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terça-feira, julho 04, 2006

Sociedade, indisciplina e violência na escola

"Toda a gente se apercebe que nesta sociedade extremamente competitiva, cruel, permissiva e violenta em que vivemos, as boas maneiras, a educação, o civismo, o respeito para com os mais velhos vai perdendo lugar enquanto entre os jovens cresce a deseducação, o desnorte e a intranquilidade, intranquilidade esta “abafada” no consumo do álcool e no vício das drogas mais pesadas que arrastam para a perdição e para “becos sem saída”. Introduzidos nestas vivências infernais, muitos jovens demandam a escola e os problemas não tardam a surgir: roubos, agressões, injúrias, insultos, ameaças, vandalismo, brigas, intimidações, chantagem, violência. É o “ pão nosso de cada dia”, mais acentuado em certas escolas inseridas em zonas de risco ( e não só) e bairros populacionais degradados. Não admira, pois, que a escola seja o espelho da sociedade permissiva e conflituosa em que vivemos. Como se constata os valores éticos e espirituais têm definhado— a generalidade dos nossos jovens nemsabe o que isso é ( e o que representam para o enriquecimento das suas vidas), embrenhados e aturdidos que estão no consumismo doentio e no gozo fácil e sem peias de espécie alguma. Paralelamente tem-se instalado a competição desenfreada e selvagem, a excessiva obsessão pelo lucro ( tudo quer ser rico!), o espírito tecnocrata e o (tal) milagroso “ choque tecnológico”, qual “ Deus ex machina”, modernidade salvífica apregoada pelo engº José Sócrates.No entretanto, a realidade revela-se medonha e preocupante.. A instituição familiar, esteio para que uma sociedade se possa organizar devidamente, tem vindo a desmoronar-se e a desagregar-se, contribuindo para a fragilização, para a vulnerabilidade e o vazio existencial dos jovens. Por consequência, cresce exponencialmente o número de separações e divórcios, enquanto, por outro lado, se assiste à pura macaqueação de tipos de vida familiar que dispensa a união de sexos opostos. Estes protagonistas de sexo igual “ acasalam” e insistem na espuriedade dos seus direitos(!?) que vão ao ponto, entre outras aberrações, de pretenderem adoptar crianças...( De lembrar que na Holanda já existe a pretensão de formar um partido político, defensor da pedofilia e de sexo com animais!— Vade retro, Satanas). E o que mais se verá de abjecto e repugnante! Com esta turva realidade, terá a escola de ser o receptáculo cloacal onde desaguam todos os miasmas fétidos exalados pelos problemas económicos e sociais que o poder político, o governo não quer ou não pode resolver? Terá de ser um armazém onde os pais deixam os alunos abdicando de os educar e de lhes ensinar boas maneiras?“O que a escola rejeita a prisão recebe”, afirmou, com alguma dose de verdade, uma luminária das sibilinas “ciências da educação”, com responsabilidades no departamento do ministério da educação .Na verdade, a escola “tem as costas largas”. Será que, doravante, o papel da escola é substituir-se aos pais, à polícia, aos psiquiatras e aos tribunais próprios? Um director regional-adjunto ,defendeu, há uns anos atrás, com uma ligeireza impressionante que ,“os funcionários e os docentes têm de estar preparados para lidar com situações de indisciplina e violência”. Bonito de dizer ! Mas como!? (não sei se, no seu profundo pensamento, não estaria a pensar em munir os professores de pistolas e armas brancas !... não sei!).Que medidas é que os funcionários devem tomar com alunos que os insultam constantemente, que os agridem e que diariamente perturbam o funcionamento da escola, vandalizando as instalações?Que medidas é que os professores podem tomar com jovens malcriados, com jovens meliantes, gozando de total impunidade, que provocam e insultam (quando não os agridem fisicamente), perturbando constantemente o desenrolar e o ambiente na sala de aula , não permitindo que os outros colegas aproveitem a explanação/interacção desenvolvida pelo professor?Que medidas estratégicas de integração se podem adoptar com miúdos useiros e vezeiros na má educação, na indisciplina e nos comportamentos violentos? Existem alunos para quem a escola nada lhes diz por bem que se insista nos currículos alternativos ou nas adaptações curriculares e por bem que os professores, ridiculamente, representem o papel de “entertainers”, de palhaços ou animadores culturais. Contudo, o ministério continua a impôr a escolaridade obrigatória para estes alunos (!?) quando deveriam, bem cedo, ser encaminhados para o mundo do trabalho, aprendendo, previamente, uma arte, um ofício, uma aptidão em escolas específicas e adequadas. A não ser assim os alunos problemáticos, dentro da escola, vão continuar a semear vícios, a alimentar a indisciplina e a gerar a violência. E os desgraçados dos professores terão de os aturar, sujeitos à grosseria, às ameaças veladas e directas, ao achincalhamento e à agressão.Desta forma, a escola ao não rejeitar torna-se, ela própria, um lugar indesejável, um verdadeiro suplício onde os professores não conseguem disfarçar um crescente desencanto e mal-estar, agravado com a falta de vigilância , a falta de auxiliares de educação interventivos e a falta de sensibilidade desta ministra da educação que se lançou numa verdadeira cruzada contra os “infiéis” (que serão os professores), esquecendo os “bárbaros” (que são os alunos). A juntar ao ramalhete refira-se a pusilanimidade na actuação dos conselhos executivos na (não) resolução dos problemas— a legislação também não ajuda. Enreda. Adia. Disfarça. Protege. Contemporiza. Dificulta. Alguém tem dúvidas?Por isso a escalada da violência vai, por certo, continuar, uma vez que a indisciplina e os comportamentos agressivos nas escolas não serão resolvidos( oxalá me engane).(Para desalento dos professores e para gáudio dos meliantes e dos “gangs” juvenis que continuarão, impunemente, a semear a perturbação e a intranquilidade).São os pedagogos iluminados— autênticos comissários educativos do ministério— que o dizem. Não será demais repetir a conclusão extraordinária de um desses pedagogos que passo a citar: “ a indisciplina e os demais comportamentos disruptivos e desviantes fazem parte integrante de uma escola que se quer universal, democrática e livre”. Fórmula eufemística de transmitir (e assegurar) que a turbulência, a bandalheira, a falta de educação, a insolência e os demais comportamentos desembestados dos jovens, potenciando a agressividade e a violência, deverão ser vistos e “apreciados” como “fazendo parte integrante de uma escola que se quer universal, democrática e livre”.Livre, porque a mentalidade é favorável ao “é proibido proibir” e ainda estará presente nas distintas análises dos pedagogos das ciências da educação que ainda continuam, qual nefelibatas, no “mundo das ideias” e na pedagogia romântica do bom selvagem, sem descerem à realidade do dia-a-dia de muitas e muitas escolas. Que não é aquela realidade melíflua que julgam."

