segunda-feira, outubro 09, 2006

"Ditadora", "autista" e "mentirosa", disseram eles


"1. O que Lisboa viu no dia 5 de Outubro, 96 anos depois do nascimento da República e Dia Mundial do Professor, foi a maior manifestação de sempre de docentes portugueses. Simpatize-se ou não com o processo, mais de 20 mil professores (e os números são da polícia, que não de fontes sindicais) a dizerem na rua o que lhes vai nas almas, vindos de todo o país, em dia feriado, foi esmagador. "Ditadora", "autista" e "mentirosa" foram alguns qualificativos endereçados à ministra da Educação, no calor da indignação. Se esta senhora integrasse um governo democrático e de esquerda, estaria agora a pensar. Mas uma voluntarista rudimentar como ela, que chega ao cúmulo de defender publicamente que se deve avançar mesmo que não existam condições para isso, que de Educação só vê cifras e números, mesmo sem os saber interpretar, não pensa.

2. Sendo que o carácter meramente formal da democracia em que vivemos parece não inquietar particularmente os portugueses, já o mesmo se não pode dizer quanto às clivagens que marcam hoje a nossa sociedade. Maliciosamente, políticos e gente de fluente "economês" têm-nas fomentado segundo a velha cartilha salazarenta do dividir para reinar, lançando o privado contra o público e os pais contra os professores (não se ufana a ministra de ter perdido os professores mas ter ganho os pais?). Os mais de 20 mil professores que desceram a Avenida da Liberdade não protestaram apenas contra o aviltamento e contra o roubo. Protestaram contra a sociedade que este Governo de direita liberal cega está a impor-nos, trocando pessoas por estatísticas manipuladas e números falsos, e o concreto, pungente, pelo abstracto. É fácil para os senhores que estiveram no Beato, sob a sigla "Compromisso Portugal", liquidar de uma só vez a vida de 200 mil funcionários públicos e famílias, sem que nos digam aquilo a que eles próprios se comprometem. É fácil para o governador do Banco de Portugal, confortado com o seu belo salário e protegido por uma reforma de privilégio, dizer que os salários dos funcionários públicos devem diminuir. O que é difícil é convencer os professores a andarem para trás enquanto os lucros bancários continuam por tributar, a corrupção grassa, a promiscuidade entre os interesses particulares e os do Estado persiste e os encerramentos de unidades produtivas viáveis se fazem em nome da sacrossanta economia de mercado.

3. A economia é uma caldeirada de ciências que deve ser usada para servir as pessoas, todas as pessoas, para uns. Para outros, a economia é um fim em si e falam dela como os taliban de Alá ou as beatas da Nossa Senhora de Fátima. A maneira como se olha a economia permite distinguir a esquerda da direita. A esquerda não pode governar sem pesar a consequência das suas medidas na vida da Pessoa e das pessoas. É por isso que Sócrates e servos são a direita nua de ideias no poder. Sob o estandarte da rosa murcha, vão ao próximo congresso do partido, que ainda se chama socialista, sem opositores, com um inegável apoio do sebastianismo nacional. Era bom que a indignação atirada ao vento da Avenida da Liberdade ecoasse nos ouvidos dos portugueses. A espoliação que agora toca aos professores chegará a (quase) todos, vintém após vintém.

4. A crise e o clima social que gerou seriam claramente propícios a um emendar de mão, que contaria com a solidariedade dos professores. Mas não chegámos à pré-falência senão por culpa da elite política, dos partidos que nos têm governado e dos erros que, ano após ano, foram cometendo. Era bonito e mobilizador que o reconhecessem, antes de nos ir aos bolsos e às batatas dos nossos filhos. E já que se persignam hipocritamente nas cerimónias oficiais a que presidem, em nome do Estado leigo que representam, bem podiam fazer essa contrição pública em vez de nos elegerem como malfeitores sociais. Foi contra a impossibilidade de corrigir erros de décadas num átimo e a necessidade de partilhar com os interessados as formas de o conseguir que os professores se manifestaram. Foi contra o escandaloso aumento do fosso entre ricos e pobres (segundo o INE, 10 por cento da população, os mais ricos, recebem mais que 50 por cento dessa mesma população, os mais pobres) que os professores protestaram.

5. Falei acima de estatísticas manipuladas. Que bom seria alguma televisão sentar frente a frente, em contraditório público, quem tem leituras diferentes dos mesmíssimos dados estatísticos. E se ficasse claro que apenas um parceiro europeu tem menos funcionários públicos que nós, que temos a segunda mais baixa despesa com saúde da Europa, que somos quem menos gasta em educação, que o número oficial de alunos por professor é uma treta e que os professores portugueses estão bem longe de ser os melhor pagos entre os pares, etc., etc.? Por mim, iria lá deliciado, confesso, e não vetaria interlocutores como a ministra da Educação terá feito para ir ao Prós e Contras. Prometo levar notas de vencimentos dos professores de vários escalões e um belo documento assinado pelo sindicalista Jorge Pedreira, quando então defendia exactamente o contrário do que hoje diz o secretário de Estado Jorge Pedreira, sobre a mesmíssima matéria das carreiras dos docentes".

Santana Castilho

Jornal Público

sábado, outubro 07, 2006

Demonstração de força

A manifestação de ontem excedeu as minhas melhores expectativas. Confesso que não estava à espera de uma participação tão massiva: 20.000 ou 25.000 manifestantes, é um número nada desprezível, bem pelo contrário, e revelador do grande descontentamento dos professores face à política da ministra e, em especial, das barbaridades inscritas no novo ECD. Os professores parece que finalmente acordaram e tomaram consciência de que têm de lutar se quiserem fazer valer os seus direitos. Deseja-se que este dia de luta tenha constituído um factor motivador para todos aqueles docentes que, pelos mais variados motivos, não puderam ou não quiseram estar presentes. Novas jornadas de luta se avizinham - 17 e 18 de Outubro - e todos aqueles que não participaram ontem, têm nestes dias uma boa oportunidade de o fazer. Quanto mais não seja por uma questão de respeito por todos aqueles colegas que andam a lutar por eles. É imprescindível que os professores dêem uma imagem de unidade num combate onde não nos é permitido perder.

quinta-feira, outubro 05, 2006

Será boato?

