁ MAIS…
A escola ainda tem o dever de sensibilizar ou formar os alunos nos mais variados domínios:
Educação sexual
Prevenção rodoviária
Promoção da saúde, higiene, boas práticas alimentares, etc.
Preservação do meio ambiente
Prevenção da toxicodependência
Etc, etc…

"Peço desculpa por interromper, mas… em Portugal são todos órfãos?" (possível interpelação do ministro da educação da Finlândia). Só se encontra mesmo um único defeito: os professores. Uma cambada de selvagens e incompetentes que não merecem o que ganham, trabalham poucas horas (comparem com os alunos, vá, vá comparem!). Têm muitas férias, faltam muito, passam a vida a faltar ao respeito e a agredir os pobres dos alunos. Vejam bem que os professores chegam ao cúmulo de exigir aos alunos que tragam todos os dias o material para as aulas, que façam trabalhos de casa, que estejam constantemente atentos e calados na sala de aula, etc, e depois, ainda ficam aborrecidos pelo facto dos alunos lhes faltarem ao respeito e lhes darem na cara! Olha que há cada uma!"

kaskaedeskaska.blogs.sapo.pt

sexta-feira, abril 06, 2007

O amanhã-que-podemos-fazer-hoje

"Afirmou recentemente o primeiro-ministro que a educação era o único problema estrutural do País. Parece haver aí certo exagero de ocasião, mas, se não é o único, é com certeza o problema número um. Porque dele (da forma como o resolvermos, ou não) depende o Portugal dos próximos 30 anos.
Nesse campo - o da educação, espécie de amanhã-que-podemos-fazer-hoje -, o trabalho do Governo tem deixado muito a desejar. Para mal dos nossos pecados, presentes e futuros. Que nota daria ao Ministério da Educação: um médio menos? Um sofrível mais? Ou uma simpática negativa tangencial?
Em primeiro lugar, a reforma da educação não é como outras (aliás, no terreno, já ninguém deve poder ouvir o termo "reforma"; de tão repetido, e tantas vezes em vão, este já traz consigo um peso triste, contraproducente... Talvez se lhe chamássemos antes "revolução"...). Não é como as outras: uma mudança de fundo na educação em Portugal não pode ser feita "contra" - contra os interesses, corporações, forças de bloqueio. Estes também existirão aqui, claro, mas a atitude não pode ser de tipo "adversarial". Ideias precisas, sim - mas a partir de uma base de boa-fé, sem partidarites inúteis e com poder de encaixe a toda a prova. Só haverá resultados se, paralelamente às melhores soluções políticas, se conseguir o consenso mais amplo e construtivo que for possível ("consenso" é, porventura, outro dos termos já queimados, lembrando moleza e deixa-andar... Um "acordo" então...).
Em segundo lugar, não faz sentido cruzar um discurso pró-qualificação com medidas de tipo meramente economicista. Contra a lógica (barata...) da facilidade e do baixar- -o-nível, exige-se um investimento sólido e outra ambição. O nosso amanhã próximo depende já disso: um ensino que junte exigência e criatividade, saber e imaginação, responsabilidade e confiança.
Num plano mais geral (na vista "em planta", digamos, da questão da educação), deve a esquerda questionar-se seriamente se, nos dias que correm, a manutenção de um sistema de "igualdade" imposta não acaba por perpetuar diferenças sócio-económicas de base - e se, tudo considerado, não seria mais justo um modelo de maior autonomia e liberdade, que aumentasse as possibilidades de escolha para todos".

Jacinto Lucas Pires
Diário de Notícias

quinta-feira, abril 05, 2007

Sócrates e o diploma

"José Sócrates licenciou-se numa universidade que está a ser investigada pela atribuição duvidosa de equivalências a um gruo de mais de 100 estudantes angolanos. O processo de licenciatura e de pedidos de equivalência do primeiro-ministro não é claro, o seu diploma foi passado num domingo e Sócrates terá usado papel timbrado do Ministério do Ambiente para tratar dos seus assuntos pessoais e académicos, em vez de se dirigir à universidade numa folha de requerimento normal ou numa folha em branco, como qualquer outro aluno que não se sentava à mesma mesa que o secretário de Estado do Ensino Superior para decidir o futuro do País.
Tudo isto são factos, não são boatos. E não se trata igualmente de duvidar da imaculada qualidade académica de José Sócrates, como deu a entender este fim-de-semana um elemento do seu gabinete. Explicando: o País (se não todo pelo menos uma grande parte) está-se nas tintas se Sócrates estudava, se pedia apontamentos emprestados ou se foi o melhor aluno do mestrado, como se apressou a divulgar de forma ridícula o seu gabinete. O que preocupa - e bem - toda a gente é se Sócrates foi favorecido no seu processo de licenciatura e se usou o cargo político que ocupava para conseguir esse favorecimento. O mínimo que se exige é que o primeiro-ministro perceba isso e que as autoridades investiguem as suspeitas em vez de estarem à espera que os jornalistas façam o trabalho por elas. Sócrates deveria ser o primeiro a pedi-lo".

Gonçalo Bordalo Pinheiro
Revista "Sábado"

quarta-feira, abril 04, 2007