António Cândido Miguéis
(Professor)
Vila Real
("O Primeiro de Janeiro")

quarta-feira, junho 28, 2006

A Indisciplina Escolar

"Sobre a questão da indisciplina nas escolas publicou Fátima Bonifácio um veemente e indignado artigo no Público de sexta-feira passada. Escolas transformadas naquilo a que ela chama "depósitos de delinquentes", professores (e sobretudo professoras) insultados e agredidos, alunos normais aterrorizados, tudo isto, mais a ausência de elementares medidas de vigilância, polícia e sanção, está a criar uma situação explosiva no ensino.
É claro que essa saída existiria sem dificuldades no domínio do politicamente incorrecto. Se o professor, ou alguém por ele na escola, pudesse dar duas boas chapadas ao jovem agressor, insurrecto e malcriado, o problema resolvia-se em quinze dias. E, se as coisas continuarem assim, virá o tempo em que não haverá outra solução que não seja a restauração das palmatoadas e dos castigos corporais, quer se goste quer não se goste. Nunca fizeram mal a ninguém e, se sempre foram uma estupidez no que respeita ao mau aproveitamento, também sempre mostraram bastante eficácia no que toca às agressividades.
Num livro que já não é recente, A Pedagogia da Avestruz /Testemunho de Um Professor (2.ª ed., Gradiva, 2004), Gabriel Mithá Ribeiro analisa com argúcia, entre outras matérias de relevância para a vida escolar, o problema da indisciplina e reconhece que esteve à beira dessa atitude: "Cheguei a ter de jogar alunos e respectivo material pela porta fora, porque se recusavam a obedecer à ordem de expulsão da aula; cheguei a agarrar pelos colarinhos alunos que me invadiam a sala; cheguei a pôr o dedo em riste em algumas situações. Arrisquei a minha pele? Sim, mas ganhei o respeito dos outros e assim pude trabalhar (…)."
É muito pertinente a maneira como aborda a concepção da escola e rejeita a "incompreensível confusão entre os espaços simbólicos da família e da escola", afirmando a necessidade de um poder coercivo legítimo, com a possibilidade de sanções, "sempre legítimas e indispensáveis, no limite, da exclusão de quem não se compatibiliza com as normas".
É radical a sua crítica do pensamento e da prática dominantes na busca dos consensos que pretendem tornar os alunos "parceiros a tempo inteiro das decisões, no âmbito da vida escolar", o que é "uma falácia justificadora da fraqueza dos adultos". Por outro lado, as vicissitudes de natureza burocrática tendentes a efectivar a responsabilidade dos alunos são, como ele lhes chama, "meandros kafkianos".
É extraordinária a descrição que faz das hesitações dos professores e das delongas de preparação, instrução e apreciação dos processos: "Participei no mês de Junho em discussões sobre maus comportamentos que se arrastavam desde Outubro, para optarmos por penas simbólicas." E, enfim, a cereja no cimo do bolo: "Na maior parte das reuniões desta natureza em que participei, emerge de seguida o lado humano, cujos produtos finais, em bom rigor, dever-se-iam chamar impunidade, permissividade e irresponsabilidade."
Para Mithá Ribeiro, como para qualquer pessoa sensata, a "pieguice pedagógica" não tem pés nem cabeça, o bom selvagem de Rousseau não existe e a "questão dos aberrantes e politicamente correctos castigos pedagógicos é toda ela pensada partindo de uma visão demasiado optimista da condição humana e da vida social, como toda a actual filosofia do ensino".
A cultura profissional dos docentes é também uma das principais causas da indisciplina: "Quando tudo se centra no aluno, aos professores resta o sentimento de culpa, de auto-flagelação por todos os males que afectam o ensino." E "os próprios professores, a começar pelos conselhos executivos, têm discursos e práticas contra toda e qualquer forma de exercício de autoridade".
No sentido de inverter o rumo que as coisas levam, Mithá Ribeiro propõe a criação de comissões disciplinares nas escolas. A elas caberia a definição da estratégia disciplinar do estabelecimento, o recebimento das participações, a abertura e instrução dos processos, o poder de suspensão imediata dos alunos nos casos mais graves, o contacto com os pais, a presidência dos conselhos de turma de natureza disciplinar, a resolução de diferendos entre docentes e encarregados de educação, o calendário e a fiscalização do cumprimento das penas e uma vigilância constante ao longo do ano em matéria disciplinar.
Não sei se a ideia resulta. É possível. Mas, entretanto, talvez fosse preferível ir mandando regularmente a polícia para as escolas mais problemáticas. "

Vasco Graça Moura, escritor

sexta-feira, junho 23, 2006

Vamos aumentar o descalabro?