Os sindicatos, nalgumas escolas, andam a dizer que os professores dos 8º, 9º e 10º escalões que não se queiram candidatar a professores titulares sujeitam-se a ir para o quadro de excedentes. Será que isto tem algum fundamento ou é apenas uma manobra de diversão?

quarta-feira, outubro 04, 2006

Maria de Lurdes igual a si própria

No final de uma visita a escolas básicas do concelho de Loulé e Portimão, a ministra da educação conseguiu juntar à sua habitual arrogância e prepotência, um cinismo revoltante. A mulher tem um particular prazer em atentar contra a dignidade dos professores e faz gala em não esconder o gozo que isso lhe dá. Esta atitude provocatória sem limites pode um dia sair-lhe bastante cara. Há muitos bons professores por esse país fora, que se empenham ao máximo na sua profissão e que começam a estar fartos deste constante ataque à sua dignidade profissional. De tanto esticar a corda, um dia ela parte e, nessa altura, a senhora ministra pode vir a colher os ventos que desde há largo tempo não se cansa de semear.

domingo, outubro 01, 2006

O stress na profissão docente

É rara a vez em que não chegue a casa carregadinho de stress após mais um dia de trabalho, sobretudo naqueles dias em que a carga horária é mais pesada. Esta é uma situação muito particular da condição de professor e que não se verifica na maioria das outras profissões. Os problemas da nossa profissão são, como se sabe, inúmeros: a indisciplina; a falta de empenhamento dos alunos nas aulas; a falta de condições de trabalho; a insuficiência de apoios por parte do Ministério da Educação; as exigências que são feitas aos professores para os quais eles não estão preparados (ser pai, mãe, assistente social, psicólogo, etc); a constante desvalorização social de que somos vítimas apesar do trabalho intenso que envolve o "ser professor". Estes são apenas algumas das situações complexas com as quais os professores convivem diariamente. Outros tantas poderiam ser acrescentados sem o menor esforço. Ora tudo isto contribui para que o "ser professor" devesse ser considerada uma profissão de risco. Aliás não será por acaso que os profissionais de ensino são aqueles que mais recorrem à ajuda psiquiátrica e psicológica. Infelizmente, este não parece ser o entendimento do Ministério da Educação que não só resolveu aumentar a idade da reforma dos professores dos 60 para os 65 anos, como ainda decidiu que a primeira redução da componente lectiva só irá acontecer aos 50 anos de idade. Nem dá para acreditar! Uma decisão destas só pode ser tomada por alguém que não consegue percepcionar a verdadeira dimensão do que é ser professor na sociedade dos nossos dias. Seria interessante verificar qual a percentagem de professores que aos 60 anos está em condições físicas e psicológicas para enfrentar as exigências da profissão? Muito poucos, direi eu.

sexta-feira, setembro 29, 2006

Desabafos de uma professora "titular"

"Mas... só me apetece dizer "os professores têm o que merecem".Mas que merda de gente é esta que se põe a falar sobre a Proposta de alteração do Estatuto da carreira docente sem o ler primeiro! É ouvir "a fulana disse-me que...o sicrano disse-me que....caíram na armadilha montada (muito bem montada) pelo ministério e é vê-los (furiosos e ultrajados) de braços no ar a dizer raios e coriscos dos encarregados de educação: "EU? SER AVALIADA PELOS PAIS DOS ALUNOS? ERA O QUE FALTAVA! TODOS BURROS E ANALFABETOS, SEM FORMAÇÃO, IRRESPONSÁVEIS, ETC, ETC, ETC..." E não saem daqui . Que bom para o ministério, cuja ministra, a esta hora, esfrega as mãos de contente e diz "esta classe é uma cambada de burros, deixai-os esbracejar à vontade, ocupados com a guerra contra os pais porque, aquilo que a nós realmente interessa, é o resto que está escrito no novo estatuto"! Sou obrigada a tirar o chapéu a esta ministra e dizer que é, de facto, muito inteligente, embora pudesse ser mais bem educada e dizer as coisas de forma mais "subtil", mas para além de ser inteligente é, como se diz cá no Alentejo, "mais bruta que uma morada de casas", e quando fala é para deitar tudo abaixo. Pois, pois, ocupem-se com os pais e não vejam que: a partir de agora, 80% dos professores nunca atingirá o topo da carreira; navegarão toda a sua vida profissional no 3º escalão, recebendo um mísero salário (isto, se não tiverem o azar de receber duas classificações seguidas de "regular", ou pior ainda, forem classificados de "insatisfaz", porque aí são excluidas do circuito, sem hipótese de regresso) ; os desgraçados que agoram iniciam, para além do exame de estado, e supondo que têm nota positiva, têm um primeiro ano de experiência para mostrarem se servem ou não, se não, fora com eles. Agora, pergunto eu: os médicos ou os juízes também o fazem? Se calhar, deviam!; a 1ª redução lectiva (2 horinhas) só vai acontecer aos 50 ANOS DE IDADE; e pensar que na Alemanha a seguir a uma 1ª recaída, após uma depressão nervosa, os docentes são reformados! Um professor, dos 2º, 3ºciclos e secundário, com 50 anos de idade, em Portugal, irá enfrentar uma média de 100 a 130 alunos diáriamente; e livre-se de ir ao psiquiatra porque, então, com fama de "maluco" é que nunca mais passará da classificação de "regular", se não for "pró olho da rua"(supranumerário). E dizem já alguns todos inchados "Eu já sou professor de 1ªcategoria," E ENCHEM A BOCA PARA ACRESCENTAR "JÁ SOU PROFESSOR TITULAR". Mas que tolos, não viram o presentinho envenenado que lhes está reservado: são eles que obrigatóriamente têm que assumir as funções de coordenadores, executivos, departamentos, etc. Há que aprender a ser "lambe-botas" dos chefes de departamento, dos coordenadores de grupo e dos membros do executivo (claro, sem esquecer a oferta dos presuntos aos encarregados de educação!), são eles que nos vão avaliar numa escala de 1 a 10;Um dos itens de avaliação ao docente, a preencher pelo executivo é "nº de alunos que reprovou", "nº de alunos que abandonou"...finalmente, o insucesso escolar vai acabar e os alunos num futuro próximo não vão saber escrever uma linha direita, nem somar 2+2, quer dizer, 1+1, porque 2+2 já não sabem, agora. E é vê-los a berrar "greve aos exames, greve aos exames!!!!!!!" . Já se esqueceram da requisição civil feita nos exames do ano passado, durante a qual, pusemos o rabinho entre as pernas e fomos todos assinar o ponto. Ninguém fala de uma greve de zelo, a começar no período das avaliações, mas não, isso seria uma atitude demasiado nobre para ser levada a cabo por uma chusma de incompetentes que pensa logo: "HÉ PÁ, MAS ISSO VAI ATRASAR A MINHA IDA PARA FÉRIAS, NÃO PODE SER"! A ministra aparece na comunicação social a "chamar tudo aos professores" e eles, com um sorriso larápio ainda dizem "conheço colegas que são mesmo o que ela (ministra) diz"; e os MUITOS que o não são? Tive um saudoso professor de História Económica que, na década de 80, dizia "aos professores só já falta cagar em cima". Pois agora já não falta! RECUARAM COM OS MÉDICOS, RECUARAM COM OS MAGISTRADOS, MAS TÊM A OFENSIVA GANHA COM OS PROFESSORES QUE, DE FACTO, SÓ TÊM O QUE MERECEM."


Mariana (uma professora titular).

segunda-feira, setembro 25, 2006

Os campeões do arrependimento

Um recente inquérito feito pela Associação Nacional de Professores a 3252 professores concluiu que 43,6% não escolheriam esta profissão se pudessem voltar atrás. Tendo em conta tudo o que se tem dito dos professores, nomeadamente, que se trata duma classe privilegiada e bem remunerada, este resultado deve-nos fazer reflectir. Das duas uma: ou os professores gostam de dramatizar - se calhar é por isso que os consultórios dos psiquiatras se enchem desta gente! - e, nesse caso, não responderam ao inquérito com seriedade, ou então tudo o que se tem dito sobre eles não passa de um enorme embuste que deve ser desmascarado. Eu sei a resposta. E você, caro leitor?

sexta-feira, setembro 22, 2006

De indignação em indignação

Maria de Lurdes Rodrigues, acorrendo a mais uma solicitação, vem à estampa, esta semana na revista "Visão", num artigo de opinião, onde a dado passo escreve esta coisa singela: "A estruturação da carreira docente em dois níveis, introduzindo a diferenciação e o reconhecimento do mérito dos professores, procurará estimular o seu empenho...". Como?! Desde quando é que os professores se podem sentir motivados quando sabem que, por muito que se dediquem ao seu trabalho e por melhores que sejam os seus níveis de competência, o mais provável é nunca ascenderem à categoria de professor titular pela simples razão de que esta senhora decidiu introduzir numerus clausus no acesso aos patamares mais altos da carreira? Escrever estas alarvidades com o maior dos despudores, revela uma falta de honestidade intelectual que revolta qualquer leitor mais esclarecido. Mesmo que esse leitor não seja professor!

terça-feira, setembro 19, 2006

Os Conselhos Executivos

Ontem não vi o "Prós e Contras". E não vi porque de antemão sabia que não iria ser dito nada de novo. Além disso já não tolero ouvir a ministra: a senhora provoca-me náuseas e dado que não sou obrigado a ouvi-la, faço tudo para a evitar. Não duvido, no entanto, que muitos professores tivessem estado à frente do televisor ouvindo atentamente tudo o que a senhora tinha para dizer. Lendo alguns blogues esta manhã confirmei as minhas suspeitas: a ministra esteve igual a si própria, o mesmo é dizer, arrogância e prepotência a rodos e competência e educação a menos. No programa também estiveram alguns presidentes de conselhos executivos que, de acordo com os relatos, outra coisa não fizeram que bajular a ministra. Muitos deles, há muitos anos que não dão aulas mas mesmo assim arrogam-se o direito de querer representar os seus colegas professores. Deviam ter vergonha na cara. Esta gente - não são tão poucos quanto isso - está-se borrifando para a classe: fazem-se representar apenas a si próprios a aos seus interesses que na grande maioria dos casos passam pela perpetuação no poder sem olhar a meios e pisando (leia-se, perseguindo) todos aqueles que ousem enfrentá-los. No exercício do cargo seguem religiosamente as orientações do ministério, mesmo que estas sejam desapropriadas ao contexto em que se inserem. Não importa. É preciso mostrar serviço aos superiores hierárquicos e eles estão lá para isso. Querem dar a imagem de bons alunos e fazem os possíveis para manter a confiança das chefias (direcções gerais e ministério da educação). A grande maioria queixa-se do excesso de trabalho e das curtas férias mas, curiosamente, quando chegam as eleições lá estão eles novamente a recandidatar-se. Vá lá a gente perceber porquê! Limitação de mandatos precisa-se e com urgência!