"O País ficou chocado com a reportagem exibida pela RTP1 a 30 de Maio sobre uma escola na periferia de Lisboa que mais se assemelhava a um depósito de delinquentes. Não vale a pena relembrar as imagens. Mas vale a pena sublinhar que o secretário de Estado presente no debate que se seguiu não teve uma palavra de apreço pelos professores que enfrentam diariamente aquele martírio. Ao contrário do que este governante tentou inculcar, a "escola" em questão não constitui caso único: constitui apenas um de demasiados casos extremos para que ninguém parece ter solução. E, no entanto, a responsabilidade do ministério é aqui límipda e irrefragável. O Estado tem, como qualquer empregador, a obrigação legal de garantir a segurança física dos que para ele trabalham. Manifestamente, não cumpre tal obrigação. Em 2005, os casos dos professores agredidos pelos alunos ultrapassaram largamente o milhar: mais de três por dia. Escolas como aquela que nos foi mostrada são casos de polícia, e só com um polícia ao lado é que os professores se deviam prestar a lá dar aulas.
Infelizmente, o problema da disciplina nas escolas não se cinge aos casos extremos em que ela assume a forma de pura violência. Em todas elas, independentemente da zona onde estão implantadas, se verifica mais ou menos a existência de uma indisciplina larvar, insidiosa, que subverte por completo o ambiente de ordem e tranquilidade absolutamente indispensável à aprendizagem. Em todas elas os professores são desrespeitados, insultados e vêem todos os dias a sua autoridade escarnecida por crianças e adolescentes totalmente falhos da mais elementar educação e totalmente desprovidos da mais básica noção do dever. Conheço professores que dão aulas no centro de Lisboa e nem assim se atrevem a estacionar o carro nas imediações da escola, por receio de que lhe furem os pneus ou vandalizem os automóveis. Para as gerações actuais, a escola é uma "seca" e, sendo assim, nada mais justo e natural. para a cabeça das angélicas criancinhas, do que fazerem dela um recreio permanente. Em suma: a indisciplina que grassa hoje em dia nas escolas torna radicalmente impossível ensinar lá o que quer que seja.
Anos e anos - décadas ! - de pedagogia romântica, assente no pressuposto de que as crianças são vítimas inocentes de uma sociedade repressiva e de que albergam na pureza dos seus espíritos imaculados tesouros de intuição e até de sabedoria ainda não contaminada pelo cinismo do mundo, mergulharam a escola numa anarquia. As pedagogias libertárias de finais da década de 60 - "é proibido proibir" - pegaram de estaca num país dominado por uma cultura cívica e política esquerdista, que prega a irresponsabilidade social. Ao longo dos anos e das décadas, o Ministério da Educação encarregou-se de esvaziar as escolas e os professores das suas competências disciplinares, na crença idiota de que os meninos e as meninas se poderiam corrigir com doçura, através de bons conselhos e benignas acções de recuperação. As punições foram praticamente abolidas. Alunos com 20 e mais participações disciplinares não são expulsos. Quando se abrem inquéritos, os alunos são ouvidos em pé de igualdade com os professores; ao cabo de vários meses redundam, na melhor das hipóteses, numa suspensão - que não conta para as faltas dadas: os prevaricadores são apresentados com alguns dias ou uma semana de férias. Em suma, a indisciplina na escola tem medrado a coberto da mais completa impunidade.