domingo, setembro 17, 2006

A Área Projecto no 12ºAno

Os alunos do 12ºAno foram presenteados neste ano lectivo com uma nova "disciplina". Refiro-me concretamente à Área Projecto, área curricular não disciplinar, já velha conhecida dos alunos do unificado mas agora com outros níveis de exigência, no secundário. Alguém entendeu que o ensino secundário era demasiado académico e que seria necessário arranjar uma "disciplina" com carácter prático que desenvolvesse nos alunos uma visão integradora do saber, promovesse a sua orientação escolar e profissional e facilitasse a sua aproximação ao mundo do trabalho. Os alunos, claro está, não gostam da ideia. Os professores também têm dificuldade em acreditar no sucesso desta inovação. Será que alguém acredita verdadeiramente que a AP vá acrescentar algo de significativo à formação dos alunos do 12º ano? Chamem-me conservador mas esta parece-me mais uma daquelas medidas avulsas do ministério, apostado em modernices, que em nada acrescentam qualidade ao currículo e que acabam sim por constituir mais um suplemento de desmotivação em alunos e professores. Depois da Área Escola só faltava mais esta para nos atormentar o juízo e a paciência!

terça-feira, setembro 12, 2006

Uma classe amorfa

O ECD é uma coisa séria e devia merecer de todos os professores uma leitura atenta e pormenorizada. Infelizmente aquilo que se verifica é que grande parte ainda não leu o documento nem faz tenção de o ler. Não estão para aí virados. Uma pequena minoria limita-se a recolher algumas informações junto daqueles colegas que ainda se vão preocupando com a profissão, enquanto a esmagadora maioria nem isso faz. Não restem dúvidas que esta constante perseguição de que temos sido vítimas por parte da ministra da educação só acontece porque somos uma classe amorfa no que toca à defesa dos nossos direitos. Quando discordamos, os nossos protestos e lamentos ficam-se pela sala de professores, deixando que outros - os sindicatos e alguns professores mais ousados - façam o trabalho que devia caber a todos. Sendo assim, temos o que merecemos e não temos autoridade moral para nos queixarmos.

sábado, setembro 09, 2006

Direito à indignação

Ainda a propósito do post anterior e num artigo sobre a mesma matéria, podemos ler no "Correio da Manhã" de hoje, o seguinte: "Os salários dos docentes nacionais são, no entanto, dos mais baixos quando comparados só por si com os dos outros países, sem levar em conta a ponderação do PIB. No início da carreira, um professor no Luxemburgo recebe 2554 euros por mês; na Alemanha, 2183; e em Espanha 1712."
Isto esquecerem-se os senhores do "Público" de referenciar porque obviamente não lhes interessa. Desde há muito tempo que este jornal vem fazendo uma campanha de assassinato público dos professores que já enoja. Manipulam dados, dão falsas notícias, sempre com o intuito de achincalhar a classe docente.
Se querem ser sérios utilizem os mesmo critérios e abordem os salários dos políticos, dos gestores públicos, dos advogados, dos engenheiros, dos médicos, dos juízes, dos enfermeiros. Aí é que os resultados seriam certamente surpreendentes!

Estamos sempre a aprender

Depois de ler esta notícia fiquei a saber que o melhor que tenho a fazer é emigrar para o México. Contrariamente ao que eu e muita gente pensava, é neste país que os professores têm o melhor nível de vida. Qual países nórdicos, qual Inglaterra, qual Alemanha, qual França, qual Holanda...! Desenganem-se, pois não é nestes países que está o dinheiro. Para os professores o paraíso está no México. Durante muitos anos fizeram-nos crer que neste país da América do Norte a miséria abundava. Afinal tudo não passava de uma grande mentira!

sexta-feira, setembro 08, 2006

Promover uma cultura de exigência nas nossas escolas

A sociedade é cada vez mais competitiva, cada vez mais exigente. No trabalho, no desporto, no lazer, na formação e na investigação cada vez se exige mais e se estabelecem metas cada vez mais ambiciosas. Esta postura de exigência nem sempre é possível de ser aplicada na escola.
O processo de socialização do aluno, os problemas do sistema de ensino e a contradição e os seus grandes objectivos e as reais condições com que se deparam as escolas, bem como a orientação política de muitos governos, mais preocupados com estatísticas de sucesso/insucesso para Europa ver, têm levado à aprovação de sistemas de avaliação e progressão pouco concordantes com o grau de exigência que se pressente na sociedade em geral.
Da constatação destes factos resulta que não podemos continuar a passar a mensagem de que é mais cómodo promover o sucesso, mesmo sem o aluno saber, do que fazê-lo repetir novamente o ano, para que os objectivos e competências definidas sejam efectivamente atingidas.
É pois missão da escola, não só, ter em atenção todas as componentes sociais, económicas, afectivas e psicológicas dos alunos, mas também pugnar por um ensino de qualidade.
A aprendizagem da vida em sociedade passa pela aprendizagem de que o estudo, o empenho, o esforço, a dedicação devem efectivamente ser premiados. É assim que se passa na sociedade. Só os mais capazes, os mais exigentes consigo próprios é que são normalmente premiados, reconhecidos.
A escola no seu todo não pode ficar indiferente. Sem promover a competição, deve contudo, preocurar-se em formar com rigor, com empenho, em suma, com exigência.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Ministério da Educação não cede

Como era de prever, o Ministério da Educação não recua nas matérias essenciais do novo Estatuto da Carreira Docente. Limita-se a conceder uns pequenos rebuçados que em nada alteram as questões fundamentais do documento. Tamanha prepotência e falta de respeito só podem ter uma resposta por parte dos professores. Resta saber se somos capazes de a dar. Infelizmente, estou muito céptico quanto a essa possibilidade.