Muito me espanta que o actual Ministério da Educação, que tem sido justamente louvado pelo esforço sério e sem precedentes para identificar e atalhar os factores de insucesso em Portugal, não tenha até agora feito uma referência ao problema da indisciplina que mina e inutiliza a escola como lugar de transmissão de conhecimentos. Não basta denunciar a falta de orientação das escolas e dos professores para os resultados dos seus alunos. nem chega denunciar o espírito burocrático-administrativo que prevalece sobre um real empenhamento num trabalho colectivo tendente a minorar os problemas dos alunos co maiores dificuldades. E o diagnóstico do insucesso escolar também não se esgota na denúncia das pequenas e grandes corrupções em torno da distribuição de turmas e horários. Tudo isto exige e conta, sem dúvida, e não se vê como possa ser remediado, enquanto as escolas forem governadas por conselhos executivos obrigados a agradar a quem os elegeu. Mas o ministério devia inscrever o problema da indisciplina no topo das suas prioridades, pelo simples motivo de que sem ordem e tranquilidade não há concentração nem trabalho, e sem concentração e trabalho não haverá sucesso escolar.
Ora, nunca se restaurará a disciplina, se os professores não tiverem a sua autoridade protegida pelo ministério e as escolas continuarem de pés e mãos atadas para punir os alunos que perturbam a actividade escolar. Não há que fugir disto. Foi assim com espanto e consternação que tomei conhecimento de que o ministério se prepara para chamar os pais a participar na avaliação dos professores, prevista no Estatuto da Carreira Docente actualmente em discussão. Ninguém nega que a balda das avaliações como eram feitas até aqui tem de acabar. Como têm de acabar as pseudoformações que garantiam créditos para a progressão automática nas carreiras. Apenas negam isto os sindicatos, que com o seu reaccionarismo imobilista têm contribuído mais do que ninguém para a degradação da imagem dos professores na sociedade. Ma associar os pais á avaliação dos professores parece-nos a medida mais insensata e nefasta que poderia passar pelas cabeças da 5 de Outubro.
Aos paizinhos serão distribuídas "fichas de avaliação", em que se pronunciam sobre a "relação que os professores têm com as crianças". Extraordinária ideia, na verdade! Mas o que sabem eles dessa "relação" a não ser o que os filhinhos lhes contam lá em casa? E quem não sabe que os filhinhos acharão sempre que ela é péssima com os docentes mais exigentes? O secretário de Estado alega que as informações dos pais serão ponderadas com o parecer dos conselhos executivos. Fraco remédio! basta que um aluno saiba que o docente está sujeito à avaliação do paizinho e da mãezinha para que sinta as costas quentes e redobre de insolência. Se o ministério persistir na adopção de uma medida tão absurda, carregará com a responsabilidade de ser o primeiro contribuinte para a liquidação final da autoridade do professor e, por extensão, para o agravamento da indisciplina e do consequente insucesso escolar. E incorrerá na grave contradição de, por um lado, exigir mais trabalho e empenho aos professores - como pode e deve fazer -, retirando-lhes, por outro lado, um dos meios decisivos para cumprirem a sua missão com eficácia.
A ideia de pôr os pais a avaliaros professores daria vontade de rir, se não fosse grave. Para além do que fica dito, sobram outras considerações. Grande parte dos pais que têm actualmente os filhos na escola são analfabetos ou pouco mais do que isso. Não possuem um vestígio de idoneidade intelectual para se pronunciarem sobre a qualidade dos docentes: para não mencionar os muitos que não possuem idoneidade moral. depois, outra grande, grande parte pura e simplesmente despeja os filhos na escola e não quer saber do que lá se passa. Em Portugal, a maioria dos encarregados de educação, por incompetência ou desinteresse, ou ambas as coisas combinadas, vivem inteiramente divorciadas da vida escolar. Só vejo vantagens em manter pais destes à distãncia. E não me venham com o exemplo da América ou da Finlândia, onde os pais e as suas associações se envolvem intensamente na gestão escolar: convém não esquecer que, infelizmente, estamos em Portugal. "