segunda-feira, setembro 04, 2006

O ensino em Portugal visto pelos imigrantes do Leste

"Alla desistiu de ter o filho, de 12 anos, a estudar em Portugal. Ao fim de seis anos de escolaridade, fartou-se de o ouvir dizer que "ia descansar para a escola", que aqui se aprendia brincando e da "grande indisciplina" que marcava o dia-a-dia do ano lectivo nacional. O miúdo até ia bem - era um dos melhores da turma - mas voltou para a Ucrânia. Lá garante a mãe, é "tudo muito diferente. A professora não é uma amiga, é quem ensina. Os alunos estão lá para trabalhar e aprender. Não há brincadeira".
O embate foi duro para quase todos os imigrantes do Leste com filhos a estudar em Portugal. E começou logo nos primeiros dias da 1ª classe. Os meninos e meninas chegaram à primária a saber ler e escrever, a dominar as operações básicas de matemática e ainda com formação musical e física. Os seus colegas - todos portugueses - estavam ainda em branco.
Desde os 3 anos, na Ucrânia, que as crianças vão para a escola ter aulas de língua materna, matemática, música e educação física. "Como são pequenas, só têm 20 minutos de cada disciplina", explica Alla, garantindo que estão "sentados a trabalhar e isso é normal". Aos quatro, russos e ucranianos, aprendem a ler e a escrever. Se não o souberem, ficam para trás, ou "chumbam", uma vergonha nacional a que - pasmam-se os imigrantes - "ninguém liga nenhuma aqui!".
Explicar que só no final do 4º ano é exigido que os alunos portugueses saibam ler, escrever e contar, torna-se difícil de traduzir. Porque o fosso que divide a educação nacional e a das memórias dos imigrantes do Leste é, de tamanho "extra large". "Prefiro nem falar disso", diz Julia Gundarina, uma professora russa que apesar de estar cá há cinco anos e de "gostar tanto" que nem pensa em voltar para casa, assume que "a educação é o pior de tudo". Estranham, sobretudo, a maneira como se ensina, a falta de ordem, a "balda" generalizada. "Na Rússia os professores são mais exigentes", diz num português ainda mal arranhado, mas suficiente para perceber que importa não ferir as susceptibilidades.
Preferiram mudar de estratégia e criar alternativas. "A educação e a indisciplina nas escolas é um dos principais problemas da integração", diz Sérgio Treffaut, realizador brasileiro que produziu e dirigiu o documentário "Os Lisboetas". "Os imigrantes do Leste queixam-se muito destes aspectos. Acham que a escola, aqui, é demasiado banal", diz. Há quatro anos, abriu no Restelo uma escola russa que Julia dirige. Há cinco, Alla Lirkovest abriu uma escola ucraniana no Estoril. Mais de 120 estudantes estão no Restelo, desde ontem de manhã, em aulas que só fecham em finais de Junho. As turmas de ALLa não ultrapassam as 20 crianças e regressam hoje ao trabalho.
Começaram com o objectivo de ensinar a língua e cultura russa e ucraniana, mas alargaram a sua área de actividade. Ensinam os que acabaram de chegar a falar português e a aprofundar conhecimentos aos que frequentam a escola normal. Aos sábados, vindos de Setúbal, de Torres Vedras e de todos os arredores de Lisboa, as crianças passam nove horas seguidas na escola. Compensam num dia as falhas de uma semana de trabalho. "Ficam cansadas", garante Julia. Na segunda-feira voltam à escola portuguesa. Para descansar mais um pouco..."

Rosa Pedroso Lima no "Expresso"


Estes imigrantes do Leste não precisam de muito tempo para conhecerem a realidade portuguesa. Na educação, conseguem fazer o diagnóstico correcto - até mesmo as crianças, pasme-se! - algo que nós portugueses nunca conseguimos. Disciplina, exigência e trabalho. É muito simples. Só nós é que teimamos em não ver, que a chave do problema para a melhoria do ensino neste país, passa pela implementação destes factores. Em vez disso, escudamo-nos em teorias pedagógicas de valor mais que duvidoso que há muito minam e fragilizam o sistema de ensino em Portugal
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sexta-feira, setembro 01, 2006

Reprovações aumentam 20% no 9ºAno

A taxa de reprovação e desistência no 9.º ano subiu no ano lectivo de 2004/2005 de 12,5% para os 19,9%, segundo números publicados hoje pelo Diário de Notícias. Dos 96.500 alunos inscritos, 19 mil chumbaram. Trata-se do pior desempenho em mais de uma década. Tendo em conta que em 2005 os exames de Português e Matemática tiveram um peso de 30%, tudo aponta para que estes valores venham a ser ultrapassados.
Pensávamos nós que a educação neste país já tinha batido no fundo, mas, afinal, ainda há muito "fundo" por desbravar.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Sobre o que não fala a ministra nem ninguém

"A época de exames e as suas peripécias puseram a nu a fragilidade da política educativa do Governo. E, mais gravemente, mostraram - coisa ainda pouco posta em evidência - como o actual Governo, nos mais diversos domínios, despreza ou ignora o princípio do Estado de direito. Modificar as regras de acesso à universidade em pleno processo de avaliação, fazê-lo sem alterar as respectivas leis, aprovar à pressa e a posteriori um lei inconstitucional (por violação da protecção da confiança) e mandá-la publicar escassas horas depois, terminando com a produção de um despacho que já havia sido emanado e divulgado sem qualquer base legal, é a negação pura e simples do núcleo essencial do Estado de direito. Nada que admire ou espante num país de costumes brandos, em que as regras estabelecidas não valem nada e os improvisos e "jeitinhos" valem tudo.
A gravidade do caso não reside só no que ele representa para a nossa vida cívica e para o exemplo que o Estado dá aos jovens portugueses. Reside também na circunstância, de ao fim e ao cabo, ele pôr na sombra e no olvido as centenas de milhares de jovens e de alunos que não são candidatos às universidades. Centenas de milhares que, sem qualquer formação adequada, pululam por aí.