Maria de Fátima Bonifácio, Historiadora

sábado, abril 29, 2006

O professor

"É certo que não vou aqui andar feito Diógenes, com uma candeia na mão, à procura daqueles que merecem ou não estas palavras, mas reconheço, no entanto, que muitos não são dignos delas, mercê da sua marreca pedagogia e da sua postura em relação aos alunos, originando que estes, por um lado, não compreendam o que lhes é transmitido, e por outro tomem o freio nos dentes e se apossem de um desregramento que atinge os limites da razoabilidade.
Podem juntar-se todos os psiquiatras e neurologistas, sociólogos e assistentes sociais, numa tentativa vã para justificar o injustificável, porque as suas bonitas teses, vazias de conteúdo, nada justificam; antes pelo contrário: agravam mais a situação de insubordinação e a falta de respeito que actualmente se vive nas instituições de ensino, desde o primário até à universidade, onde o desrespeito abusivo é um facto dos nossos dias, cujas provas são de total irrefutabilidade.
Não venham os "entendidos" dubiamente armados de puritana compreensão, porque não foi neles que o "arganel" foi introduzido, imputar as culpas de tudo o que tem vindo a acontecer nas instituições de ensino, onde o professor é, por vezes, vexado e agredido, à descriminação social e à instabilidade familiar, porque isso, para além de ser caricato, só vem dar força aos novos energúmenos em fase de germinação e impulsionar os que já o são, a fazerem pior.
Ainda há bem pouco tempo numa das minhas crónicas, nomeei uma frase de Nietzch, "o medo é o pai da moral". O facto é que hoje ninguém tem medo e, por isso, a moral está decadente. Se os puritanos da filosofia do entendimento, nas suas intervenções televisivas e escritas, procuram justificar todas as atitudes dos desvios da personalidade que originam pulsões nefastas nalguns elementos constituintes da nossa sociedade, então é lógico que acabem de vez os castigos, porque ninguém faz nada de bom ou de mau sem uma razão de causa. Assim sendo, existe uma equivalência absoluta entre o bem e o mal. Neste caso, que reine a anarquia. Mas que o resultado dessa mesma anarquia ataque incisivamente aqueles que a defendem, que eles mudarão de ideias a curto prazo.
O problema actual existe por causa da existência do "culto" à impunidade, onde fiéis crentes tudo compreendem, ou fazem por isso, porque as coisas não se passam com eles e, por outro lado, têm um posto de trabalho a assegurar; eu compreendo-os, todavia não concordo com as suas alegações!
Actualmente quem dá o pão, já não o dá, ou não sabe dar a educação e, por vezes, nem uma coisa nem outra. Contudo, isto não deverá ser motivo para justificar a isenção implacável do castigo sem qualquer condescendência, que evidentemente deverá obedecer não só ao delito cometido, mas também a uma série de antecedentes que normalmente precedem a sua eventual consumação.
As instituições de ensino, no que respeita a comportamentos, são, em parte, a continuidade daquilo que no seio familiar é ensinado, não descurando porém, que independentemente disso, cada um sabe o que é o bem e o que é o mal.
Agredir um professor ao ponto de o mandar para o hospital, como recentemente aconteceu. Na minha cabeça, esta atitude não tem lugar para desculpas. No meu tempo, atitudes menos "poluentes" do que esta, resolviam-se com duas ou três chapadas no cangote, dadas por um Director ou até mesmo por um professor, que até davam para ver a Ursa-Maior; e chegado a casa, se apresentava queixa comia mais duas ou três. Era assim que as coisas andavam direitas.
Presentemente, com toda a compreensibilidade doentiamente vivente, não é permitido puxar a orelha ao menino porque ele fica traumatizado e o professor é condecorado com um processo disciplinar por agressão indevida. E os pais todos contentes, de mãos dadas com as leis governamentais, até alinham na fita do menino, ajudando a linchar a autoridade do professor, esquecendo-se de que país com ensino defeituoso e onde não existem regras, é país com espondilose anquilosante cívica, que lhes servirá de futura enxerga, onde jamais conseguirão descansar a consciência do seu osteoporoso esqueleto"
António Figueiredo e Silva