É muitas vezes notado que o Estado Novo seccionou o sistema de ensino em dois segmentos. O segmento académico alicerçado nos "liceus" e conduncente às universidades, e o segmento profissionalizante, alojado nas "escolas técnicas" e, qundo muito, tendente aos "institutos superiores". Percebe-se que um regime corporativo - assente na representação orgânica das profissões - tivesse lugar para a preparação dos ofícios e mesteres. E percebe-se ainda que um regime "elitista" quisesse separar o destino dos "meninos bem" e dos meninos "sobredotados" do fado dos filhos de uma classe média e emergente (as escolas técnicas). Isto para lá de, por força de uma mundividência "ruralista", a grande massa dos jovens viver então à margem de qualquer formação escolar secundária e se ver constrangida a ingressar aos 10 ou 12 anos no mercado de trabalho (ou melhor, no "mercado dos aprendizes").
naquele universo educativo, o ensino técnico garantia entretanto dois objectivos altamente meritórios. Primeiro, fornecia uma aprendizagem efectiva - servida outrossim por uma formação geral satisfatória -, que permitia que os alunos chegassem ao mercado de emprego com "ferramentas" de trabalho. Segundo, e um tanto paradoxalmente, constituía um autêntico patamar de elevação social. Com efeito, apesar do rótulo social, muitas pessoas que, de outro modo, nunca passariam de ocupações indiferenciadas logravam converter-se em quadros empresariais médios e intermédios. Muitas delas - para quem, à partida, a universidade representava uma quimera - acabavam mesmo por completar graus académicos.

O 25 de Abril, movido pela euforia igualitária, aboliu o ensino técnico. E fê-lo, em grande parte, de boa-fé. Alegava-se que este se fundava num prejuízo de classe, adjudicando o estudo académico aos privilegiados e o ensino prático aos excluídos. A abolição, no entanto, não era mais do que um pueril sintoma da sobrevivência do "preconceito" do regime anterior. Também para a democracia, o exercício de profissões de alçado universitário. E se era assim, deveria decretar-se o fim das profissões braçais, ordenar-se o termo dos trabalhos técnicos e erigir-se um promissor "país de doutores".
Apesar de, nos anos seguintes, se ter criado o ensino técnico-profissional e os cursos tecnológicos, apesar do investimento europeu na área da formação profissional, a verdade é que não se conseguiu refundar o ensino técnico como alternativa normal e paralela no sistema geral de ensino. As iniciativas pontuais de sucesso deram-se no ensino particular e contaram sempre com a resistência das autoridades governamentais. É justamente neste estado - sem uma via profissionalizante efectiva e credível - que chegamos aos 9 anos de escolaridade obrigatória e à veleidade de os converter em 12.

A piroridade na educação não é, como frequentemente se diz, o ensino universitário ou o secundário ou o básico. A verdadeira prioridade localiza-se no fornecimento de alternativas de habilitação técnica e profissional especializada. E isto tanto no plano do secundário - enquanto fonte directa e primária de habilitação - como, com a devida ponderação e acompanhamento em estados anteriores. Num contexto em que tanto se pretende conbater a taxa de abandono escolar, como é possível deixar de fora o ensino profissionalizante? Mesmo nos casos de abandono prematuro - anterior ao actual 9ºano, em que não se atigiu ainda a idade mínima legal para trabalhar -, não terá o ensino técnico e profissional uma palavra a dizer? Não será melhor ter jovens com 14 anos em curso de ordem profissional, porventura em estágios profissionais, do que tê-los na rua e na marginalidade?
A maior parte dos alunos que hoje conclui o 12ºano sem entrar na universidade encontra-se numa situação de grave impreparação. A formação teórica que recebeu - lacunosa e inadequada como é - não tem préstimo; a aprendizagem profissional é nula.
O que falta ao país, decididamente, não são historiadores e biólogos. Mas todos sentem a falta de electricistas, de picheleiros, de carpinteiros, de informáticos, de operadores de maquinaria de toda a sorte e ordem. Todos sentem, nos serviços e na indústria, a falta de especialistas que sejam profissionais e competentes e com know how. Não intercede aqui qualquer preconceito "classista". Afinal, o que favorece mais a coesão social, o reforço das classes médias e a tendência social para a igualdade? A ilusão de um "país de doutores", ou a consolidação de saídas profissionais que potenciam a verdadeira e sustentada progressão cultural e social?"

Paulo Rangel
Jurista e deputado do PSD

quinta-feira, agosto 10, 2006

A Transição

"A revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD) é uma tarefa que, ainda este ano civil, irá ser efectuada com a consequente implementação no nosso sistema de educação, sendo um diploma legal com uma importância fulcral e, na minha opinião, a primeira grande reforma da Ministra da Educação.
De facto, o ECD teve a sua génese há cerca de 16 anos, com uma alteração a meio da sua vida, tendo por certo que até ao final do ano será profundamente modificado, em todos os seus âmbitos. Dir-se-ia que vamos passar do “8 para o 80”, só podendo fazer uma análise crítica e construtiva mais detalhada depois das negociações que estão a ser levadas a cabo entre o Ministério e os sindicatos dos professores.
Porém, numa altura em que todos estão a usufruir de merecidas férias, depois de um ano lectivo em que “nada ficou como dantes”, atrevo-me a falar sobre alguns pontos que, julgo, merecem especial atenção aos nossos políticos e entidades negociadoras.
Deverá ser implementada uma avaliação do desempenho docente efectiva que premeie os melhores, em vez de hipocritamente, ser igual para todos como sucede actualmente. Esta medida fará com que os menos bons trabalhem e se esforcem mais para atingir os patamares que seus pares alcançaram. Os alunos, a educação, lucrará com isso. Não deve ser desprezada a instituição de um “prémio pecuniário de desempenho” para os melhores.
Entendo ainda que os pais e encarregados de educação não deverão ser chamados para “esta guerra” (avaliação dos docentes), já que as suas energias deverão ser canalizadas para outras latitudes escolares, onde os seus educandos lucrarão realmente. No entanto, é minha convicção que, em termos de avaliação, estes parceiros imprescindíveis, devem poder avaliar a escola que os seus educandos frequentam, com o objectivo de melhorias da/na mesma.
A criação das categorias de professor titular e professor é uma grande aposta deste equipa ministerial que, julgo, não irá “abrir mão”. Será um ponto de forte polémica, sobretudo na transição entre os dois regimes. Aqui, deverá existir algumas cautelas e cedências, pois todos os cargos importantes (diversas coordenações e orientações, direcção dos centros de formação, exercício de cargos de direcção executiva, exercício das funções de professor supervisor, etc.) não deverão ser entregues só aos professores titulares, tanto mais que nesta primeira fase, estes serão encontrados administrativamente (os professores que se encontrem posicionados nos 9º e 10º escalão da carreira docente transitam para a nova estrutura da carreira na situação de equiparado a professor titular, válida para efeitos funcionais e remuneratórios, exceptuando a aplicação das correspondentes regras de progressão e o exercício dos cargos de coordenação científico-pedagógica que estejam especialmente cometidos àquela categoria). A energia e sabedoria profissional dos professores mais novos deve, sobretudo nesta fase transitória, ser tida em conta de forma a catapultar os projectos das escolas, indiciando este procedimento uma boa gestão de recursos humanos que as escolas possuem.
É minha convicção que o busílis do ECD será a transição entre o velho e o novo modelo. Talvez mais que as novidades e profundas alterações que estão previstas, o “calcanhar de Aquiles” deste importante diploma residirá na estratégia a adoptar pelo Ministério, no sentido de uma transição que valorize a profissão docente, fomentando o gosto e vocação em ser professor/docente, uma das mais nobres profissões do mundo.Os nossos alunos também agradecerão!"

Filinto Lima
"O Primeiro de Janeiro"

terça-feira, agosto 08, 2006

Onde está a coerência?

"Aparentemente a nossa Ministra da Educação acha que todo o imbróglio em que se meteu (a si e aos desgraçados dos afectados por ele) valeu a pena. Toda a discricionariedade não foi em vão e todos podem ficar descansados que o precedente foi plenamente justificado. Ou será que não?

A melhoria de resultados não se registou, no entanto, na prova de Física, também abrangida no regime excepcional criado pela tutela, que permitiu aos alunos das duas disciplinas (programas novos) repetir as provas na segunda fase e concorrer com a melhor nota à primeira fase de acesso ao ensino superior, onde estão em jogo a maioria das vagas. A Física, as notas baixaram em relação à primeira fase, com a média de classificações a descer de 7,7 para 7,3 valores e a taxa de reprovação no exame a subir de 67 para 70 por cento.

Ora atente-se no conteúdo do despacho original do secretário de estado da educação(despacho interno nº2-SEE/2006):

"Tendo em conta que os resultados da 1ª fase dos exames nacionais relativos aos novos programas de Química (código 642) e de Física (código 615) evidenciam um valor médio relativamente baixo e muito inferior ao verificado no ano passado bem como ao verificado este ano nas provas relativas ao programa antigo das mesmas disciplinas (códigos 142 e 115, respectivamente);

Determino:

Todos os alunos que o desejarem podem repetir na 2ª fase, as provas de Química e Física (códigos 642 e 615)"


Uma vez que no caso de Física os resultados, na sequência da repetição, foram ainda piores, e tomando-se como critério o enunciado pelo secretário de estado (que não foi o da existência de particulares erros ou vícios da primeira chamada, mas sim somente a análise dos seus resultados e comparação com os do ano passado), aguarda-se ansiosamente a marcação de uma nova chamada para corrigir esta situação persistente e intolerável aos olhos do ministério."

Texto retirado de http://small-brother.blogspot.com

segunda-feira, agosto 07, 2006

Grande Verdade

"Os testes escolares acabam por avaliar aquilo que os alunos foram capazes de memorizar para as provas e não o que, na verdade, conseguiram aprender", conclui um recente estudo realizado pelo Instituto da Inteligência.

sábado, agosto 05, 2006

Como é que é possível?!

Foram hoje conhecidos os resultados dos exames nacionais. No conjunto da primeira e segunda fases, 58 disciplinas tiveram média positiva e 57 negativa, o que levou a ministra da Educação a considerar hoje, em conferência de imprensa, que «os resultados foram globalmente positivos». Não dá para acreditar que a ministra tenha dito isto perante um conjunto de resultados tão fracos!
Outra afirmação que não dá para acreditar é quando a senhora diz que valeu a pena a repetição do exame de Química, apesar das críticas "muito duras e pouco fundamentadas", uma vez que os alunos com nota positiva duplicaram relativamente à primeira fase. Até parece que os resultados são motivo para regozijo: de 6,9 passou-se para 8,8, um salto quantitativo que nos deve encher a todos de alegria!!! (curiosamente, esqueceu-se que a média na Física desceu de 7,7 para 7,3). O que eu gostava de saber e ela nunca nos vai dizer, é quanto alunos, graças a esta benesse, vão ocupar vagas que em circunstâncias normais caberiam a outros. Aí sim, ficaríamos a saber até onde chegou a injustiça.

quinta-feira, agosto 03, 2006

Ministério da Educação em silêncio

O Ministério da Educação não quer comentar as declarações do Provedor da Justiça que considerou ilegal o despacho que permitiu a repetição dos exames de Física e Química. E não comenta por uma razão muito simples: porque eles próprios têm consciência que cometeram uma ilegalidade e sabem muito bem que nesta fase o melhor é estarem quietinhos sob pena de se descredibilizarem ainda mais. Esta história dos exames constituiu-se num pesadelo para a ministra e a sua equipa, pelo que as ordens do 1º ministro devem ser no sentido de deixar que esta situação caia no esquecimento o mais rapidamente possível, por forma a minimizar os efeitos colaterais. E nada melhor que a acalmia das férias para superar esta crise.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Provedor confirma injustiças nos exames