domingo, abril 02, 2006

A violência nas escolas

O artigo abaixo foi escrito por João Pereira Coutinho, no jornal "Expresso".


"Não vale a pena mergulhar em pessimismos. Portugal continua produtivo. De acordo com o Ministério da Educação, no ano lectivo de 2004-2005 registaram-se 1200 agressões no interior de das escolas nacionais. É muito? Talvez, se tivermos em conta que "violência" e "aprendizagem" não costumam andar de mão em mão: é muito difícil aprender Matemática enquanto se esmurra o professor de Matemática. Em contrapartida, é bom saber que a violência juvenil contribui para o funcionamento do sistema nacional de saúde: no mesmo período, 191 professores, funcionários e alunos receberam tratamento hospitalar. Esta semana, aliás, quando o Ministério relembrava estes números, uma professora dava entrada nas urgências, depois de confronto com "criança" de 15 anos. Como explicar esta tendência precoce para o crime?
A doutrina, como sempre, divide-se. Mas nas explicações correntes encontramos tese conhecida: famílias de miséria produzem crianças de miséria. Se me permitem, não cola. Esta espécie de determinismo social destrói a responsabilidade do agressor, explica o seu comportamento e justifica a natureza do acto. E, além disso, não são apenas famílias de miséria que produzem crianças de miséria. Hoje, talvez seja mais correcto afirmar que famílias de miséria produzem crianças de miséria que produzem famílias de miséria. Não são apenas os alunos a agredir os professores. os pais também gostam de molhar a sopa. Curioso avanço. Há duas ou três gerações, um filho com tendências criminosas era uma vergonha para a família. Hoje, é uma jóia de família. Comentários?
Apenas três. Primeiro, um sistema de ensino com 1200 agressões por ano não é um sistema de ensino; é uma escola de criminalidade para onde se entra vivo e de onde se sai com sorte. Segundo, o ensino português não precisa apenas de "inovação" ou "reformas"; precisa, antes de tudo, de autoridade e, em casos crescentes, de polícia. E, terceiro, a ideia simpática de que existe em todas as criaturas um desejo de aprendizagem não sobrevive à realidade: "crianças" de 15 anos que agridem professores não desejam, no fundo, coisa alguma."