A Provedoria da Justiça considera ilegal a excepção criada para os alunos que repetiram os exames de Física e Química, uma vez que ela vai contra o que está legislado para além de beneficiar claramente alguns alunos em detrimento de outros a quem foi concedida apenas uma oportunidade. Todo o processo de candidatura ao ensino superior está desvirtuado e qualquer pessoa com dois olhos na cara se apercebe da injustiça que foi criada, menos os serviços do ministério. Andaram a brincar com o esforço de alunos e professores, mas apesar disso continuam a lavar as mãos em todo este processo. Num país onde ninguém assume as suas responsabilidades e a culpa morre sempre solteira, nada disto é novidade.

terça-feira, agosto 01, 2006

Exames: incompetência, arrogância, autismo e manhosice

"O texto que tinha escrito para esta crónica não era este. Mas o decreto-lei ontem aprovado em Conselho de Ministros justifica que aborde o tema. Este decreto-lei que só conheço pelas referências feitas ao PÚBLICO pelo secretário de Estado Valter Lemos, vem estabelecer que as melhorias de notas tentadas na 2ª fase dos exames do 12º ano sejam válidas para a 1ª fase das candidaturas de acesso ao ensino superior.
O que até agora estava claramente vedado pela lei em vigor passará a ser possível a partir do dia em que a decisão, ontem tomada pelo Governo, produza efeitos. Mas esse dia é futuro, o que significa que tudo feito anteriormente nesse sentido é ilegal.
Recorde-se que o despacho Interno nº2 – SEE/2006 permitia a repetição dos exames 615 e 642, respectivamente Física e Química, e fixava a validade da melhor classificação obtida, dando origem a uma enorme trapalhada e a um hediondo atropelo à lei. Com efeito, como era possível dar comando diverso do que a lei fixava, por mero despacho interno de um secretário de Estado? Com era possível espezinhar tão levianamente o sagrado princípio da igualdade, decidindo que um grupo de alunos teria, por razões subjectivas de apreciação, tratamento diferente dos restantes, em igualdade de situação objectiva? Das múltiplas declarações de juristas, entretanto conhecidas, não vi uma só que não conclua pela manifesta ilegalidade da decisão. Apenas a inefável ministra da Educação afirmou na Assembleia da República que era legal.
Ora o que é que o decreto-lei ontem aprovado acrescenta? Pelo menos duas coisas: o reconhecimento governativo, tardio, de que só um decreto poderia permitir o que fizeram por despacho; que se seguirá, eventualmente, o processo de manhosice, na medida em que irão defender que deram meras instruções internas, que o que necessitava de decreto era a questão do processo de acesso e esse, quando se iniciar, já estará legitimado pela alteração da lei. É evidente a fragilidade e a insustentabilidade de tal estratégia. Mas é isto que está implícito nas declarações de Valter Lemos. Espantaria a inteligência mínima. Mas não espanta quem segue o que estes senhores têm feito. A lei dribla-se; decidimos já e mudamos depois; pois se até temos maioria e sabemos antecipadamente que a nossa ideia vence, para quê perder tempo com as fases processuais e com as opiniões dos outros? Triste este conceito de democracia e esta visão de Estado de direito.
A desconfiança profunda entre a ministra e os restantes sectores do sistema educativo evoluiu para um estádio de motim judicial. Providências cautelares, impugnações, greves, são o que se segue. O autismo da ministra impediu-a de ver que com um outro clima levaria a bom porto muitas das mudanças que preconiza, quem sabe, sem resistência. Esse autismo e a arrogância que o antecede ficaram patentes na questão dos exames. Em vez de reconhecer o erro, decidiu negá-lo. Com isso perdeu a confiança dos que até aqui manipulou, com as suas medidas populistas. Começando por afirmar não ter nada a explicar, acabou confrangedoramente cilindrada na AR, onde ouviu de tudo, até a acusação de falta de dignidade intelectual. Até eu, que não gosto dela, tive pena ao vê-la paternalmente protegida pelos gritos caricatos do ministro dos Assuntos Parlamentares. Tudo porque não percebeu que não se pode desmentir o óbvio.
Espero que, pelo menos, o país tenha percebido, finalmente, que há uma diferença entre uma chefe de divisão, e uma ministra e que muito do que se apresenta como determinação não passa de mera fraqueza. Este debate teve o mérito de mostrar que sem a protecção da simpatia dos que nada fazem para perceber a causa das coisas e sofrem de sabastianismo crónico, esta senhora soçobra. Porque, sobre teorias de Educação, nada do que diz entende. Porque o que faz assenta em pressupostos errados e conceptualmente insustentáveis.
Na génese de tudo está um aspecto pouco sublinhado e que por isso importa destacar. Muitos exames patentearam uma concepção técnica incompetente. E não me venham com a história de que só houve problemas com alguns, em meio milhar. É exigível ao Gabinete de Avaliação Educacional (Gave) que não haja problemas com nenhum. É para isso que existe. As declarações da sua presidente, tipo “...apropriação insuficiente do novo programa por parte dos professores, alunos e materiais...” para justificar o que aconteceu, servem para defender o impossível. Não são os exames que permitirão concluir isto; se isto se verificava, o Gave devia tê-lo percebido atempadamente e feito reflectir na concepção dos exames. É que um critério básico destas coisas (validade de conteúdo) exige a adequação do instrumento de medida à coisa a medir. Por outro lado, não serve de escusa “nem os catedráticos se entenderem sobre algumas questões”.
O problema é diverso: os exames só podem ser claros e incontroversos para todos. Juntando a estes factos erros científicos indiscutíveis, a conclusão é incontornável e tem nome: incompetência. Estes aspectos técnicos são da responsabilidade de técnicos. Mas a escolha dos técnicos e a definição dos mecanismos de controlo são da responsabilidade dos políticos. Sobretudo quando os erros se repetem e os técnicos se eternizam nos postos e ainda dizem disparates para se defenderem, estamos em presença de outra incompetência: política. Comecem pois, a antever os problemas do próximo ano se as senhoras (e senhores) não mudarem."

Santana Castilho no Público