Todos sabemos que estes números não espelham a realidade. Muitas agressões vão acontecendo que não são contabilizadas, porque os agredidos delas não fazem queixa, por vergonha ou por medo de retaliação dos agressores. O Ministério da Educação continua a não lhes dar a atenção devida, por entender, provavelmente, que ainda não há motivo para preocupação. Enquanto o Ministério não toma as medidas que há muito se impõem, os alunos vão "pintando a manta" a seu bel-prazer, porque sabem que não são devidamente penalizados pelos actos praticados. Aos professores, resta-lhes ir aguentando a situação como podem: com carradas de muita paciência e algum desespero à mistura. Quando o desespero atinge níveis insustentáveis, a solução é o recurso ao psiquiatra e, possivelmente, uma estadia em casa por tempo indeterminado.
Noutros países este problema é atacado de frente. O plano espanhol a aprovar esta semana obriga os pais dos indisciplinados a pagar aulas de reeducação e inclui nos castigos actividades ao serviço das escolas. Por cá, como sabemos, os pais nunca são responsabilizados pelos actos dos seus rebentos. Como dizia há pouco tempo na minha escola um pai de um aluno, quando confrontado com a indisciplina do filho: "Se pago os meus impostos a escola tem mais do que obrigação de aturar o meu filho. Era o que mais faltava se não o fizesse!".

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Multas pesadas para insultos a professores

"Cerca de 20 multas de 103 dólares (85 euros) foram aplicadas desde Novembro no Liceu Bulkeley, de Hartford, Connecticut, EUA, a alunos que ofenderam os professores. As autuações, feitas por polícias em serviço na escola, equivalem às coimas de excesso de velocidade e levam a tribunal quando não são pagas. A acção abrange já 1600 estudantes e será alargada ao outro liceu da cidade." Se isto fosse levado à prática em Portugal acabavam os problemas financeiros nas nossas escolas.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

A violência nas escolas

Os números avançados pelo Ministério da Educação sobre os casos de violência escolar, não preocupam a ministra que considera os 1200 casos de agressão ocorridos no ano lectivo 2004/2005, um número irrisório atendendo à globalidade do sistema educativo. A ministra desvaloriza a questão e garante que não há motivo para preocupações. Alunos, professores e funcionários podem andar descansados porque a escola é um local seguro. Quem assim não pensar só pode estar a exagerar. Esquece-se a senhora minitra de que se a este número juntássemos todas as outras ocorrências que, por este ou aquele motivo, não foram contabilizadas, teríamos valores bem mais preocupantes. Já para não falar das agressões verbais de que diariamente são vítimas professores e funcionários, e aí teríamos um valor incomensurável. Infelizmente, tudo isto são "peanuts" para a senhora ministra.

quinta-feira, novembro 24, 2005

O exemplo britânico

Os pais dos alunos com comportamentos violentos nas escolas britânicas vão passar a ser multados num valor que pode ir até aos 1450 euros. "As intimidações verbais e físicas não podem continuar a ser toleradas nas nossas escolas, seja quais forem as motivações" sublinhou a Secretária de Estado para as Escolas. Disse também que " as crianças têm de distinguir o bem e o mal e saber que haverá consequências se ultrapassarem a fronteira". Acrescentou ainda que "vão reforçar a autoridade dos professores, dando-lhes confiança e apoio para que tomem atitudes firmes face a todas formas de má conduta por parte dos alunos". A governante garantiu que "as novas regras transmitem aos pais uma mensagem bem clara para que percebam que a escola não vai tolerar que eles não assumam as suas responsabilidades em caso de comportamento violento dos seus filhos. Estas medidas serão sustentadas em ordens judiciais para que assumam os seus deveres de pais e em cursos de educação para os pais, com multas que podem chegar às mil libras se não cumprirem as decisões dos tribunais". O Livro Branco dá ainda aos professores um direito "claro" de submeter os alunos à disciplina e de usar a força de modo razoável para a obter, se necessário.
Em Portugal, como todos sabemos, o panorama é radicalmente diferente. Por cá, continua a vingar a teoria do coitadinho: há que desculpabilizar as crianças até ao limite do possível, pois considera-se que o aluno é intrinsecamente bem formado, o que o leva a assumir comportamentos desviantes são factores externos (contexto social e familiar) que ele coitado não consegue superar. Temos assim que o aluno raramente é penalizado e quando o é, os castigos ficam-se na sua maioria por penas ligeiras, não vá correr-se o risco de o menino/a sofrer traumas que o podem marcar para o resto da vida. As notícias sobre actos de vandalismo, de agressão, de indisciplina e de violência praticados em contexto escolar que, com progressiva frequência vamos conhecendo, deviam merecer da parte de quem tutela a educação, medidas mais enérgicas que infelizmente tardam em chegar. Porque não seguir o exemplo britânico?